DOIS MAPAS DO MUNDO
Euler Sandeville Jr.
São Paulo, 01 de maio de 2017

 

Muitas vezes olhamos as coisas e não as vemos de fato, porque achamos que já sabemos. Queria exemplificar isso com dois mapas, extraordinários. Como você poderá notar, as imagens reproduzidas nesta página têm um sentido especial, uma significação. São representações do mundo, em diferentes épocas da história, compondo discursos e indagações humanas. Serão apresentadas imagens de anos tão díspares (1265 e 1943), que a princípio pouco têm em comum, mas através das quais podemos indagar e ponderar a natureza do nosso próprio tempo, da nossa época, talvez às vésperas de novas transformações sem precedentes como nos encontramos.

O mapa abaixo integra um saltério do século XIII. A beleza desse mapa, de apenas 8,9×12,4 cm, de uma enorme riqueza de detalhes mostrando o cuidado em sua composição, só pode ser apreendida se o considerarmos em sua complexidade. Não é uma imagem no sentido de ícone de adoração, como havia tantas na época se são comuns no catolicismo, embora um saltério tenha essa finalidade. Este não é o caso desta imagem reproduzida abaixo.

Trata-se de uma sofisticada representação de mundo. Ela nos ajuda a entender que o mundo em que essas pessoas viviam, certamente cheio de agruras como – você há de reconhecer – é também o nosso.


Mapa do Saltério, 1265 (8,9 x 12,4 cm)

Nesse mapa de 1265, na parte superior, a leste, vemos uma figura simbolizando o Cristo, tendo em sua mão esquerda uma representação do mundo, conforme convenções medievais (o mapa TO, assim chamado porque inscreve-se em um círculo indicado pelo O, e o T representa a separação entre Europa, Ásia e África, tendo no centro Jerusalém). Logo abaixo dele está representada a origem da humanidade, com Adão e Eva na circunferência próxima do Cristo e os quatro rios do jardim no Éden. Na parte inferior do mapa, que se orienta ao poente, o qual muitas vezes representa a morte, os dragões, submetidos a Cristo, mas à espreita dos incautos.

A representação do mundo conhecido nesses mapas é de uma riqueza e sofisticação extraordinária; não são apenas cartas de localização no espaço, mas de localização no tempo (passado e futuro), na história, na eternidade, na própria natureza do mundo.  A título de exemplo, à direita chegamos aos limites da África, então desconhecidos ao sul, na região tórrida que se duvidava poder ser habitada, e os encontramos ocupados por criaturas que povoavam o imaginário medieval. No centro, como nas cartas do período, Jerusalém. Ao norte, à esquerda, nos limites da Ásia, Gog e Magog, mencionados no Apocalipse, com uma considerável liberdade de interpretação, pois todos esses elementos mesclam tradições cristãs e tradições clássicas.

Ao contrário da convenção que se nos tornou familiar, como se fosse natural, até o século XVI muitos mapas não estavam orientados em seu eixo vertical no sentido norte-sul, mas no leste oeste (como neste acima) ou no sul-norte.

Isso nos remete à próxima imagem.

É um desenho do extraordinário artista uruguaio, Torres Garcia, seu conhecido mapa da América, de 1943 (abaixo), no qual afirmava: “O nosso Norte é o Sul”. No mapa anterior não há inversão do norte, pelo contrário, sua orientação era habitual e havia uma razão para isso, como procurei indicar. Neste, Torres Garcia opera uma inversão das convenções aceitas, e sua atitude é claramente política. O desenho, portanto, bem mais do que uma simples ilustração, é um manifesto sobre as condições culturais e sociais de nosso tempo, e das disputas em curso, que de lá para cá apenas se aprofundaram.

Trata-se, como as duas imagens deixam claro, de outros mundos, estranhos entre si. Não só as referências geográficas mudaram, e as convenções de representação, do belo e da sociabilidade. A própria natureza do mundo mudou, as questões que nos colocamos já são outras. Mas, ainda que mudando os meios, as razões e modos de indagação, a necessidade de localizarmo-nos na existência permanece.

A ilustração de Torres Garcia e o mapa do Saltério evidentemente não são comparáveis, e do meu ponto de vista, um não é melhor nem pior do que o outro, superior ou inferior. Respondem a problemas e anseios de suas épocas. Indicam um notável engenho humano, ao se localizar no tempo e no espaço, de constantemente problematizar o mundo em que vivemos. Como as cartas medievais, as imagens do globo contemporâneas, e a inversão de Torres Garcia, estão plenas de significados sobre como nos vemos e como nos posicionamos.