A NATUREZA E O CONHECIMENTO DE DEUS
Euler Sandeville Jr.
São Paulo, 07 de maio de 2016

 

Hoje cedo o sol iluminava os verdes e as cores no quintal. Um sentimento puro e espontâneo, com a sensação da beleza, foi me tomando. Quanto mais contemplava, mais essa sensação preenchia a minha alma. Não era necessário nenhuma palavra. Não era necessário pensar. Momentos como esse são preciosos, depois voltamos aos nossos afazeres. Principalmente na cidade, o que é uma experiência comum e contínua para quem vive no campo, torna-se cada vez mais eventual.

Essa experiência com a natureza em plena metrópole, que se agitava para o trabalho, é de fato fruto tanto do trabalho humano por gerações, quanto é da natureza. Plantar a árvore também. Tudo o que estava ali, ou foi extraído da natureza pelo nosso trabalho e reorganizado, construído, como os tijolos, ou era ainda a própria natureza, o calor, a umidade do ar, as cores nas folhas da árvore, as maritacas e beija-flores.

A percepção disso não depende de um pensamento intencional, mas o entendimento também é importante. Meditando nesse momento, vejo que, sem dúvida, pode haver beleza nas coisas que fazemos, o que mostra que temos condição para sermos bem mais, e bem melhores do que temos sido. Contemplar a natureza, permite aflorar campos sensíveis e a consciência de nossa existência, em um rico aprendizado diante de Deus.

Podemos fazer coisas excelentes, belas e funcionais, úteis e prazerosas para os outros. Meu pai era médico. Quando era criança a seringa ficava em um tipo de marmitinha de alumínio, era um tubo de vidro no qual se atarraxava uma agulha impossível de passar despercebida. Ninguém gostava quando ele a pegava e sabíamos que algo desagradável e necessário estava por acontecer. Havia todo um cuidadoso preparo, desde que se separavam os utensílios até ser fervido todo o conjunto no fogo para esterilizá-lo e ficar pronto para a aplicação. Essa compreensão não tornava mais agradável o acontecimento, observado com atenção e curiosidade, mas tornava mais rica a significação de cada coisa que a vida propõe.

Depois vieram as descartáveis, e perdemos um pouco da sensação de que tudo deve ser preparado e exige um saber fazer, são menos táteis, demandam menos tempo para concretizar o fim a que servem. Por outro lado, ganhamos em eficiência no ato, mas ampliamos para isso imensamente a cadeia produtiva, incluindo aí o descarte. Hoje, quando se vai ao hospital, impressiona-me o engenho da agulha, flexível, minimizando o dano de repetidas vezes acessar a veia. Engenho humano, e com design, arte. Em todo o nosso fazer há a possibilidade da beleza e do saber fazer. Mas há também a imaterialidade absolutamente concreta da atitude, das razões e modos de como e por que fazemos.

Tudo pode ser útil e belo, afetuoso e solidário. Infelizmente, em nossa sociedade a busca exacerbada da riqueza que nosso trabalho e nossa técnica produzem, se constrói sobre a indiferença, a ambição, a mentira, e parte considerável desse esforço e engenho não se voltam ao próximo, mas à sua subjugação e destruição. Por uma inversão, o que se busca é o engrandecimento de si, por diversos modos de satisfação individualista, como razão suficiente. Temos tantas capacidades, e as usamos mal uma grande parte do tempo, ao menos no coletivo.

Parece que muitas vezes usamos a inteligência (das relações, da criatividade, da eficiência, da lógica) para afligir, para criar obstáculos, coexistindo com a partilha de nosso tempo, espaço e atitudes. Como em tudo o que fazemos pode haver beleza, e essa beleza decorre em algum momento do trabalho e da aprendizagem com a natureza, é necessário qualificar também a intencionalidade dos desejos e atos.

Essa possibilidade da beleza do que fazemos pode gerar uma atitude e um coração fútil, ambicioso, indiferente, possessivo, que se torna um fim em si mesma, uma vaidade de ser, saber ou ter mais do que outro. Entretanto, esta não é a única opção, e muito menos uma boa opção. A beleza, sobretudo decorrente da contemplação da natureza, pode irradiar de um coração sensível e solidário. Não é na beleza que está o problema, quando ele existe, mas no coração e nos valores, e nas atitudes que deles brotam, no modo e na razão como contemplamos as coisas criadas. Além disso, entendo que a beleza não é uma busca que devamos ter ou não, já que, antes de mais nada, é uma decorrência da sabedoria e bondade de Deus.

O que está em questão não é diferente de um princípio áureo ensinado por Jesus:

“O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem; e o homem mau, do seu mau tesouro tira o mal” (Lucas 6.45).

Ao contemplar a natureza, ainda mais para nós, imersos nesse mundo de objetos técnicos que é a cidade, muitas vezes experimentamos uma sensação de integridade do ser, mesmo que restrita ao mundo das sensações e ao momento. Não podemos viver apenas pelos momentos, é verdade, e as sensações se desfazem prontamente. A vida demanda um acervo muito maior de possibilidades do que este. Mas essa possibilidade da beleza criada na natureza integra esse acervo maior, é uma condição humana muito, muito importante. Sentimos, e por sentir podemos aprender a não sermos indiferentes, para nos relacionarmos com a existência, com os outros, e com Deus. Ou podemos ser egoístas, e esgotar em nossos próprios sentimentos nossa razão de ser, o que nos colocará longe de Deus.

”Ora, a mensagem que, da parte dele, temos ouvido e vos anunciamos é esta: que Deus é luz, e não há nele treva nenhuma. Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1 João 1.5-7).

Contemplar a natureza pode ser considerado um prazer ingênuo, e muitas formas de prazer estão à nossa disposição, seja a de um alimento saboroso, da comunhão com a esposa, do sorriso de um filho, do abraço de um amigo. São coisas saudáveis, que produzem alegria. Quando Deus as criou, tal como lemos em Gênesis, abrigavam essas possibilidades. A Bíblia valoriza que o homem alegre sua alma. São muitos os trechos que o dizem.

A exaltação do prazer e da alegria contido no caminho agradável a Deus pode parecer inesperado a pessoas que se acostumaram com um tipo de castidade hipócrita, ou acostumadas a ver a espiritualidade a partir de tabus. A Bíblia é muito clara nisso, e são vários os textos que falam da alegria e do prazer segundo Deus, em sua presença. Muitas pessoas, entretanto, olham apenas para a condenação de quando nos desviamos da presença e da vontade de Deus, de quando subvertemos em pecado a alegria que nos está destinada, e perdem assim duas vezes a benção de Deus: quando pecam e subvertem sua Vontade, e quando não reconhecem o caminho agradável que nos está proposto.

Essa capacidade de sentir que temos, e a fugacidade dos sentimentos, é por isso muitas vezes confundida com um prazer dos sentidos que se esgota em si. Se isso ocorre, essa capacidade de sentir a beleza, a alegria, o prazer, de fato obscurece a alma tornando-se uma satisfação egoísta. Daí, pessoas que no passado buscaram e hoje ainda buscam a Deus (não só cristãos), muitas vezes se recusam a essa capacidade humana de sentir e se emocionar, em troca de uma disciplina rigorosa, como se os sentimentos pudessem nos afastar de Deus ou da espiritualidade.

Petrarca (1304-1374) foi um intelectual e poeta italiano fundamental para a história da cultura, vivendo no final da Idade Média. Certa vez, ao escalar uma montanha muito alta “movido apenas pelo desejo de ver um lugar famoso pela sua altitude”, descreve, em uma carta que lhe é atribuída, as agruras da escalada. Sua leitura deixa evidente que compara sua aventura com as dificuldades e escolhas da vida cristã, tal como a entendia. A montanha frequentemente foi um símbolo da ascese espiritual.

Chegando ao topo, ao contemplar o panorama da paisagem, mescla à sua admiração e satisfação com o que via, e com o orgulho da escalada, uma série de considerações íntimas da maior intensidade, inclusive reflexões sobre sua espiritualidade: “Estes e outros pensamentos semelhantes afluíam ao meu peito, ó meu pai. Alegrava-me pelo meu progresso, chorava a minha imperfeição e condoía-me pela instabilidade comum a todas as ações humanas” (a carta é dirigida a um professor muito estimado por Petrarca, daí chamá-lo de pai, segundo era costume na época).

Nessa densidade, abrindo ao acaso as confissões de Santo Agostinho, Petrarca lê:

“Deslocam-se os homens para admirar os altos montes e as estrondosas ondas do mar e os longos leitos dos rios e a extensão dos oceanos e o curso dos astros, mas não prestam atenção a si mesmos”. Suas reflexões são preciosas, e profundas. Coloca-se a partir da experiência com a intensidade das emoções, do corpo e da alma, que o levam a indagar-se:

“Um outro pensamento me vinha em mente a cada passo: se não me detive ante tanto suor e fadiga para que o meu corpo ficasse um pouco mais perto do céu, que cruz, que cárcere, que tormento poderá atemorizar o espírito que se aproxima de Deus, calcando aos pés o cume inflado da soberba e os destinos mortais? E mais ainda: quantos não se afastam deste caminho por temor das dificuldades ou pelo desejo de comodidade?”

De fato, experiência e metáfora se mesclam na meditação de Petrarca. Conflitos como esse são comuns, posto que Petrarca não está falando apenas da beleza, mas a partir dela está refletindo sobre sua própria concupiscência, ou seja, seus desejos de satisfação pessoais imediatos que o afastam de Deus. Mais ainda, de fato está refletindo sobre a sua consciência e a consciência humana. O texto da carta é belíssimo como indagação da consciência humana diante de Deus, da fé e do mundo. Sem dúvida, podemos aprender muitas coisas com ela, não só sobre um momento histórico, mas sobre esse contínuo indagar humano da existência. Pena não poder aprofundar aqui sua extensão.

Mas de onde vem então o problema? Acho que vem de um entendimento errado de textos como o que segue:

”Não ameis o mundo [κόσμον] nem as coisas que há no mundo [κόσμῳ]. Se alguém amar o mundo [κόσμον], o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo [κόσμῳ], a concupiscência [ἐπιθυμία] da carne, a concupiscência [ἐπιθυμία] dos olhos e a soberba [ἀλαζονεία] da vida [βίου], não procede do Pai, mas procede do mundo [κόσμου]. Ora, o mundo [κόσμος] passa, bem como a sua concupiscência [ἐπιθυμία]; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente” (1 João 2.15-17).

Esse texto é sem dúvida um ensino precioso. Mas temos que entender o sentido das palavras aí colocadas. Na Bíblia, a palavra mundo tanto pode significar o universo criado, quanto pode significar um sistema de valores contrários a Deus, porque busca sua satisfação nas coisas criadas e não no criador. Este é o sentido de “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo”. Isso fica mais claro quando observamos nas frases seguintes o atributo do mundo: concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida. Como também ocorre em Tiago, é uma referência ao pecado desde Adão e Eva, de Caim, e tantos outros:

”Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça [ἐπιθυμίας], quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte” (Tiago 1.14).

Nesse sentido, as coisas criadas, pelos desejos dos homens quando se afastam de Deus, levam a marca dessa alienação. As palavras que qualificam esse afastamento de Deus indicadas acima são ἀλαζονεία, traduzida como soberba, e ἐπιθυμία, traduzida como concupiscência (que significa um forte desejo, um desejo descontrolado) ou cobiça.

É importante entretanto não confundir o mundo, nesse sentido acima, com o mundo natural criado por Deus. O Salmo 19, não dá margem a dúvidas: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Salmo 19.1). De certa forma, esses dois sentidos podem ser vistos logo no início do Evangelho de João, ao falar da eternidade e da vinda de Jesus (o Verbo):

”O Verbo estava no mundo [κόσμῳ], o mundo [κόσμος] foi feito por intermédio dele, mas o mundo [κόσμος] não o conheceu” (João 1.10).

O temor de contemplar a beleza, ou permitir-se alegrar-se com suas sensações e sentimentos, e ainda mais, de ver isso como causa de afastamento de Deus, certamente foi colocada por muitas pessoas ao longo da história. Porém, não é uma condição determinada, inexorável; e não é a única opção. Isso será um problema para quem se recusa a Deus, que seguindo seus pensamentos e desejos irá obscurecendo mais e mais a escuta à voz Daquele que não tem origem nem fim de dias, por quem tudo veio a existir e com seu amor e poder sustenta a existência da vida e de todas as coisas:

”porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis. Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si; pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!” (Romanos 1.19-25).

Para os que creem, entretanto, é razão de grande alegria, como vimos:

“Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Salmo 19.1).

O que me lembra um cântico evangélico, já um pouco antigo, traduzido e interpretado no português por um conjunto chamado Vencedores por Cristo, e que pode mostrar um pouco da liberdade, alegria e gratidão que sentimos:

Nas estrelas vejo a sua mão,
e no vento ouço a sua voz.
Deus domina sobre, terra e mar
Tudo Ele é pra mim.Eu sei o sentido do natal,
pois na história tem o seu lugar.
Cristo veio para nos salvar.Tudo Ele é pra mim
Té que um dia seu amor senti, sua imensa graça recebi.
Descobri então que Deus não vive longe lá no céu, sem
se importar comigo.
Mas agora ao meu lado está.

Cada dia sinto seu cuidar
ajudando-me a caminhar.
Tudo Ele é pra mim.
Tudo Ele é pra mim.
Tudo é Jesus pra mim.

no youtube (em outra janela)

 

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* Nota: a tradução habitualmente utilizada neste sítio é a de João Ferreira de Almeida, Atualizada (JFA), que se você for comprar uma Bíblia recomendo que dê preferência a esta, ou à versão da Bíblia na Linguagem de Hoje, se você ainda está apenas começando. Quando utilizar outra tradução neste sítio isso será indicado através da abreviatura: KJA (King James Atualizada), BJ (Bíblia de Jerusalém). É necessário lembrar que são traduções de um idioma antigo, mas como verá, o sentido essencial não muda.