UM CONVITE AMOROSO
Euler Sandeville Jr.
São Paulo, 26 de abril de 2016.

 

Muitas vezes silenciamos ao longo da vida questões que nos aqueciam. Como se fossem uma paisagem pela janela de um trem. Passando rápido, fixando fragmentos, nuances. Deixamos de lado essas indagações profundas, certos de que devemos nos dedicar ao que aprendemos, ao que desde muito tempo, antes de nós mesmos chegarmos ali, parece que já se dizia e dizia, moldando o mundo em que haveríamos de existir e de moldar o futuro. Nos conformamos a esse ensino que também é emudecido, e no entanto contundente como a voz de uma multidão, conformando nosso destino e convicções. Deixamos de perguntar por nós mesmos. Nos tornamos o que somos, uma parte esquecida, em meio a ressurgências possíveis do que podemos ser, governados por essas leis que silenciam a inquietação da alma.

Quantas vezes não largamos tudo nas brisas da imaginação, decantando em profundos poços o esquecimento. Quantas vezes não fugimos na imaginação em busca desses diálogos silenciosos a crisalidar nesses poços, nos quais parte de nós se abriga do que somos, e em torrentes ressurgentes insistem em assediar o presente, como se nele habitassem essas quimeras sem formas que nos impulsionam a retornar à força dos hábitos? Como em um romance que se descortina em um olhar fugidio, o sentido da vida nos convida a reproduzir no dia a dia a tatuagem desses sonhos, como que na água.

Não são tristes. Para uns são alegres, para outros não. Em um momento o são, no outro se foram em meio ao trânsito da rua e do toque do telefone nos chamando a algum acontecimento que se impõe como importante; na verdade, desejoso, ele mesmo, de deixar de ser coisa e fundir-se através da massa do cotidiano nessas verdades que nos habitam, para que possam ter algum sentido. Podem ser tristes, podem ser alegres, porque esses acervos do íntimo não são coisas, se é que algum dia o foram: são estados da alma, que tecemos em nosso convívio uns com os outros, desde o âmago.

Talvez não possamos jamais mergulhar plenamente em nossas memórias, nesse vivido que é como um resíduo ativo em nós, do qual a maior parte nos escapa e do qual não escapamos. Mas temos que aprender com o presente e todo o acervo de coisas que vivemos, produzimos juntos, herdamos de nossos pais e famílias, das pessoas que amamos e abraçamos pelo caminho, e dos abraços que faltaram. Porque nos foram negados, porque os negamos em nossa inconsequência ou timidez. A densidade da vida não pode ser minimizada, mas através de sua opacidade há sempre uma aurora querendo brotar como se não pertencesse a este mundo, um vislumbre maior ainda do que o nosso desconhecido em que realizamos nosso conhecido. Porque a jornada adiante é sempre mais densa quanto mais é etérea. Porque nela residem possibilidades que não vivemos.

Talvez um dia tenhamos que nos haver com tudo isso. Com uma lucidez absurda. Como que sentados na solidão de uma imensa praia, em que a espuma das ondas mistura-se com a umidade da neblina, e o horizonte do céu se confunde no horizonte do mar fundindo-se semi embaçado na umidade de nossos olhos, banhados com essas verdades da alma que só nós conhecemos. Diante de Deus, que nos convida a conhecê-lo em Jesus o Salvador e Senhor, aceitemos o convite de atravessar toda essa jornada não na solidão, mas com Ele. Possamos então, nessa jornada, na beleza e na incerteza do vivido, compreender nosso tempo, nossa brevidade, nossa significação.

Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo (Apocalipse 3.20).