”POR POUCO NÃO SOU/ NÃO ME TORNO CRISTÃ / CRISTÃO”
“tenho medo de me converter”
Euler Sandeville Junior
São Paulo, 28 de maio de 2016

 

Essa frase do título acima parece ser a da vida de muitas pessoas. Esse “por pouco” pode indicar o por que não quis, ou ainda, uma outra expressão: “tenho medo de me converter por causa de…”.

Mas o que é ser um cristão? Em um mundo em que todas as coisas vão perdendo seu sentido, em que a religião parece ser uma razão em si independente até mesmo da fé, em que as pessoas bradam a religião para fazer o contrário do que lá se diz, é justo que alguém se coloque essa pergunta.

Ontem um querido amigo me perguntou isso, e me disse: “me dê três razões pelas quais você pode dizer que é cristão”. Não tive que pensar, foi espontâneo: “primeiro, porque tenho comunhão com Deus em Cristo Jesus; segundo, porque creio sem reservas que ele morreu e ressuscitou, está vivo, como nós aqui; terceiro, porque creio sem qualquer dúvida que a Bíblia é a Palavra de Deus”.

Por vezes alguém tem uma amiga ou um amigo que é cristão, consagrado a Deus, que não é perfeito, mas é sincero em sua busca e comunhão com Deus. É importante distinguir isso, a vida na fé com o Cristo ressurreto não exige pessoas perfeitas, ao contrário, nos ensina o tempo todo que não há nada que nos difira uns dos outros, senão a graça de Deus. Por isso mesmo, se não exige perfeição (que muitas vezes acaba sendo apenas uma forma de aparência externa), exige total sinceridade daquele que se aproxima de Deus.

“E sucedeu que, estando ele em casa, à mesa, muitos publicanos e pecadores vieram e tomaram lugares com Jesus e seus discípulos. Ora, vendo isto, os fariseus perguntavam aos discípulos: Por que come o vosso Mestre com os publicanos e pecadores? Mas Jesus, ouvindo, disse: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero e não holocaustos; pois não vim chamar justos, e sim pecadores [ao arrependimento] (Mateus 9.10-13).

Muita gente, ao ouvir o evangelho, e observar a vida sincera com Deus de um cristão, não disse perfeita, por isso mesmo disse sincera, sente uma vontade íntima de que seja verdade a Palavra de salvação, que é a da vida com Deus em Cristo que lhe é dirigida. Não só seus ouvidos ouvem, seu coração parece desejar usufruir isso. É o Espírito Santo de Cristo tocando na pessoa, convidando-a. Mas a mente e os desejos racionalizam então desculpas para a própria pessoa, que são na verdade um bater em retirada, uma fuga da própria vontade de crer. O que é isso? É uma vontade que existe no coração de cada um de se achegar a Deus, mas um receio de que crer não seja possível para ela.

E por que não crê e atira-se ao Senhor? Medo, desconfiança, orgulho, descrença… Medo e desconfiança de que isso vá mudar sua vida. E vai mesmo, porém não é algo externo, será algo que brota de seu coração no tocar a Deus, ao ser tocado por Ele. Medo e desconfiança de ter que fazer isso ou aquilo, ser assim ou assado, que lhe impede de olhar para Deus e segui-lo sem receio.

Pode ser ainda mais do que isso. Pode ser um medo íntimo de ser de fato feliz, que decorre do receio de decepcionar-se em algo tão grandioso como os mais profundos amores da vida. Ou seja, de passada a efusão inicial, decepcionar-se, reconhecer-se novamente em si mesmo, só, longe de Deus. De ser só emoção, de não ser capaz de prosseguir. Nesse caminho, de fato, você não encontrará a Deus, embora possa efetivamente ter sentido e compreendido Sua presença.

A beleza das parábolas e dos ensinos de Jesus é que são muito simples, e falados numa linguagem que usa figuras bem conhecidas de pessoas que ainda viviam muito próximas da natureza e do campo, ou ainda expõem o essencial de forma direta e clara. Como quando um mestre da Lei, ouvindo os ensinos de Jesus, lhe questiona: “Qual é o mais importante de todos os mandamentos da Lei?”.

A resposta de Jesus é um dos mais belos trechos das Escrituras. Ele responde, recorrendo à própria Lei, citando dois trechos do Pentateuco, em Deuteronômio 6.3-6 e em Levítico 19.18. Ao fazê-lo, dá uma amplitude totalmente nova e essencial àquele que busca a Deus:

“Respondeu Jesus: O principal é: Ouve, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.

Disse-lhe o escriba: Muito bem, Mestre, e com verdade disseste que ele é o único, e não há outro senão ele, e que amar a Deus de todo o coração e de todo o entendimento e de toda a força, e amar ao próximo como a si mesmo excede a todos os holocaustos e sacrifícios.

Vendo Jesus que ele havia respondido sabiamente, declarou-lhe: Não estás longe do reino de Deus” (Marcos 12.29-34).

Entendo bem a beleza desse mandamento, e a palavra mandamento pode sugerir que seja uma obrigação. Nada mais falso, isso seria, como diz a Bíblia, ler a letra e não compreender com o espírito. A beleza desse mandamento é que, ao contrário, nos liberta, nos faz livres, nos coloca contemplando a beleza do próprio Deus em Jesus (“Disse-lhe Jesus: Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai?” João 14.9), e nosso coração palpita de amor. Não somos obrigados a nada, não temos que fazer força alguma, simplesmente amamos a Deus.

“O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida (e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual estava com o Pai e nos foi manifestada), o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo” (1 João 1.1-3).

Pode ser que você hesite porque em seu íntimo tema alguma das coisas que indiquei acima, ou outra que em seu íntimo lhe impede de aproximar-se de Deus e entregar-se a Ele. Naquele momento em que se sente tocado, ao invés de correr para Deus, prefere ser tomado por receios de enganar-se ou de não ser capaz de prosseguir. Receio de frustrar-se. É necessário entender o que de fato ocorre no íntimo da pessoa que ouve a Palavra de salvação, e hesita.

Jesus nos deixou uma parábola sobre isso, ao contar a parábola do semeador:

“Eis que o semeador saiu a semear. E, ao semear, uma parte caiu à beira do caminho, e, vindo as aves, a comeram. Outra parte caiu em solo rochoso, onde a terra era pouca, e logo nasceu, visto não ser profunda a terra. Saindo, porém, o sol, a queimou; e, porque não tinha raiz, secou-se. Outra caiu entre os espinhos, e os espinhos cresceram e a sufocaram. Outra, enfim, caiu em boa terra e deu fruto: a cem, a sessenta e a trinta por um. Quem tem ouvidos [para ouvir], ouça” (Mateus 13.3-9)

As pessoas que ouviam não entenderam. De que Jesus lhes falava? Então seus discípulos depois lhe pediram para explicar a parábola. Aqui, mais uma vez, a beleza e a simplicidade dos ensinamentos de Jesus. Qualquer um pode entender seu sentido, uma vez que saiba a que se refere a parábola, e assim examinar seu próprio coração e pensamentos, desejos e vontades reais (“Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas” Hebreus 4.12-13):

“Atendei vós, pois, à parábola do semeador. A todos os que ouvem a palavra do reino e não a compreendem, vem o maligno e arrebata o que lhes foi semeado no coração. Este é o que foi semeado à beira do caminho. O que foi semeado em solo rochoso, esse é o que ouve a palavra e a recebe logo, com alegria; mas não tem raiz em si mesmo, sendo, antes, de pouca duração; em lhe chegando a angústia ou a perseguição por causa da palavra, logo se escandaliza. O que foi semeado entre os espinhos é o que ouve a palavra, porém os cuidados do mundo e a fascinação das riquezas sufocam a palavra, e fica infrutífera. Mas o que foi semeado em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende; este frutifica e produz a cem, a sessenta e a trinta por um” (Mateus 13.18-23).

Veja a ênfase de Jesus no coração. Esses momentos em que você ouve no coração a Palavra são preciosos e não devem ser desperdiçados. Não é à toa que Jesus disse ao contar a parábola: “Quem tem ouvidos [para ouvir], ouça” (Mateus 13.9). Como diz na carta aos Hebreus: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração” (Hebreus 3.15).

Mas, se quando se ouve a voz de Deus, esses temores ou aflições, ou escândalos (que são decepções), ou sobrecargas da vida e fascinações dos desejos lhe rondam ameaçando que não possa conseguir, o que fazer? Ouvir, compreender e viver (frutificar). Mas talvez ainda me diga, não serei capaz, voltarei à incredulidade e à solidão da ausência de Deus, a meus próprios pensamentos e desejos… O amor é a resposta que está lhe faltando.

“Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor. Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele. Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (1 João 4.8-10).

“Aquele que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele, em Deus. E nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem por nós. Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele. Nisto é em nós aperfeiçoado o amor, para que, no Dia do Juízo, mantenhamos confiança; pois, segundo ele é, também nós somos neste mundo. No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor. Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1 João 4.15-19).