O BEM E O MAL, A VIDA E A MORTE. UM ESTUDO EM GÊNESIS 3.
Euler Sandeville Jr.
São Paulo, 25 de abril de 2016.

 

Após o Senhor haver criado o homem e a mulher, colocou-os em um mundo equilibrado, para zelar e cuidar desse mundo novo, e lhes deu entendimento desse mundo. Isso era grandioso, perfeito e bom:

“E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, na direção do Oriente, e pôs nele o homem que havia formado. Do solo fez o SENHOR Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vida no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal” (Gênesis 2.8,9).

“Havendo, pois, o SENHOR Deus formado da terra todos os animais do campo e todas as aves dos céus, trouxe-os ao homem, para ver como este lhes chamaria; e o nome que o homem desse a todos os seres viventes, esse seria o nome deles” (Gênesis 2.19).

“Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar. E o SENHOR Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2.15-17).

“Disse mais o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea” (Gênesis 2.18).

Tudo isso pode ser resumido no seguinte verso: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. Houve tarde e manhã, o sexto dia” (Gênesis 1.31). No entanto, o capítulo 3 de Gênesis termina com Deus expulsando Adão e Eva do jardim no Éden, esse local original que passamos a chamar de paraíso. Não só isso, interditou o acesso a esse lugar.

“E, expulso o homem (הָֽאָדָ֑ם hā·’ā·ḏām), colocou querubins ao oriente do jardim do Éden e o refulgir de uma espada que se revolvia, para guardar o caminho da árvore da vida (הַֽחַיִּֽים ha·ḥay·yîm)” (Gênesis 3.24).

Façamos então um brevíssimo resumo desses capítulos iniciais da Bíblia. O capítulo 1 de Gênesis nos conta a criação de tudo o que existe, e que era tudo perfeito, bem como o papel do homem nessa criação. O capítulo 2 detalha a criação do homem e a comunhão que havia entre o homem e a mulher com Deus. Porém, algo aconteceu, rompendo essa harmonia e esse propósito do homem ser cuidador e de zelar pelo mundo criado por Deus.

O capítulo seguinte, o terceiro, do qual trataremos aqui, nos conta o episódio mais trágico e triste dessa criação, e que ainda não terminou. Sim, ainda não terminou. O capítulo 3 explica a origem dos problemas humanos. Em decorrência, do capítulo 4 em diante, por toda a Bíblia, lemos os desdobramentos da desobediência humana, a luta espiritual e moral em que ocorre a nossa existência, as ações de juízo e salvação de Deus desde então e ao longo da história humana, até a consumação de tudo, no livro de Apocalipse.

“O SENHOR Deus, por isso, o lançou fora do jardim do Éden, a fim de lavrar a terra de que fora tomado” (Gênesis 3.23).

Veja que o homem tinha uma dupla condição existencial. Espiritual, de comunhão com Deus: “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gênesis 1.27) e “Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente” (חַיָּֽה ḥay·yāh” – alma vivente, Gênesis 2.7). Tinha, portanto, essa dimensão espiritual, mas, também, com uma condição material, com a natureza (pó) da terra (Gênesis 2.7 e Gênesis 3.23 citados acima).

Seu nome, Adão (do hebraico אדם , relacionado, segundo a Wikipedia, tanto a adamá, solo vermelho ou do barro vermelho, quanto a adom, “vermelho”, e dam “sangue”), significa homem, e a palavra em outros locais é assim traduzida. Eva (חַוָּה, Chavvah) foi tirada não do pó da terra mas desse pó já transformado no próprio homem, e deriva do hebraico hav.váh, que significa “vivente” : “E deu o homem (הָֽאָדָ֛ם hā·’ā·ḏām) o nome de Eva (חַוָּ֑ה) a sua mulher, por ser a mãe de todos os seres humanos (ou “viventes”: חָי chay )” (Gênesis 3.20). Aliás, a sofisticação dessas palavras, que talvez decorra exatamente de uma maravilhosa simplicidade poética original difícil de traduzir, perpassa todo o capítulo inicial, além da minha capacidade de estudo no momento. Veja, por exemplo:

“E disse Deus (אֱלֹהִ֔ים ĕ·lō·hîm): Produzam (Fervilhem) as águas cardumes de seres viventes (חַיָּ֑ה); e voem as aves acima da terra no firmamento do céu” (Gênesis 1.20).

“Então, formou o SENHOR Deus (יְהוָ֨ה אֱלֹהִ֜ים ’ĕ·lō·hîm YHWH ou Yah·weh) ao homem (הָֽאָדָ֗ם hā·’ā·ḏām) do pó da terra (הָ֣אֲדָמָ֔ה hā·’ă·ḏā·māh) e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida (חַיִּ֑ים ḥay-yîm), e o homem passou a ser alma vivente (חַיָּֽה ḥay·yāh” – alma vivente)” (Gênesis 2.7).

“O SENHOR Deus (יְהוָ֨ה אֱלֹהִ֜ים ’ĕ·lō·hîm YHWH ou Yah·weh) , por isso, o lançou fora do jardim do Éden, a fim de lavrar a terra (הָ֣אֲדָמָ֔ה hā·’ă·ḏā·māh) de que fora tomado” (Gênesis 3.23).

A humanidade foi criada à imagem de Deus (Gênesis 1.27) e do pó da terra. Portanto, existia no bem, na bondade, na pureza (o que não quer dizer inocência como ouvimos tanto), e a ela Deus confiou o zelo de sua criação. Inclusive, deveria guardá-la!

Entretanto, provando o mal, foi expulsa desse jardim, por uma razão muito específica que veremos adiante, mas não foi pelo pecado em si. Para entender o que estava em jogo, veremos que se estabeleceu, desde então, e pela história humana, uma luta árdua entre a vida e a morte, entre o bem e o mal. Depois da desobediência de Adão e Eva, o pecado entrou no mundo e passou a corromper toda a criação:

“Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Romanos 5.12).

“Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora” (Romanos 8.20-22).

1. a vida e a morte

Naquele mundo original, como lemos acima, havia uma árvore da vida e uma do conhecimento do bem e do mal, cujo fruto geraria a morte. Essa árvore tão peculiar e diferente de tudo o mais que havia colocado o SENHOR Deus ali, era, em toda a criação, a única interdição ao homem. Que tipo de árvore seria essa, capaz de tão trágicos efeitos?

Veremos adiante a natureza dessa árvore, mas foi a cobiça, o orgulho, a vaidade e a incredulidade (que é desconfiança) que levaram à desobediência:

“Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu” (Gênesis 3.6).

Com a expulsão desse jardim, o que encontramos é uma terra e uma sociedade em desbalanço, desequilíbrio desde então, descritos no final do capítulo 3 e por toda a Bíblia a partir daí, até que o Novo Testamento inaugura uma nova intervenção de Deus na história. Deus não interrompe a história, realiza sua natureza nela para nos resgatar! A consumação da história, que será a consumação dos tempos, quando tudo será novamente visível, ainda está por vir.

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez. A vida estava nele e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela” (João 1.3-5).

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (João 1.14).

“Mas, naqueles dias, após a referida tribulação, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados. Então, verão o Filho do Homem vir nas nuvens, com grande poder e glória. E ele enviará os anjos e reunirá os seus escolhidos dos quatro ventos, da extremidade da terra até à extremidade do céu” (Marcos 13.24-27).

2. a morte

A Bíblia diz no mesmo verso do livro de Gênesis (2.17, que lemos acima), que no dia em que comerdes morrereis. Mas será que, em decorrência da desobediência, Adão e Eva experimentaram a morte nesse mesmo dia (no dia em que comerdes)? Não. Não só não morreram, como o verso seguinte nos diz que “…e ele comeu. Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueira e fizeram cintas para si (Gênesis 3.7). Qual é, então, o significado dessa morte?

Como sabemos, Adão não morreu, pelo contrário, viveu longamente. Que morte era essa então? Certamente morrereis nesse dia, mas lemos que comeu e abriram-se os olhos. Veja ainda que os olhos de ambos só se abrem no momento em que Adão também come, indicando que trata-se de uma conexão entre o material e o espiritual que está sendo rompida, ou transformada. Por que? Porque Deus havia dado a ordem a Adão, que a contou a sua mulher. Eva foi seduzida, mas cabia a Adão a responsabilidade de zelar pela criação e por sua mulher.

“E a Adão disse: Visto que atendeste a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te ordenara não comesses,…”
“Nesse dia morrereis…”, ao invés, abriram-se os olhos. Que abertura de olhos é essa, que torna a terra maldita? Adão já tinha conhecimento das coisas do mundo, tanto que as nominava. Então, não é este o sentido de abrir os olhos. Esse novo entendimento, esse abrir de olhos, é o conhecimento do mal que havia no universo e que agora residia nele próprio, transformando a própria terra que deveria ter guardado.

3. do que o homem deveria guardar a terra?

Há então que se compreender o sentido profundo dessa morte anunciada no capítulo 3 de Gênesis. Já vimos que toda a natureza foi afetada pela desobediência de Adão e Eva, o que é lógico, haja visto o papel que Deus havia confiado ao homem de guardar o jardim. Mas guardar de quê? A resposta é óbvia: da degradação promovida por Satanás, representado em Gênesis 3.1 pela serpente.

O sentido dos versos que lemos até aqui assim fica mais claro. A posição que o homem havia recebido não era, como hoje pensamos, apenas uma posição de domínio, de senhorio egoísta e manipulação da natureza, tal como hoje o praticamos. E o fazemos, não só sobre toda a natureza, mas uns sobre os outros. Não só o homem deveria zelar pela criação, como havia uma ligação entre o mundo criado e o mundo espiritual. Esse me parece ser o sentido original do que se perdeu, essa ligação se desfez, inserindo a morte e a corrupção no mundo.

Desde esse momento, afastaram-se o homem e a mulher de YHWH Elohim, o SENHOR Deus, e procuram cobrir e esconder seu erro, pelo próprio esforço. Pior, usando para isso as coisas do mundo criado:

“…e fizeram cintas para si. Quando ouviram a voz do SENHOR Deus, que andava no jardim pela viração do dia, esconderam-se da presença do SENHOR Deus, o homem e sua mulher, por entre as árvores do jardim” (Gênesis 3.7).

Repassemos os acontecimentos até aqui relatados:

“Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar. E o SENHOR Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2.15-17).

“Mas a serpente, mais sagaz que todos os animais selváticos que o SENHOR Deus tinha feito, disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim? Respondeu-lhe a mulher: Do fruto das árvores do jardim podemos comer, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Dele não comereis, nem tocareis nele, para que não morrais. Então, a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal. Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu. Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueira e fizeram cintas para si. Quando ouviram a voz do SENHOR Deus, que andava no jardim pela viração do dia, esconderam-se da presença do SENHOR Deus, o homem e sua mulher, por entre as árvores do jardim. E chamou o SENHOR Deus ao homem e lhe perguntou: Onde estás? Ele respondeu: Ouvi a tua voz no jardim, e, porque estava nu, tive medo, e me escondi” (Gênesis 3.1-10).

4. a necessidade e a possibilidade de redenção

Começa então a ficar claro o sentido da morte mencionada em Gênesis 3, e a necessidade de redenção de que tratará toda a Bíblia, a ação de Deus para que essa ligação rompida possa ser reestabelecida: a morte é a separação de Deus. No dia em que comeu, de fato, Adão afastou-se de Deus, morreu, porque fora de Deus não há Vida. O que Adão e Eva experimentaram não foi apenas um fruto do conhecimento do bem e do mal. Não adianta especular que fruto seria esse, qual sua natureza e sabor conforme os frutos que hoje conhecemos, e cuja ingestão opera em nosso corpo. Aquele, continha o mal.

A Bíblia nos diz que todo o bem vem de Deus, em quem não há treva alguma (Tiago 1.13-18), e vimos no início deste capítulo que as obras de Deus eram boas e agradáveis. O que a humanidade experimentou naquele jardim, deixando de olhar para a infinidade de coisas boas e maravilhosas, e para a (árvore da) vida, foi o próprio mal, cuja consequência é a morte. Por isso tornaram-se conhecedores da diferença do bem e do mal, pois enquanto não sabiam o que era o mal, só havia o bem. Conhecendo o mal, e com o mal misturando-se pela incredulidade, provaram a morte.

5. a separação de Deus é morte

A morte a que se refere Gênesis 2.17 (“certamente morrerás”) e Romanos 5.12 (“por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte”) é a separação de Deus. Deus é vida, e todo bem procede Dele (Tiago 1.13-18), mas a morte é a separação de Deus, tal como Adão, que ao comer esconde-se de Deus, afasta-se de Deus, porque agora conhece e tem em si o mal. Sim, é também a morte física, mas esta decorre de uma morte espiritual.

“E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo,…” (Hebreus 9.27).

Não resta dúvida de que opera uma morte física, mas, antes dela, uma morte espiritual. E, ao fim, o juízo. Começamos aqui a entender um grande mistério. Se a morte física houvesse acompanhado de imediato a morte espiritual, o homem estaria para sempre longe de Deus. Os sintomas do afastamento de Deus começaram de modo sutil, quando Adão e Eva cobiçaram ser como Deus. O sintoma, e a operação do pecado, primeiro foi interna, mas os resultados logo se viram: vergonha, esconder-se de Deus, expectativa de juízo, afastamento de Deus. No entanto, seus efeitos finais se postergaram, pois a morte física não foi imediata.

É assim ainda hoje, como lemos na citação de Hebreus acima. Com o esquecimento dos tempos iniciais, os homens foram perdendo o entendimento e mesmo a compreensão da morte. Chegam mesmo a se sentir imortais, posto que para isso foram criados. Pensam que a morte é apenas algo físico e distante na sua existência, sem perceber a brevidade da oportunidade que resta. As consequências desse afastamento e recusa do conhecimento de Deus são drásticos:

“Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis. Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si; pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!” (Romanos 1.20-25).

De fato, a Bíblia nos ensina que a morte não é apenas a degradação da matéria, mas é o afastamento de Deus decorrente da corrupção. Apesar disso, Deus ainda opera e sustenta o mundo por seu amor, e o faz até hoje. É Deus, em Cristo, quem sustenta o mundo por seu poder: “Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder,” (Hebreus 1.3).

Mesmo a vida humana, pervertida pelo afastamento de Deus, ainda é sustentada por Ele, como dito em Gênesis 6.3, uma das notas mais tristes da Bíblia: “Então, disse o SENHOR: O meu Espírito não agirá para sempre no homem, pois este é carnal; e os seus dias serão cento e vinte anos”. Não sabia Deus que o homem era carne? Obviamente. O sentido é de que a carne opera pelo pecado, pela corrupção dos propósitos de Deus, para sua própria satisfação. O contexto imediato e próximo desse verso reforça que seja este o entendimento. E é exatamente isso o que opera a morte, e daí a necessidade de salvação.

6. um mistério: a oportunidade da salvação vinda de Deus em meio ao mal

Por isso o mistério a que me referi acima, da prorrogação ou adiamento da morte e seus efeitos, para que não se consume o afastamento de Deus. Porém, como Adão no jardim, não podemos superar isso por nós mesmos. Esse também é o sentido da história. Mas o mistério a que me refiro não está nessa prorrogação, mas na possibilidade que ela traz de encontrar a salvação operada pelo próprio Deus. Quem diz não sou eu, são as Escrituras. Este é o mistério que reside aí:

“Evidentemente, grande é o mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória” (1 Timóteo 3.16).

“vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque vós sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!” (Gálatas 4.4-6).

Essa presença de Deus que agora temos pela fé, esse sopro que mantém a vida referido em Gênesis 6.3 mencionado acima, decorre da presença invisível e da ação de Deus. E Deus nos mantém a oportunidade, mesmo quando fazemos o mal: “Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (Mateus 5.44). Ele nos chama ao arrependimento.

A expressão “mesmo quando fazemos o mal”, que indiquei acima, deve suscitar perguntas justas. E por que Deus tolera o mal? Não estaria vendo Deus o mal nesse tempo de vida que nos resta, geração após geração? Essa é a pergunta que faz Habacuque, e tem a ver com os acontecimentos de Gênesis 3 que estudamos neste capítulo:

“Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar; por que, pois, toleras os que procedem perfidamente e te calas quando o perverso devora aquele que é mais justo do que ele?” (Habacuque 1.13).

De fato, Deus não tolera o mal, o suporta para que possamos ser salvos, compreender o mistério da salvação de nossa existência que se gasta como um sopro. Sendo Puro, Santo, Deus não experimenta a corrupção nem pode provar o mal, adia seu juízo e sofre, mantendo a vida como vimos em Gênesis 6.3. A pergunta de Habacuque é a que muitas pessoas fazem, vendo que nesta vida o sol nasce sobre bons e maus. É uma pergunta justa. Mas sabemos a resposta a Habacuque: a misericórdia de Deus aguarda para que, arrependendo-se e convertendo-se de seus caminhos para Deus, os homens possam ser salvos:

“Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (2 Pedro 3.9).

”Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (João 16.33)

Embora Deus continue sustentando tudo pelo seu poder, e faça chover sobre bons e maus, isso não permanecerá para sempre. A retirada da presença de Deus significa o fim da vida. Com o tempo, nos afastamos de Deus e o entendimento espiritual foi se embaçando, foi se misturando com a terra e com o que é baixo, obscuro, mesmo no sentido espiritual. Em nós mesmos não temos salvação, estamos condenados a esse cativeiro.

”Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado.

Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte. Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne, isso fez Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado, a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito. Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz. Por isso, o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus. Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se, de fato, o Espírito de Deus habita em vós. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele. Se, porém, Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito é vida, por causa da justiça. Se habita em vós o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos vivificará também o vosso corpo mortal, por meio do seu Espírito, que em vós habita” (Romanos 7.18 a 8.11).

7. esse mistério da luta contra o pecado e da salvação está anunciado em Gênesis?

Se voltarmos ao momento da “queda do homem”, veremos que Deus havia prometido aos nascidos de mulher, de Eva, um descendente que seria ferido pela serpente e a esmagaria: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gênesis 3.15). A Bíblia de Jerusalém, entretanto, traduz descendente por “uma linhagem”. Isso indica a essência da história humana desde então, oscilando entre o bem e o mal, com uma escolha a ser feita. Mais, e terrível, a escolha do mal, como foi com Adão e Eva, é a participação na natureza do mal.

Entretanto, Gênesis 3.15 tem também um sentido profético, sem o qual essa equação não se resolveria jamais, e seríamos para sempre escravos dessa morte, que é o afastamento de Deus, e a consequente corrupção da vontade e da carne. Gênesis 3.15 anuncia a necessidade de redenção, e a promessa de que viria. De fato, já veio. Quer entender que este é o sentido maior dessa luta indicada em Gênesis 3.15? A imagem é retomada em Apocalipse 12, deixando claro o sentido e a redenção dessa luta a que ainda estamos submetidos:

“Viu-se grande sinal no céu, a saber, uma mulher vestida do sol com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça, que, achando-se grávida, grita com as dores de parto, sofrendo tormentos para dar à luz. Viu-se, também, outro sinal no céu, e eis um dragão, grande, vermelho, com sete cabeças, dez chifres e, nas cabeças, sete diademas. A sua cauda arrastava a terça parte das estrelas do céu, as quais lançou para a terra; e o dragão se deteve em frente da mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o filho quando nascesse. Nasceu-lhe, pois, um filho varão, que há de reger todas as nações com cetro de ferro. E o seu filho foi arrebatado para Deus até ao seu trono” (Apocalipse 12.1-5).

O trecho imediatamente seguinte não deixa dúvida sobre essa relação do que lemos em Gênesis 3 com um mundo espiritual, e esclarece do que se trata, embora o sentido já seja claro no livor do Gênesis:

“Houve peleja no céu. Miguel e os seus anjos pelejaram contra o dragão. Também pelejaram o dragão e seus anjos; todavia, não prevaleceram; nem mais se achou no céu o lugar deles. E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra, e, com ele, os seus anjos” (Apocalipse 12.7-9).

Vejamos novamente Gênesis 3.15, referindo-se à serpente e à mulher:

“Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gênesis 3.15).

Essa afirmação sobre o futuro dos descendentes de Eva, portanto, uma profecia, coloca a situação da humanidade, asseverando uma descendência que entraria em conflito com Satanás. Só que, após colocar todos diante das consequências de haverem experimentado o mal, e das tentativas fúteis de Adão e Eva de cobrirem o pecado, Deus fez algo inesperado:

“Fez YHWH Deus vestimenta de peles para Adão e sua mulher e os vestiu” (Gênesis 3.21).

Lembremos que Adão e Eva, após o pecado, sentiram-se nus diante de Deus e o temeram, o que não ocorria antes; a seguir, esconderam-se procurando se cobrirem com um entrelaçado de folhas de figueira. A simbologia é muito sofisticada, e ao mesmo tempo simples e direta. As roupas tecidas com a figueira, que na Bíblia representa por vezes Israel, isto é, o povo herdeiro das promessas, não foram capazes de tornar o homem justo diante de Deus.

O esforço humano, mesmo buscando realizar as promessas de Deus, devido ao pecado, não é mais capaz de fazê-lo. Foi necessário que o próprio Deus sacrificasse um animal e vestisse o homem. São vários os aspectos e a severidade disso. Lembremos que Deus o faz em um momento em que os homens não podiam matar os animais nem mesmo para comer (Gênesis 1.29,30). Percebe-se agora a desordem causada pelo pecado humano na criação, e pela ação de Satanás.

Observe que o assunto irá atravessar toda a Bíblia, na Lei, nos Profetas, nos Salmos, nos Evangelhos e nas Cartas, até o Apocalipse, cabendo a Jesus ser sacrificado pelos pecados, ou seja, o cordeiro da Lei que definia a compensação pelo pecado, prefigurado no sacrifício que o próprio Senhor faz ao julgar o pecado de Adão e Eva. Em Apocalipse os que se chegam a Deus estão com vestes alvas, lavadas no sangue do cordeiro (Apocalipse 7.14; 12.11). O sacrifício, feito ainda no Éden para cobrir Adão e Eva, era uma figura de um sacrifício ainda maior, que só seria feito por Cristo, pelo próprio Deus.

9. por que o homem foi expulso do jardim no Éden?

As pessoas às vezes não atentam para esses significados. Mas o sentido é claro, o homem não foi expulso do jardim, a que passamos chamar de paraíso por uma outra associação de ideias, por causa do pecado. Isso pode ter sido uma causa, mas a razão da expulsão, segundo a Bíblia é outra: para que, tomando também da árvore da vida, não vivesse eternamente.

“Então, disse o SENHOR Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal; assim, que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente. O SENHOR Deus, por isso, o lançou fora do jardim do Éden, a fim de lavrar a terra de que fora tomado. E, expulso o homem, colocou querubins ao oriente do jardim do Éden e o refulgir de uma espada que se revolvia, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gênesis 3.22-14).

A razão da expulsão não foi o pecado em si, nem o juízo sobre esse pecado, mas o estabelecimento de uma possibilidade de salvação. O que aconteceria, se o homem, morto pelo pecado e pelo afastamento de Deus, comesse da árvore da vida? Experimentaria o juízo, e sua existência eterna seria demarcada pela distância de Deus. Seria escravo, para sempre, da morte. Particularmente nítida sobre essa intensão de salvação é uma das últimas frases da Bíblia, retornando à imagem da árvore da vida que havia no jardim no Éden:

“Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras [no sangue do Cordeiro], para que lhes assista o direito à árvore da vida, e entrem na cidade pelas portas” (Apocalipse 22.14).

Observe que esta foi a causa da expulsão do jardim, não a condenação, mas a salvação! Para que, tendo provado o mal, o homem não comesse da árvore da vida. Porque o pecado que operava nele produzia a separação de Deus. O conhecimento do mal gera a morte, e a morte é a separação de Deus, a fonte e sustentação de toda vida. Mas, no final da Bíblia, a árvore da vida está novamente à disposição do homem. Como? Para aqueles que passaram da morte para a vida, lavados no sangue, no sacrifício de Jesus: “para que lhes assista o direito…”. Só é possível provar da vida e da comunhão com Deus através de Jesus, que se fez carne, foi sacrificado por nós e por nós humilhado, mas que ressuscitou levando cativo a morte.

Podemos seguir por toda a Bíblia os sacrifícios, desde esse momento inicial até o Novo Testamento, quando são interrompidos, pois Jesus consumou o sacrifício e derrotou a morte. Até esse momento, entretanto, o Antigo Testamento narra a necessidade do homem de oferecer sacrifícios compensatórios para achegar-se a Deus.

Já no capítulo seguinte à “queda”, a dificuldade de entender a santidade de Deus leva a um acontecimento trágico. Caim e Abel trazem suas ofertas a Deus, sendo que o de Abel agradou ao Senhor, e o de seu irmão não. Aqui também temos que ler com cuidado. Sem dúvida Abel ofereceu um sacrifício de sangue, e Caim um de ofertas da lavoura. Mais tarde, veremos que a Lei de Moisés contemplava ofertas de louvor da lavoura, mas para o pecado, sempre ofertas que envolviam o sacrifício de animais.

Só que o problema da oferta de Caim e de Abel não foi meramente ritual. A obrigação e a forma ritual não havia ainda sido estabelecida, como lemos na história de Noé, Abraão e todos até o êxodo, quando a Lei é estabelecida no Sinai. Abel ofereceu de todo o coração suas ofertas a Deus, e não foi assim Caim. Deus não recusou Caim, tanto que vai conversar com ele. No entanto, o coração de Caim já havia se obscurecido pelo seus desejos. Lição que também percorre toda a Bíblia, como poderemos ver sob a vigência da Lei de Moisés, Deus cobrando o sentido do que espera:

“Pois misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Oséias 6.6).

Gênesis 3 e 4 são um resumo da história humana, dos desvios de seu coração e da necessidade de escolher entre o bem e o mal, e da força do mal operando para a degradação humana. Mostram também a insuficiência das ações humanas para, por si mesmo, resolver essa equação e, portanto, a necessidade de redenção. Deus interditou o jardim para que o homem, comendo da árvore da vida naquele momento, não viesse a estar para sempre em seu estado de degradação. A redenção vem por Jesus, em quem teremos a vida:

“Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis; sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos; ao qual, porém, Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte; porquanto não era possível fosse ele retido por ela” (Atos 2.22-24).

“Vi um grande trono branco e aquele que nele se assenta, de cuja presença fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para eles. Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono. Então, se abriram livros. Ainda outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros. Deu o mar os mortos que nele estavam. A morte e o além entregaram os mortos que neles havia. E foram julgados, um por um, segundo as suas obras. Então, a morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo” (Apocalipse 20.11-14).

O paralelo entre o livro do Gênesis e o do Apocalipse ultrapassa o serem o primeiro e o último livro da Bíblia. Claramente se referem e se explicam. Graças a Deus, que em Cristo, temos a salvação, o conhecimento de Deus, a possibilidade de nos achegarmos novamente a Ele, não só como aquele que mantém todas as coisas e sustenta a vida de bons e maus, mas à intimidade e ao conhecimento Daquele que fez todas as coisas, a quem novamente retornamos em Cristo:

“Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras [no sangue do Cordeiro], para que lhes assista o direito à árvore da vida, e entrem na cidade pelas portas” (Apocalipse 22.14).