NOTA INICIAL: A BÍBLIA FALA DE DUAS ALIANÇAS
Euler Sandeville Jr.
São Paulo, 28 de abril de 2016.
Atualizado 08/05/2016

1. a Bíblia é a Palavra de Deus

Se você não está muito familiarizado com a Bíblia (do grego βιβλία, plural de βιβλίον, transl. bíblion, “rolo” ou “livro”), é importante entender que para os cristãos é a Palavra de Deus. Essa coleção de livros sagrados forma para nós um único livro, através do qual conhecemos a Deus, Sua vontade, e pelo Seu Espírito Santo somos edificados e vivificados para a comunhão com Ele, sua adoração, seu serviço. Esta é a nossa alegria.

Esse conjunto de livros está dividido em duas coleções, que se referem basicamente a duas Alianças de Deus com os homens. A essas coleções normalmente denominamos como Antigo e Novo Testamentos. O Antigo Testamento são as Escrituras sagradas dos judeus (ou hebreus), que os cristãos também creem inspiradas por Deus. O Novo são um conjunto de escritos realizados algumas décadas depois da morte e ressurreição de Jesus.

A palavra Testamento talvez não seja a melhor para dizer a que se referem esses livros, que eram chamados pelos antigos como Escrituras. São na verdade duas Alianças de Deus com os homens, a Lei dada a Moisés no Sinai, e a redenção dos pecados dada por Deus através da morte e ressurreição de Jesus. Por isso, neste sítio, por vezes irei utilizar a palavra Aliança, como Jesus disse na páscoa, antes de ser oferecido para remissão de nossos pecados (a palavra pacto também é traduzida como aliança):

“Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, abençoando-o, o partiu e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. E tomando um cálice, rendeu graças e deu-lhes, dizendo: Bebei dele todos; pois isto é o meu sangue, o sangue do pacto [aliança], o qual é derramado por muitos para remissão dos pecados. Mas digo-vos que desde agora não mais beberei deste fruto da videira até aquele dia em que convosco o beba novo, no reino de meu Pai. E tendo cantado um hino, saíram para o Monte das Oliveiras” (Mateus 26.26-30).

A carta aos Hebreus deixa mais claro isso. Nela, o que lemos no Antigo Testamento é chamado de Primeira Aliança, e o que nos apresenta o Novo Testamento é chamado de Nova Aliança. O que define essas Alianças? Atos de Deus.

A Primeira Aliança é inaugurada após o Êxodo, quando no Sinai Moisés recebe a Lei de Deus, os modelos celestiais de como deve ser o culto, e como devem ser os sacrifícios pelo pecado no vigor dessa Primeira Aliança. Na verdade, ela começa um pouco antes, nas promessas de Deus a Abraão, e na instituição da circuncisão, e mesmo antes, nas promessas proféticas feitas desde Adão. Os livros que estabelecem essa primeira Aliança são chamados de Pentateuco (cinco livros), ou Torá para os judeus. O livro do Gênesis trata dessa primeira parte das promessas, os demais quatro livros do Êxodo a Deuteronômio, tratam da Lei que sela essa primeira Aliança, que haveria de vigorar até o sacrifício de Jesus, o Messias prometido. Seguem-se os livros da história de Israel, os livros proféticos e os ensinos de sabedoria.

A Nova Aliança é feita pelo sangue derramado de Jesus. O Novo Testamento começa apresentando quem é Jesus, e seu ministério até seu sacrifício no qual é firmada a Nova Aliança, sua ressurreição, e os preceitos para como devemos aguardar até sua volta, quando todas as coisas serão enfim consumadas. Então todos estaremos diante de Deus, e não haverá mais a representação das coisas celestiais na Terra; cada um será julgado conforme seu coração e suas obras. A redenção de Deus proporcionada em Jesus por sua morte e ressurreição é a libertação do pecado, para que aquele que ama e escolhe servir a Deus, possa então estar em sua presença.

“Agora, com efeito, obteve Jesus ministério tanto mais excelente, quanto é ele também Mediador de superior aliança, insituída com base em superiores promessas.
Porque, se aquela primeira aliança tivesse sido sem defeito, de maneira alguma estaria sendo buscado lugar para uma segunda.
E, de fato, repreendendo-os, diz:
Eis que virão dias, diz o Senhor, em que estabelecerei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma nova aliança.
Não segundo a aliança que fiz com seus pais no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; pois não permaneceram na minha aliança, e eu não atentei para eles, diz o Senhor.
Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor; na sua mente imprimirei as minhas leis, e em seu coração as escreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo;
e não ensinará cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor deles até o maior.
Porque serei misericordioso para com suas iniquidades, e de seus pecados não me lembrarei mais.” (Hebreus 8.6-12).

O livro de Hebreus está citando profecias das Escrituras judaicas (nosso Antigo Testamento), indicando que haveria de haver uma Nova Aliança, e que esta permaneceria para sempre, porque os pecados seriam removidos. Qual a base dessa Nova Alainça? Ainda lemos na carta aos Hebreus:

“quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará das obras mortas a vossa consciência, para servirdes ao Deus vivo! E por isso é mediador de um novo pacto, para que, intervindo a morte para remissão das transgressões cometidas debaixo do primeiro pacto, os chamados recebam a promessa da herança eterna” (Hebreus 9.14-15).

2. o Novo Testamento cita o Velho Testamento e estabelece Nova Aliança

Os livros que apresentam a Nova Aliança citam inúmeras vezes as Escrituras hebraicas. Alguns estimam em mais de 1.000 citações. Basicamente, essas citações são empregadas de duas formas: 1) para demonstrar o que de Jesus e sua redenção estava previsto na Antiga Aliança, e 2) para ensinar princípios da vida cristã com Deus. A minha perspectiva é cristã, então sigo aqui esses ensinamentos.

“Depois lhe disse: São estas as palavras que vos falei, estando ainda convosco, que importava que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras; e disse-lhes: Assim está escrito que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressurgisse dentre os mortos; e que em seu nome se pregasse o arrependimento para remissão dos pecados, a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois testemunhas destas coisas” (Lucas 24.44-48).

“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, e que desde a infância sabes as sagradas letras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela que há em Cristo Jesus. Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda boa obra” (2 Timóteo 3.14-17).

Um belo exemplo desse uso das Escrituras hebraicas no Novo Testamento nos é dado pelo próprio Jesus, em sua tentação no deserto. Antes de começar sua pregação e anunciar a salvação pela região da Samaria e Judeia, Jesus foi colocado diante de Satanás para ser tentado. Vejamos a importância da tentação de Jesus. Adão, ao ser tentado, não ouviu a Palavra de Deus, de modo que quando Satanás diz a Eva que a Palavra de Deus (apenas dessa árvore não comerás) não era como Ele disse, ela duvida e, movida por sua ambição, peca juntamente com Adão.

Como está escrito no livro de Romanos referindo-se a Adão e ao sacrifício redentor de Cristo: “por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte” e “se, pela ofensa de um só, a morte veio a reinar por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo”. Ora, se Jesus vinha para redimir o pecado, era necessário que fosse aprovado onde falhamos.

Jesus, depois de 40 dias no deserto Jesus sentia fome. O Diabo o desafia a transformar as pedras em pão, ao que ele responde: “Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”. A primeira prova era sobre sua identidade, seu poder e autoridade. A segunda foi sobre sua confiança em Deus, usando a Escritura para tentá-lo, ao que Jesus respondeu:

“Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus”. E por fim, o Diabo lhe propõe um meio de realizar de modo mais fácil a missão que Jesus tinha, ao que Jesus respondeu: “Então ordenou-lhe Jesus: Vai-te, Satanás; porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás” (Mateus 4.1-11).

Além da lucidez das respostas de Jesus, seu alicerce foi a Palavra de Deus, em todas as vezes respondeu: está escrito, demonstrando um conhecimento dos verdadeiros princípios. O que deve nos alertar, o Diabo tentou a Jesus usando de modo distorcido a Palavra de Deus, mas para desviar seu foco de Deus para si mesmo. Jesus coloca as coisas em termos adequados “Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás”.O que nos ensina esse trecho da tentação de Jesus no deserto, em um momento em que sentia necessidade? Que, além de conhecer a Palavra é necessário entendê-la em seus princípios básicos, e além de entendê-la, é necessário ter um coração e um caráter disposto a praticá-la.

3. as duas Alianças: o Antigo e o Novo Testamento

Ao ler os livros referentes à Antiga e à Nova Aliança, ou trechos deles, é ainda importante que entenda que um longo período de tempo os separa, por vezes, um milênio ou mais. Foi escrita por cerca de 40 autores, entre 1500 e 450 a.C. (livros do Antigo Testamento) e entre 45 e 90 d.C. (livros do Novo Testamento).

O Antigo Testamento refere-se aos ensinamentos de Deus que foram confiados aos hebreus e de como deveriam proceder até à vinda do Messias (que significa Ungido, que em grego se traduz como Cristo), através de quem se cumprem as promessas feitas a Abraão de que de sua descendência seriam abençoadas todas as nações da terra. Os judeus creem que Jesus não foi o Messias, o ungido, e ainda esperam que venha; os cristão creem que Jesus é o Cristo, e aguardam sua segunda vinda. Há muitos trechos de difícil compreensão, porque foram escritos entre 1.500 a 1.200 e 400 antes de Cristo, ou seja, cerca de até 3.000 anos atrás, em épocas e contextos históricos e culturais muito diferentes dos nossos. No entanto, são ricos e essenciais para nossa instrução no caminho de Deus.

Os textos da Antiga Aliança começam em Gênesis, que nos conta a criação do mundo, a promessa feita a Abraão (cerca de 2.000 a 1.800 antes de Cristo), até a história de José. A partir daí, vem a história da nação de Israel, desde o recebimento da Lei (por volta de 1.200 antes de Cristo) até o retorno do cativeiro (cerca de 430 antes de Cristo). São 39 livros, com poesias, história, profecias, biografias etc.

A Nova Aliança começa com o nascimento de Jesus (por volta de 8 a 4 antes de Cristo!), o Messias esperado, chamado no Antigo Testamento de “Deus Forte” e “Deus conosco”, descreve seu ministério, e se consuma com sua morte e ressurreição por volta do ano 30 depois de Cristo. Os livros da Nova Aliança são formados pelos quatro Evangelhos que narram a vida de Jesus e pelo livro de Atos, que narra o início da igreja, por diversas cartas, quase todas escritas pelos apóstolos, e pelo apocalipse, que é um livro profético. Esses livros foram escritos aproximadamente entre 50 e 90 depois de Cristo. São 27 livros, todos escritos poucas décadas após a vida de Jesus descrita nos evangelhos.