HÁ UMA BÍBLIA CATÓLICA E UMA PROTESTANTE?
Euler Sandeville Jr.
São Paulo, 05 de maio de 2016.
Atualizado 05/05/2016

Não há uma Bíblia católica ou protestante, porque a Palavra de Deus não é desta ou daquela igreja ou religião, é Palavra de Deus. Há um só Deus, há uma só Palavra de Deus. No entanto, a formação da igreja católica, tanto em sua especificidade histórica quanto em processos que remontam à dispersão dos judeus, como veremos, levou a alguns acréscimos ao cânone do Antigo Testamento fixados em Concílios da Igreja Católica que não são aceitos pelos protestantes e não constavam das escrituras judaicas. Há causas históricas para isso.

Além disso, os livros da Bíblia foram escritos em hebraico, aramaico e no Novo Testamento em grego, de modo que dependemos de traduções para as línguas atuais. Ofereço uma indicação básica das traduções para o português que utilizo habitualmente no artigo “Traduções da Bíblia que recomento” e não tratarei aqui de quais as melhores traduções para o português.

Antes de mais nada, vamos esclarecer que não há qualquer divergência entre os cristãos com relação ao Novo Testamento, formado por 27 livros. Exclusivamente no que se refere ao Antigo Testamento, há uma diferença entre a Bíblia utilizada por protestantes e judeus e a Bíblia utilizada por católicos, bem como entre estes e ortodoxos.

A maior parte dos livros do Antigo Testamento é exatamente a mesmDe onde veem então essas diferenças? Essas adições na Bíblia utilizada pelos católicos de fato existem e tem uma causa histórica.a para todas essas confissões: 39 livros são comuns a todos os cristãos e judeus. Ou seja, 66 livros são comuns a todos os cristãos e 39 do Antigo Testamento são comuns a cristãos e judeus.

Podemos resumir assim:

  • 39 livros do Antigo Testamento são comuns a todos os cristãos e judeus.
  • 27 livros do Novo Testamento são comuns a todos os cristãos.
  • 7 livros e pequenos acréscimos em poucos livros são incluídos apenas na Bíblia católica.

De onde veem então essas diferenças? Essas adições na Bíblia utilizada pelos católicos de fato existem e tem uma causa histórica.

1. as Escrituras hebraicas: a Mikrá ou Tanakh dos judeus (veja artigo ampliado)

Os judeus têm os mesmos 39 livros que são consensuais entre católicos e protestantes (que os herdaram dos judeus). São organizados em três coleções, unificando alguns que para protestantes e católicos formam dois livros. Com isso, resultam 24 livros (são unidos em um único livro I e II Samuel, I e II Reis, e os chamados profestas menores reunidos em um livro chamado Os 12 Profetas). Trata-se apenas do modo de organizar os livros.

Obviamente, judeus não utilizam a denominação de Antigo Testamento, já que não reconhecem o Novo. Aliás, as escrituras judaicas não são chamadas de Bíblia, mas de Mikrá (מקרא) desde o tempo do retorno do exílio babilônico, e referidas pelo acrônimo Tanakh (תנ״ך). As três coleções das Escrituras hebraicas (nosso Antigo Testamento) recebem o nome de a Lei (hebraico: Torah), os Profetas (hebraico: Nebiim) e os Escritos (hebraico: Ketubim), cujas primeiras letras iniciais formam o acrônimo TNK, que acrescido de vogais resulta em Tanakh (o equivalente do nosso Antigo Testamento). Foi assim que Jesus se referiu às Escrituras:

“Depois lhe disse: São estas as palavras que vos falei, estando ainda convosco, que importava que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras; e disse-lhes: Assim está escrito que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressurgisse dentre os mortos; e que em seu nome se pregasse o arrependimento para remissão dos pecados, a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois testemunhas destas coisas” (Lucas 24.44-48).

2. canônicos e deuterocanônicos: o que é isso?

A coleção de livros que se adota como sendo inspiradas é chamada de cânon (em hebraico qenéh e no grego kanóni), significa “régua” ou “cana de medir”. A adoção desse termo decorre de que toda a medida exige um padrão rigoroso, e essa cana de medir é exatamente esse padrão, que permite verificar a exatidão da medida. Para a Bíblia, o cânon indica a coleção de livros que é a Palavra de Deus. Os 66 livros que são comuns a todos os cristãos são chamados por isso de canônicos (conforme o cânon).

Entretanto, para o Antigo Testamento nas Bíblias católicas contam com mais 7 livros e adições em Ester e Daniel que os protestantes (ou evangélicos) não aceitam, entre outras razões, porque não existiam no cânon hebraico. Clique na miniatura abaixo para ver em uma nova página sua ampliação.

Os que são aceitos somente por católicos ou ortodoxos são por isso chamados de deuterocanônicos (deutero significa segundo, seriam então um segundo cânon) e são apócrifos (do grego apokryphos, que significa oculto, o que não é autêntico, o que não é verdadeiro). Os chamados deuterocanônicos não estão incluídos no Tanakh. A denominação de deuterocanônicos parece-me aceitável porque, mesmo não sendo inspirados, os diferencia de outros livros apócrifos e minimiza antagonismos desnecessários; tenderei a referir-me a esses livros dessa forma por esta razão.

Segundo a Wikipedia, o termo apócrifo teria sido

criado por Jerônimo, no quinto século, para designar basicamente antigos documentos judaicos escritos no período entre o último livro das escrituras judaicas, Malaquias e a vinda de Jesus Cristo.

Se correta, a referência é importante para as discussões da formação do cânon e diz respeito a Eusébio Sofrônio Jerônimo, de Estridão (cerca de 347 a 420), uma vez que esse importante teólogo e tradutor da Bíblia seguiu, ainda no século IV, o cânon hebraico.

Jerônimo realizou uma tradução para o latim da Bíblia, a partir dos originais hebraicos cotejados com a Septuaginta (a qual será apresentada adiante), mas não incluiu os livros hoje chamados de deuterocanônicos. Inicialmente, fez uma revisão das traduções latinas (Vestus Latina e Ítala) e depois aprofundou os estudos procurando rever a tradução a partir de manuscritos em hebraico e grego, chegando a traduzir do grego os deuterocanônicos Tobias e judite. Sua tradução gerou o que viria a ser conhecida como a Vulgata, porque utilizou o latim comum. As versões posteriores aos Concílios Católicos que consideraram integrantes da Bíblia os que chamamos de deuterocanônicos, passaram a incluí-los. A Vulgata veio assim a ser adotada pela igreja católica como versão oficial a partir de sua revisão desde o Concílio de Trento (1546), até o Concílio de Vaticano II (1961), que ordenou sua revisão e editou a Nova Vulgata (terminada em 1975, e promulgada pelo Papa João Paulo II, em 25 de abril de 1979).

3. a Septuaginta

A Septuaginta é uma tradução para o grego da Bíblia hebraica, a Mikrá. É atestada no século III depois de Cristo segundo alguns estudiosos, mas a tradição considera que foi realizada entre os séculos III e I antes de Cristo em Alexandria. A Septuaginta, supondo-se sua existência tal como é relatada, teria sido feita em Alexandria, uma cidade no delta do Nilo fundada em 331 a.C. por Alexandre o Grande. Tornou-se um dos portos mais importantes naqueles tempos, e sua Biblioteca reunia 700 mil rolos de papiro e pergaminhos.

A Septuaginta é assim chamada porque, pela tradição, teria sido realizada por 70 sábios hebreus, daí ser chamada também de LXX. Seja qual for a data em que o volume que dispomos foi concluído, é factível que tenha sido feita por e para judeus que já viviam há muito tempo no mundo greco-romano, em diversas províncias.

Os documentos mais antigos dessa tradução remontam ao século III depois de Cristo, e muitas questões são levantadas em torno da existência ou não da Septuaginta antes de Cristo, mas isso merece um artigo específico. Eram muitas as cidades e colônias com sinagogas e comunidades judaicas, e vivendo por gerações longe da judeia, já não tinham contato com muitas das tradições dos seus antepassados, de modo que considero provável que tenham havido traduções parciais para o grego, sobretudo da Lei, desde a época do exílio ou do retorno do exílio.

Se de fato antes dos tempos de Cristo foi completada a tradução integral dos livros sagrados hebreus para o grego e reunidos em uma única coleção de livros, ao fazerem essa tradução incluíram livros de uso comum pelos judeus que viviam nessas colônias. O que também é bastante factível. Pelo menos, os chamados deuterocanônicos estão presentes nas cópias mais antigas disponíveis (século III depois de Cristo) da Septuaginta. Esses livros foram escritos já em grego, fora da judeia, no período interbíblico (entre os dois Testamentos), e não eram reconhecidos como Escritura na judeia. Certamente já circulavam antes dos tempos de Jesus.

Podemos resumir assim:

  • Os judeus no mundo greco-romano traduziram do hebraico para o grego a Mikrá (Tanakh) acrescentando vários textos e livros, resultando em 51 livros, formando a Septuaginta.
  • Os acréscimos, geralmente escritos em grego e não em hebraico, não foram aceitos pelos judeus da Judeia, que mantiveram os 24 livros de sua tradição.
  • Os católicos quando a igreja católica ainda estava em formação se basearam na Septuaginta, mas aceitaram apenas 46 de seus livros, resultando em 7 livros e adições em Ester e Daniel, especialmente “História de Susana” e de “Bel e o dragão” a mais do que na da Tanakh e que não são aceitos pelos demais.

4. fixando o cânone

A Septuaginta, tenha sido reunida em sua forma final antes ou depois de Cristo,parece ser efetivamente a origem de algumas dessas diferenças entre católicos e judeus ou protestantes. Além de introduzir vários livros juntamente com os livros sagrados da Mikrá, também organizou de outro modo os livros já reconhecidos.

Além disso, a Septuaginta dividiu alguns livros que para os judeus formavam um único, como I e II Samuel, tal como os temos hoje. Mas como vimos, incluiu vários outros, usados pelos judeus do mundo greco-romano, resultando em 51 livros, embora nem todos tenham sido depois aceitos pelos católicos. Daí resultar em 24 livros na Mikrá, em 39 livros na Bíblia protestante, e em 46 livros na Bíblia católica.

A igreja católica em formação reconheceu os livros que passaram a ser considerados deuterocanônicos (porque não integraram o primeiro cânone) como parte da Bíblia no Concílio de Roma em 382 d.C., de Hipona em 393 d.C., III Concílio de Cartago em 397, e especialmente no Concílio de Trento, iniciado em 1546figura: Bíblia, passe o mouse para ler citação do versículo.

Os protestantes voltaram ao cânon judaico para o Antigo Testamento. Adotaram o cânone hebraico tanto por entenderem que os deuterocanônicos continham certas contradições com a fé, quanto por desejarem assumir uma postura de fidelidade ao cânon judaico, entendendo que Deus lhes havia confiado a guarda das Escrituras antigas até a vinda do Messias. Esta é também a minha posição.

Lutero, considerando que esses livros tinham importância como literatura histórica, mas não eram inspirados, ainda incluiu os deuterocanônicos como apêndice na sua tradução da Bíblia para o alemão. De fato, alguns desses livros têm valor histórico, e eu considero particularmente bonitos a Sabedoria de Salomão e o Eclesiástico (não confundir com o Eclesiastes, canônico).

Vejamos então com relação ao Antigo Testamento:

  • o cânone da Mikrá, com 24 livros, já é atestado através da menção como a Lei, os Profetas e os Escritos nos tempos de Jesus;
  • A igreja católica em formação incluiu os livros que passou a chamar de deuterocanônicos (apócrifos para os demais) em igualdade ao lado dos canônicos como parte da Bíblia no Concílio de Roma em 382 d.C., de Hipona em 393 d.C., III Concílio de Cartago em 397, e especialmente no Concílio de Trento, iniciado em 1546 resultando em 46 livros e alguns acréscimos;
  • (São) Jerônimo, de Estridão (cerca de 347 a 420), mais ou menos pela mesma época da inclusão dos deuterocanônicos no cânon católico os considerava apócrifos (a conferir melhor).
  • os protestantes voltaram ao cânone hebraico, mantendo a divisão em 39 livros. Esses 39 livros (ou 24 conforme sejam organizados) são comuns a judeus, católicos e protestantes.
  • Não distinguo entre Bíblia católica e protestante, são os mesmos 66 livros, 39 do Antigo e 27 do Novo Testamento e considero Palavra de Deus os canônicos, como de fato me parece ser o mais acertado.