QUEM PODE BUSCAR A DEUS? (I. O ENSINO DE JESUS)
Euler Sandeville Jr.
São Paulo, 25 de abril de 2016.

 

A resposta deve parecer óbvia: todos, qualquer um. Evidente, não poderia ser diferente. Sim, qualquer um pode. Mas por que, e de que modo, você faria isso? Talvez o versículo mais bonito da Bíblia seja este abaixo, tão simples, e que suscita um anseio, quando o compreendemos, como no Salmo logo a seguir:

Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças. (Deuteronômio 6.5-9).

Como o cervo anseia pelas correntes das águas, assim a minha alma anseia por ti, ó Deus! A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando entrarei e verei a face de Deus? (Salmo 42.1-2).

Como se vê, é tudo tão simples.

Muitas vezes pensamos que as pessoas que se aproximam de Deus devem ser as mais puras e elevadas, cheias de boas obras e com um comportamento social exemplar. Nada contra isso, que é louvável, só que não é assim. Houve um jantar, e Jesus foi convidado com seus discípulos. O homem que o convidou chamava-se Levi, e exercia uma profissão detestável, porque coletava impostos para os dominadores romanos da Judeia. Chamado por Jesus, abandonou a coletoria e manifestou a disposição para uma nova perspectiva de vida agora seguindo a Jesus:

Depois disso saiu e, vendo um publicano chamado Levi, sentado na coletoria, disse-lhe: Segue-me. Este, deixando tudo, levantou-se e o seguiu. Deu-lhe então Levi um lauto banquete em sua casa; havia ali grande número de publicanos e outros que estavam com eles à mesa. Murmuravam, pois, os fariseus e seus escribas contra os discípulos, perguntando: Por que comeis e bebeis com publicanos e pecadores? Respondeu-lhes Jesus: Não necessitam de médico os sãos, mas sim os enfermos; eu não vim chamar justos, mas pecadores, ao arrependimento (Lucas 5.27-32).

Publicanos eram os coletores de impostos nas províncias do Império Romano. Os fariseus (do hebraico פרושים prushim que significa separados) eram homens extremamente religiosos daqueles tempos mas, ao lado de preocupações justas, facilmente acabavam se julgando mais do que os outros, porque cumpriam uma série de rituais minuciosos e se reuniam aos sábados. Jesus quebrava esses conceitos. Como na parábola que contou em outra oportunidade, como que para não deixar dúvidas:

Propôs também esta parábola a uns que confiavam em si mesmos, crendo que eram justos, e desprezavam os outros: Dois homens subiram ao templo para orar; um fariseu, e o outro publicano. O fariseu, de pé, assim orava consigo mesmo: Ó Deus, graças te dou que não sou como os demais homens, roubadores, injustos, adúlteros, nem ainda com este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou o dízimo de tudo quanto ganho. Mas o publicano, estando em pé de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, o pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que a si mesmo se exaltar será humilhado; mas o que a si mesmo se humilhar será exaltado (Lucas 18.9-14).

Não é que Jesus recusasse os fariseus enquanto tais, mas os estava advertindo que em sua religiosidade haviam deixado de reconhecer as coisas básicas de Deus, o amor, a misericórdia, a solidariedade. Entre os muitos momentos que nos ajudam a entender esses princípios, quero destacar dois. O primeiro, na crucificação, um dos ladrões blasfema e humilha a Jesus na cruz, e o outro o confessa e pede a Jesus que o acolha. A história é bem conhecida, mas vale ser lembrada. Jesus dirige-se a este que se coloca sinceramente diante dele, e o consola e lhe direciona a promessa de salvação. Você poderia argumentar: mas eram ladrões, precisavam os dois de salvação, só um se arrependeu. Jesus diria, não só eles, mas todos precisam de salvação.

A outra história já não se refere a ladrões, isto é, a pessoas que seriam punidas socialmente, mas a uma pessoa de alta posição social. Não como as tantas que oprimem os outros e as enganam, como elites que vemos tanto por aí. Ao contrário, era um homem que se prezava pelo cumprimento da Lei de Deus, que havia honrado seus pais, seguido as leis, etc. Como veremos, Jesus procurou mostrar-lhe que até sua preocupação com sua salvação era egoísta, uma forma de ganho diante do receio da morte ou de justificação pessoal, sem atentar para o essencial, voltada para si próprio como tudo em sua vida. Encantado com sua riqueza e justiça própria, afastou-se de Jesus sem entender sua mensagem.

A passagem está dividida em duas partes, a aproximação daquele homem indagando o “bom mestre” e a resposta que Jesus lhe dá; e, na sequência, o ensino que Jesus dirigiu aos que presenciaram o acontecimento. Nesse segundo momento, Jesus criou a figura do camelo e da agulha, talvez um dos trechos mais conhecidos da Bíblia sobre o acúmulo de riquezas. Não é sobre a riqueza que tratarei agora, e sim sobre o sentido mais profundo dessa passagem. Reproduzo a passagem inteira, a partir do Evangelho de Marcos, lembrando que o Evangelho de Lucas ainda nos informa que esse homem era “um dos principais”, ou seja, um homem influente no sistema religioso da época:

Ora, ao sair para se pôr a caminho, correu para ele um homem, o qual se ajoelhou diante dele e lhe perguntou: Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna? Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? ninguém é bom, senão um que é Deus. Sabes os mandamentos: Não matarás; não adulterarás; não furtarás; não dirás falso testemunho; a ninguém defraudarás; honra a teu pai e a tua mãe. Ele, porém, lhe replicou: Mestre, tudo isso tenho guardado desde a minha juventude. E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Uma coisa te falta; vai vende tudo quanto tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, segue-me. Mas ele, pesaroso desta palavra, retirou-se triste, porque possuía muitos bens.

Então Jesus, olhando em redor, disse aos seus discípulos: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! E os discípulos se maravilharam destas suas palavras; mas Jesus, tornando a falar, disse-lhes: Filhos, quão difícil é [para os que confiam nas riquezas] entrar no reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus. Com isso eles ficaram sobremaneira maravilhados, dizendo entre si: Quem pode, então, ser salvo? Jesus, fixando os olhos neles, respondeu: Para os homens é impossível, mas não para Deus; porque para Deus tudo é possível (Lucas 18.9-14).

Observe com atenção, Jesus, conhecendo a intenção desse homem, logo no início lhe chama atenção para o problema. À honraria e adulação que o homem lhe dirige de “Bom mestre”, Jesus o adverte: “Por que me chamas bom? ninguém é bom, senão um que é Deus”. Que lição dada com delicadeza, e ao mesmo tempo contundente. Acorde! Perceba, disse-lhe Jesus! Não só Jesus está lhe chamando atenção sobre o modo como o procura, mas está mostrando-lhe a contradição do que apresenta como questão. Menciona então os mandamentos dados por Deus a Moisés (“Não matarás; não adulterarás; não furtarás; não dirás falso testemunho; a ninguém defraudarás; honra a teu pai e a tua mãe”), que deveriam ser a base de toda a Lei judaica. É evidente que o homem conhecia a Lei, e foi em busca dessa resposta como que para justificar-se. De modo que responde apressadamente: “Tudo isso tenho feito”.

O que lhe escapava, e parece escapar a muitas pessoas, é que Jesus omitiu dois mandamentos. Obviamente eram do conhecimento de ambos. A omissão era uma forma de indicar-lhe que ele estava voltado para si mesmo, deixando de perceber o principal. O que foi omitido? A própria essência da Lei:

Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças. E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as ensinarás a teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando pelo caminho, ao deitar-te e ao levantar-te. Também as atarás por sinal na tua mão e te serão por frontais entre os teus olhos; e as escreverás nos umbrais de tua casa, e nas tuas portas (Deuteronômio 6.5-9).

O que Jesus faz a seguir é mostrar-lhe de uma forma prática onde está o seu coração, não apenas nas riquezas, mas sem o conhecimento de Deus. O que fica claro pela omissão da parte que se refere a Deus na resposta de Jesus e pela resposta desse homem que não percebe isso. Não era bom, ou não fazia de coração? Tudo indica que era e Jesus se compadeceu dele, o amou.

Os dez mandamentos referem-se primeiro a amar a Deus, e depois a amar o próximo. Esse homem tinha só a segunda parte, e por não haver a primeira, na segunda não ressaltava o amor que é o princípio da Lei, mas a obediência sem entendimento, como justiça própria. O homem, preocupado consigo mesmo, não percebeu o sentido da resposta, como não percebeu quando Jesus lhe respondeu indagando por que o chamava de bom. O conceito de bom, e o conhecimento de Deus desse homem, estavam errados. Seus olhos estavam nele mesmo, e não na busca de Deus.

O trecho final é dirigido aos que ouviam e também perceberam que tinham seus próprios limites. Jesus conclui: “Para os homens é impossível, mas não para Deus; porque para Deus tudo é possível”. Em um dos trechos mais belos do Novo Testamento, vemos que “Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse”, isto é, lhe ensinou, o convidou a entender e corrigir o modo como deve dirigir-se a Deus. Encerrou-se a história? Não, abriu-se. “Para os homens é impossível, mas não para Deus; porque para Deus tudo é possível”, o que quer dizer que a esperança está e permanece ao nosso alcance.

Veja como foi diferente a atitude e a disposição de um outro homem. A este Jesus não pediu que abandonasse nada, apenas que o recebesse, ao ver que desejava conhecê-lo. Zaqueu certamente não havia sido até então uma pessoa das mais honestas. Mas ao entrar em contato com Jesus, imediatamente sente uma evidente alegria e muda-se-lhe a perspectiva de vida:

Tendo Jesus entrado em Jericó, ia atravessando a cidade. Havia ali um homem chamado Zaqueu, o qual era chefe de publicanos e era rico. Este procurava ver quem era Jesus, e não podia, por causa da multidão, porque era de pequena estatura. E correndo adiante, subiu a um sicômoro a fim de vê-lo, porque havia de passar por ali. Quando Jesus chegou àquele lugar, olhou para cima e disse-lhe: Zaqueu, desce depressa; porque importa que eu fique hoje em tua casa. Desceu, pois, a toda a pressa, e o recebeu com alegria. Ao verem isso, todos murmuravam, dizendo: Entrou para ser hóspede de um homem pecador. Zaqueu, porém, levantando-se, disse ao Senhor: Eis aqui, Senhor, dou aos pobres metade dos meus bens; e se em alguma coisa tenho defraudado alguém, eu lho restituo quadruplicado (Lucas 19.1-8).

Mais uma vez, Jesus nos chama atenção de que não será por nossa justiça, pela nossa religião, pelo que sabemos, pela posição social, pelo que sofremos:

Nisso vieram alguns a trazer-lhe um paralítico, carregado por quatro; e não podendo aproximar-se dele, por causa da multidão, descobriram o telhado onde estava e, fazendo uma abertura, baixaram o leito em que jazia o paralítico. E Jesus, vendo-lhes a fé, disse ao paralítico: Filho, perdoados são os teus pecados. Ora, estavam ali sentados alguns dos escribas, que arrazoavam em seus corações, dizendo: Por que fala assim este homem? Ele blasfema. Quem pode perdoar pecados senão um só, que é Deus? Mas Jesus logo percebeu em seu espírito que eles assim arrazoavam dentro de si, e perguntou-lhes: Por que arrazoais desse modo em vossos corações? Qual é mais fácil? dizer ao paralítico: Perdoados são os teus pecados; ou dizer: Levanta-te, toma o teu leito, e anda? Ora, para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados ( disse ao paralítico ), a ti te digo, levanta-te, toma o teu leito, e vai para tua casa (Marcos 2.3-11).

Essas passagens ensinam que Deus está a aprovar os erros que cometemos? Obviamente não. Deus não faz acepção de pessoas. Quer dizer apenas que mais do que os erros aos olhos dos homens, Deus recusa o coração soberbo e arrogante. Como está no Salmo 19.12,13: “Quem pode perceber os próprios erros? Purifica-me dos que ainda não me são claros. Da mesma forma livra o teu servo do orgulho, para que ele nunca me domine; então experimentarei a integridade, e serei inocente de grande transgressão”.

De fato, são muitos os textos da Bíblia que mostram esse princípio, inclusive no Antigo Testamento, sem o qual ninguém poderá se aproximar de Deus, pois seu próprio orgulho e presunção esconderão o Senhor diante de seus olhos. Como Adão, que ao ouvir a voz de Deus se esconde e se encobre, querendo por si mesmo justificar-se ou ocultar sua distância e desobediência a Deus.

A resposta para a pergunta – Quem pode buscar a Deus? é simples: pecadores, pessoas que sabem da distância que estão da pureza de Deus e, ainda assim, com um coração sincero, sem orgulho ou sem justificativas, colocam-se como são, confessando um desejo verdadeiro e profundo de conhecer e amar o Deus eterno, e de conhecer sua salvação em Jesus.

 

Leia também a segunda parte deste artigo: Quem eram essas pessoas que buscavam a Deus?