EU NÃO ME SINTO MAIS IMPORTANTE NEM CAPAZ…
Euler Sandeville Jr.
12/08/2016, revisto em 11/04/2017

 

Esta é uma história para jovens (ainda que ao modo das estórias).

Certa vez conheci um casal de avós, que havia criado os filhos, e estes, já maduros e casados, apresentavam os primeiros netos. Trabalhadores a vida toda, procuravam garantir as necessidades de seus filhos, ajudando-os ainda no seu estabelecimento. No entanto, a aproximação de um tempo da vida, a que chamamos de velhice, traz muitas modificações de perspectiva e de possibilidades.

A construção psíquica das pessoas não se desvincula de seu corpo, de suas memórias, do aprendizado existencial acumulado. Mas na chegada da velhice, ou mesmo um pouco antes, sentimos modificações tão significativas de perspectiva, e físicas, quanto aquelas dos jovens saindo da adolescência.

Nossa inteligência e a experiência acumulada na vida sugerem uma maior consciência desse processo. Aquele, da juventude, é um despertar de energias em desordem diante de um futuro que não parece ter limite. Na maturidade (no envelhecimento), nos acenam os limites do tempo, do corpo, da existência. O fato é que, em que pese a ampliação da experiência, estamos novamente despreparados para a novidade e indagações sobre o mistério da vida, que mais uma vez, nos convida a observarmos além de nós mesmos.

Socialmente, em nossa chamada cultura de consumo, ou capitalista ocidental, afeita e calcada sobre o paradigma da força, da conquista e do consumo, da quantidade e, sobretudo, da novidade vaidosa e ensimesmada, pesa um notável desrespeito pela experiência dos mais idosos. Costuma-se dizer que têm mais dificuldade para adaptar-se a um mundo em rápidas mudanças, mediadas por inovações tecnológicas e comportamentais imensas. Mas, raramente, se considera o reverso dessa afirmação, em que a longa percepção das mudanças pode nos oferecer um mundo que tem uma duração cognitiva ampliada, um agora inserido em uma história.

Obviamente, essa possibilidade não se apresenta a todos; muitos há que parecem ter se tornado só a pungente urgência (amplificada pela maior capacidade diante do tempo que esvai), aquela urgência autocentrada da criança e do jovem de ser, de tornar-se, de se afirmar, de conquistar. No entanto, a possibilidade de ampliar os horizontes do entendimento da experiência humana estão colocadas em nosso caminhar. A todos.

Pois era justamente às portas dessas novas fronteiras, bem como de suas próprias contradições, que meus novos amigos se encontravam. Ampliadas não só pelas oportunidades suaves de crescimento que se apresentam, mas pelas novas constrições sociais que se impõem. Esse é um campo subjetivo rico e complexo, mas há também um campo objetivo em que se inscreve. Aumentando custos e diminuindo as possibilidades de emprego, viam-se restringidos no poder dar o apoio e essa aura protetora a seus filhos, aliás, já bem maduros para enfrentarem seus próprios desafios, embora com suas dificuldades. E dificuldades, contrariedades ou incertezas, sejam estas, sejam aquelas, acabam pesando sobre todos nós. Com isso, sentiam-se por um lado preocupados, por outro, cada vez mais impotentes.

Seria uma sensação real ou imaginária? Ou melhor, o que nela era real, o que era imaginário, ansiedade, temor? Situações de confronto com as dificuldades, em que nos sentimos crescentemente, ou em grande parte impotentes, não são prerrogativas da idade. Quantas vezes, e quantas pessoas, em diversos momentos, sentem-se diminuídas pela vida, pelas situações, nos impasses que por vezes ultrapassam suas forças ou lhe roubam a motivação?

Como esse casal a que me referi, sempre lutando por enfrentar e superar suas dificuldades, criando seu percurso e oferecendo um lugar de repouso e referência segura à sua família, muitas vezes as pessoas sentem-se diminuídas diante das necessidades. Senão da consciência de suas contradições. Não há retorno, mas o que pode não se perceber é que há como ir em frente.

Às vezes as pessoas sentem que já não podem mais ser importantes como antes, seja porque não podem, porque temem não poderem, porque simplesmente acham que não podem. Ou porque não são mais capazes de fazer mais aquilo que sempre fizeram, da forma como sabem. Mas não é assim a vida, uma constante aprendizagem em que a consciência, muito lentamente, se depura?

Não é uma questão de idade: nas dificuldades, e nos momento liminares, tocamos apenas parcialmente a condição real. O sentido de impotência muitas vezes é uma percepção parcial da situação, ainda que legítima, e ainda que em muitos casos seja bastante concreta. Impotência e desimportância andam de mãos dadas com o medo, difuso, quando poderiam igualmente esticá-la à prudência e à construção de um novo momento. Toda construção é árdua, bem o sabemos todos.

Na insegurança do futuro, que é ansiedade, podemos deixar de perceber que o que nos fazia importantes não era tanto o isso ou aquilo que se fazia ou obtinha, mas o afeto e a razão, a atitude pela qual se fazia. Sentindo-se diminuído e incapacitado, alguém pode deixar de perceber o que de fato o fez importante. Mas o tempo do verbo ainda está no passado. Não só isso, essa remissão ao passado (que é importante) pode enublar o sentido mais profundo do presente.

Essa vida de cuidados e afetos entremeadas nas dificuldades e contradições pode perturbar a percepção de que as dificuldades e constrições do presente sempre existiram, e foram enfrentadas, ainda que seja um fato que, com a idade, as possibilidades mudam. Parece que, em algum momento, o que se lembra passa a ser mais importante e maior do que o que se projeta.

Mas a verdade pode ser outra, se o entendimento do que é precioso e significativo for outro. Porque pode ser apreciada, se os valores forem corretos, na maturidade dos filhos que nos sucedem, que nunca terminarão de amadurecer, como ocorre conosco. Isso é uma significação que, se não é inteiramente nova, é decisiva. O que nos torna importantes não é apenas o que podemos prover ou abrigar, ou o que fizemos.

O que somos, o que aprendemos, a esperança e presença do amor que semeamos mesmo com nossas imperfeições, o exemplo de superação contínua, e que ainda se apresenta mais e mais uma vez agora, são ainda mais necessários do que antes: são um exemplo para o que virá e um encorajamento para o presente daqueles que amamos e que seguirão sua jornada. Os nossos queridos, mesmo jovens agora, também passarão por esses tempos um dia, e o exemplo de que cada momento da vida é um aprendizado instigante, onde o que importa não é a força, mas a vontade, o caráter, a fé. O lidarmos com isso a cada novo tempo será para eles herança decisiva e um tesouro imaterial, inesgotável, muito mais relevante e essencial do que bens e posses.

A Bíblia pode nos ensinar muito sobre estes assuntos, sobretudo nessa sociedade laica e imediatista em que estamos imersos, que vê o próprio reflexo sem ver bem o sentido do mundo em que existe, e da criação em que existe. Um exemplo precioso desse sentimento de impotência, de perda de importância social e existencial, pode ser encontrado no primeiro livro de Reis, capítulo 17. Todo esse capítulo narra o encontro do profeta Elias com uma viúva pobre, em um momento de grande sofrimento por causa de uma seca muito severa.

Elias, cujo nome significa “Meu Deus é Iahweh”, profetizou em Israel durante o reinado do perverso rei Acabe, entre 874 e 853 a. C. Como profeta, coube a Elias, muitas vezes com risco da própria vida vida, o desafio de advertir o rei de seus maus caminhos, de seu desvio de Iahweh e dos males que fazia ao povo, o que obviamente lhe colocou em situação de antagonismo com um rei tão arrogante em seu poder. Certamente, naqueles tempos, advertir um rei, ainda mais um rei perverso, não era muito alvissareiro.

Nessa época de Elias e Acabe as secas na região eram frequentes, mas houve uma em especial que durou longos anos. Nessa ocasião, o Senhor mandou que Elias se afastasse para leste do Jordão. Mas como secou a torrente do local, Deus o enviou a Sarepta, onde encontrou uma viúva. Em meio àquela terrível seca pediu água a essa viúva, que prontamente o atendeu. Quando a seca debilita as forças e o humor, a água é um bem ainda mais precioso. Quando ela ia buscar água, pediu-lhe também um pedaço de pão. Entretanto a piedosa e desconsolada viúva, que até então de nada havia se queixado, lhe respondeu (1 Rs 17.12):

Tão certo como vive o SENHOR, teu Deus, nada tenho cozido; há somente um punhado de farinha numa panela e um pouco de azeite numa botija; e, vês aqui, apanhei dois cavacos e vou preparar esse resto de comida para mim e para o meu filho; comê-lo-emos e morreremos.

Observe bem o que estava acontecendo. Essa viúva já tinha poucas forças e desacreditava de suas possibilidades. Mesmo fraca e abatida socorreu o homem de Deus. Ela não via saída, mas tinha fé. Essa fé viva de que falam Tiago em sua epístola, a carta aos Hebreus e Jesus nos evangelhos, que opera em atitudes vindas do coração diante de Deus. Ao menos, é uma probabilidade de que fosse esse o caso, em meio à incerteza em que se encontrava.

Vejamos novamente o contexto desses acontecimentos. Elias era obrigado a fugir do poderoso e rico rei Acabe, que reinava em meio a extravagâncias e maldades sem fim. Acabe havia matado outros profetas e estabelecido sacerdotes e ídolos para controlar a religião do povo. O povo vivia oprimido e Elias, considerado no Novo Testamento como um dos grandes profetas de Deus, vagava sem refúgio naquela região. O que aconteceu então?

Naquela terra assolada pela necessidade e pela impiedade, uma pessoa que ninguém reparava, uma mulher que zelava e labutava por seu filho, é quem vai atender e socorrer o profeta. Ela nada mais esperava, ao contrário, sentia uma desesperança diante de sua situação. Pois essa mulher, fraca e desprotegida naquele momento de sua vida, em uma terra de guerreiros e comerciantes, é quem pode socorrer o mais importante profeta de Israel. Aos olhos humanos era necessitada e sem importância. Mas foi essa mulher, capaz de gestos de grandeza, quem acolheu o profeta durante esse período de provação, e o sustentou pela operação que Deus operou a seu favor. Não havia nada em comum entre eles. Deus olhou a um e a outro em suas aflições, e com suavidade, ao fazê-los encontrarem-se, serviram de abrigo mutuamente pelo seu poder.

Você está sentindo-se sem importância? As dificuldades podem ser reais, mas talvez você não esteja percebendo a importância que tem. Porque a maior importância das pessoas não é o que têm em uma terra de conquistadores e guerreiros, mas o como usam o que têm, o seu caráter, o exemplo que dão. Nossa sociedade nos cobra e nos ensina um foco equivocado, fútil, que nos desvia do que realmente tem valor, e não custa nada senão o aprendizado da existência e da busca sincera por Deus.

Voltemos ao meu casal de amigos. O que os torna importantes não é apenas o que podem ou não prover, nem só o que já fizeram, é antes o que são, as lições que deixam, o afeto com que aprendem da vida até sua maturidade e, em sua maturidade, seu caráter e sua fé renovados.

Sente-se despreparado? Estamos todos. Deus nos capacita a aprender e a crescer por sua graça e paciência, para sermos benção, não porque precisamos ser importantes e famosos, o “máximo” como se diz, mas, ao contrário, exatamente pelo que somos e pelo que fazemos com isso que somos entre aqueles com os quais convivemos e aprendemos. Na busca de um coração sincero e entregue a Deus, somos transformados pela sua Palavra, socorridos e resgatados por suas misericórdias, fortalecidos na fé e no amor. O legado que deixamos não o deixamos quando partimos, nem quando somos fortes ou não, ou se provemos coisas ou não.

Em um mundo de conquistadores o patrimônio e as coisas são o que conta, mas para a alma muitas vezes acabam por se tornar razão de angústia e confusão. As coisas acumuladas em algum momento serão tralhas a carregar, como se pudéssemos reter por um pouco mais de tempo essa coleção que a todo o momento anuncia escapar da mão cheia de desejos.

Os nomes que estão nas placas honoríficas e nos livros das bibliotecas não retém a vida das pessoas que os geraram, não são mais elas, nem ao menos uma real lembrança do que foram. São apenas aquilo que, aqueles que depois delas se apropriam desse nome ou narrativa, as inventam. Se a esperança era reter-se na própria grandeza e importância, como que a vencer assim a ruptura da morte com este mundo, é fútil a perspectiva, pois o que resta é como um fantasma, um espectro, posto em movimento apenas por um outro.

Se as pessoas não atentarem para o que é importante, sua última solidão deve ser ainda maior, porque o que delas resta não caberia nelas, nem mais é o que foram. Esvai-se para sempre, e a memória é viva debaixo do sol apenas para quem lembra, não para quem foi. Tememos essa passagem porque não compreendemos a grandeza, beleza, justiça e misericórdia do Deus diante do qual estaremos.

O que de fato tem valor é mais simples e duradouro, são os afetos e a possibilidade de aprender e crescer a cada tempo, a cada dia da existência, o conhecimento da vida, do amor e da fé em comunhão com Deus. Lembram-se do casal de amigos de quem lhes falei aqui, do que os torna de fato importantes? Lembram-se da viúva que vivia em Sarepta, temente e fiel a Deus, a quem os transeuntes talvez lhe virassem a face em sua aflição, e que veio em sua solidariedade e temor a Deus a abrigar o profeta Elias. O maior dos profetas, ele mesmo sentindo-se cansado e despreparado para a enormidade dos seus próprios desafios – e não eram pequenos.

Por vezes não atentamos para uma pessoa que não parece importante – ou nos pensamos assim. Essa viúva, em seu desamparo e fraqueza, fala, ainda dois milênios e meio depois, de coisas essenciais à vida. Nem a viúva pobre, nem Elias, eram super-heróis, pessoas infalíveis e sem nenhuma hesitação. Ao contrário, eram ambos pessoas como nós, que se encontraram na fraqueza e temor de cada um, mas que na presença e no propósito de Deus isso fez toda a diferença. Uma diferença duradoura, ao ponto de nos tornarmos beneficiários dos caminhos difíceis (naquele momento) que percorreram há quase 3.000 anos atrás. Possamos saber discernir, a cada momento, o que é importante em nossas vidas.