UM FORTE DESEJO CONTRÁRIO A DEUS
Euler Sandeville Jr.
São Paulo, 07 de maio de 2016

Advertência inicial: este texto não trata de situações que decorram de desvios psíquicos de qualquer tipo, mas apenas do conflito moral comum que muitos de nós experimentam na vida quando uma contradição entre nossos desejos e atos se torna mais forte ou tensiona fortemente nossa vontade e capacidade de decisão. Quanto ao desejo, não é o desejo em si que é mal ou bom, pois é uma capacidade que nos foi dada por Deus; conta ver qual a natureza do desejo e para onde se dirige.

 

Muitas vezes vemos pessoas em luta profunda contra seus sentimentos, suas atitudes, seus vícios. Nem sempre, mas por vezes isso decorre de uma consciência atormentada. Quando é esse o caso, as pessoas podem ficar frágeis e fáceis presas de qualquer consolo ou paliativo que lhes dê algum alívio, sem entretanto poder influir nas causas. Esse tipo de coisa, embora seja um drama humano comum, não tem nada a ver com a Bíblia, e de forma alguma é incentivado nela. Ao contrário:

Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte (2 Coríntios 7.10).

A Bíblia vai ainda mais longe, e nos adverte para nos acautelarmos com relação a pessoas que seduzem outras a partir da culpa que carregam. Falando de falsos mestres nos últimos dias, Paulo escreveu a Timóteo:

“Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes. Pois entre estes se encontram os que penetram sorrateiramente nas casas e conseguem cativar mulherinhas sobrecarregadas de pecados, conduzidas de várias paixões, que aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade. E, do modo por que Janes e Jambres resistiram a Moisés, também estes resistem à verdade. São homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto à fé; eles, todavia, não irão avante; porque a sua insensatez será a todos evidente, como também aconteceu com a daqueles” (2 Timóteo 3.1-9).

Essa lista do que vai pelo coração humano nos últimos dias é bem problemática: “egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados”, ou seja pessoas vaidosas, cheias de si. E mais, entre elas, pessoas que buscando a aparência da piedade, negam-lhe entretanto qualquer efeito, qualquer resultado em suas vidas. Isso lhe parece familiar?

O resultado é que nesses casos as pessoas tornam-se presas fáceis de qualquer artifício (sobrecarregadas de pecados, conduzidas de várias paixões). Em decorrência, nessa condição, aprendem sempre sem jamais chegar ao conhecimento da verdade. Ou seja, aprendem o que não interessa, ou ainda, ouvem interminavelmente, sem jamais conseguirem compreender. Como também está escrito em 2 Timóteo 4.3,4: “Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas“. Resultado, permanecem escravas de suas paixões, de seus desejos e afetos em desordem. Na verdade, é o caso de se perguntar se não se satisfazem, exatamente, em permanecerem nessa condição adversa.

Há também outras situações. De pessoas que não querem se conformar com esse estado, mas muitas vezes não conseguem. Esforçam-se sinceramente para superar suas fraquezas. Pode ser ira, desejos egoístas, e muitas outras coisas que produzem resultados ruins para si e para os outros. De fato, não há uma receita de como superarmos as tensões interiores. E também não há qualquer promessa na Bíblia de que nunca mais enfrentaremos lutas, pois nossa humanidade, despojada de sua arrogância natural, é a matéria prima pela qual Deus nos conduz a um contínuo crescimento, a novos horizontes na Sua comunhão.

”Ora, a mensagem que, da parte dele, temos ouvido e vos anunciamos é esta: que Deus é luz, e não há nele treva nenhuma. Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado. Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (1 João 1.6-10).

Como estava escrito no Antigo testamento: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos; e isto para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto das suas ações” (Jeremias 17.9-10). É necessário entender nossa natureza, para podermos nos aproximar daquele que é Santo. Com isso vemos de onde provêm essas dificuldades todas, do coração humano. Não são coisas externas, mas da nossa intimidade, da profundidade mais secreta do que somos. E vemos também que Deus não olha para o exterior, e sim para o coração. Estes versos da Bíblia acima citados fazem mais do que mostrar nosso erro, também nos dão uma pista de como vencer e enfrentar essas contradições ou fortes paixões que por vezes tanto satisfazem a alma, quanto nos destroem. É na comunhão com Deus.

Como isso pode parecer abstrato, e como as pessoas gostam de fazer tudo por si mesmas sem buscar a orientação de Deus na Bíblia, muitas vezes os homens procuraram enfrentar sua concupiscência, seus fortes desejos, com uma disciplina rigorosa. Mesmo quando esse esforço é bem sucedido na aparência, de fato continua escondido no íntimo o problema com o qual se luta. Ou ainda, o que nos envergonha na aprência é satisfeito nos atos realizados em oculto. A imagem um tanto pitoresca para nós hoje do ermitão que se mutila e se infringe a solidão e castigos severos para enfrentar o pecado, é apenas a exacerbação dessa luta moral, quando se cai presa seja da culpa, seja de desejos que guerreiam contra nós mesmos.

No entanto, formas menos drásticas são tentadas de disciplina e mortificação da carne (do corpo, dos sentidos, dos sentimentos). Geralmente, descobrirão, em meio a lutas interiores por vezes muito intensas, que apenas a disciplina, mesmo a mais rigorosa, nada pode contra o descontrole dos desejos e dos impulsos, que exacerbados, chegam a ameaçar o convívio e até mesmo a integridade da própria pessoa. Não fora pelo ardor mais evidente do mal quando salta aos olhos, mesmo que trancafiado no coração pela disciplina, isso corrói a alma e a alegria. E quando corrói o íntimo, por vezes o custo desse controle do comportamento, gera pessoas duras, implacáveis juízes dos outros como são de si mesmas. Esta foi a experiência dos fariseus e de muitos ascetas.

“Todos os caminhos do homem parecem certos aos seus olhos, mas o SENHOR julga as verdadeiras motivações do coração” (Provérbios 16.2, KJA).“Ouvistes o que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Eu, porém, vos digo, que qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, em seu coração, já cometeu adultério com ela” (Mateus 5.27-28, KJA).

“Quem não ama permanece na morte. Toda pessoa que odeia seu irmão é homicida, e sabeis que nenhum assassino tem a vida eterna em si mesmo” (1 João 3.14+,15, KJA).

[Esses regulamentos] “Têm na verdade aparência de sabedoria pela religiosidade afetada, pela humildade e mortificação do corpo, mas não têm valor algum senão para satisfação da carne” (Colossenses 2.23, BJ).

O último trecho acima da Palavra de Deus é muito forte. Para ficar mais clara sua força no original, acrescento aqui outras traduções do mesmo trecho: “humildade e mortificação do corpo” é traduzida na KJA como “falsa humildade e rígida disciplina para com o corpo” e “não têm valor algum senão para satisfação da carne” é traduzido na JFA como “não têm valor algum contra a sensualidade”. Está aí a razão pela qual nenhuma disciplina é capaz de transformar o homem; parecendo mortificar a vontade, na verdade a exacerbam, e também resulta em uma forma de satisfação da carne. Paradoxalmente, quando é assim, até a religião é uma forma de satisfação da sensualidade (sensualidade lasciva). A sensualidade (lasciva) não é apenas a forte atração física desregrada, embora também o seja, mas antes de mais nada é o desejo de enraizar-se nos prazeres de um modo geral.

Geralmente, ao ler essa palavra, a maioria das pessoas entende que se refere ao sexo, mas não é assim, o sentido bíblico traduzido por sensualidade (ou conupiscência, ou desejo da carne), abrange muito mais, e coisas bem mais comuns no dia a dia de nossas relações, a ira, a avareza, a inveja, o amor ao dinheiro etc. Para que fique claro, já que nossa sociedade ocidental resolveu escolher arbitrariamente o que devia ser mais escandaloso, a Bíblia fala de obras da carne, cujos frutos são a morte, e de fruto (singular) do Espírito (de Deus, em quem o segue):

“Ora, as obras da carne [σαρκός] são conhecidas e são: prostituição [πορνεία], impureza [ἀκαθαρσία], lascívia [ἀσέλγεια], idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras [θυμοί], discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam.Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei” (Gálatas 5.19-23)

A palavra grega traduzida por “carne” em Gálatas 5.19 é σαρκός, a mesma que em Colossenses 2.23 é traduzida como “(satisfação) da carne” ou “sensualidade”. A palavra porneia, que é traduzida por fornicação, ou seja, relação sexual ilícita, e que nós geralmente identificamos como sensualidade, na verdade aparece apenas 25 vezes no Novo Testamento, enquanto a palavra aselgeia, no trecho citado de Gálatas traduzida por lascívia aparece 10 vezes aparece no Novo Testamento. A palavra traduzida por ira (thumos) aparece 18 vezes e a traduzida por discórdias ou contendas (eritheia) aparece 7 vezes. Claro que não se trata de uma questão estatística (até porque teríamos que analisar os contextos), mas devemos nos desvencilhar de olhar apenas para um pecado como se fosse “o” grande pecado que preocupa a Bíblia, e perceber que outras coisas que consideramos comuns, corriqueiras, são até mais, ou tanto quanto, questionadas nas Escrituras. Com isso, deve ficar mais claro o sentido do que a Bíblia nos propõe entender, e renovarmos nosso entendimento e disposição, até porque o cultivo qualquer delas abre a porta para as demais.

Não se está dizendo que a disciplina não tem importância, mas que por si só não pode operar aquilo que se busca e que, muitas vezes, pode operar o contrário se for procurada por si mesma. São inúmeros os trechos da Bíblia que realçam o valor da disciplina, tanto no sentido de repreensão segundo Deus quanto no de sermos capazes de fazer as escolhas adequadas. Para citar apenas alguns: Deuteronômio 8:5, Provérbios 1:1-4, 1:7, 3:11-12, 5:22-23, 6:23, 10:17, 12:1, 13:18, 13:24, 15:5, 22:15, 23:12, 23:13-14, 23:23-25, 1 Coríntios 11:32, Hebreus 12:5-11, Tiago 1.22-25, 3.1-12. Portanto, é necessário que se entenda o que se está dizendo aqui, para ao procurar evitar um erro, não incorrer em outro.

A sensualidade não deixa de ser sensualidade porque lutamos contra ela, porque é do coração que isso provém. E o sentido de sensualidade na Bíblia é o de um forte desejo para a satisfação pelos sentidos como um fim em si, egoísta, e não se limita ao que se refere ao desejo sexual (que é outro assunto muito mal entendido, mas não é o tema desta mensagem). É bem conhecido o trecho em que Caim mata a Abel, mas nem sempre se atenta nas razões pelas quais o faz, nem ao conflito em que se encontra, nem ao fato de que Deus o convida e mudar de direção: יהוה (YHWH) disse a Caim: “Porventura se procederes bem, não se há de levantar o teu semblante? e se não procederes bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo; mas sobre ele tu deves dominar” (Gênesis 4.7). Veja o trecho:

“Aconteceu que no fim de uns tempos trouxe Caim do fruto da terra uma oferta ao SENHOR. Abel, por sua vez, trouxe das primícias do seu rebanho e da gordura deste. Agradou-se o SENHOR de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou. Irou-se, pois, sobremaneira, Caim, e descaiu-lhe o semblante. Então, lhe disse o SENHOR: Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo.
Disse Caim a Abel, seu irmão: Vamos ao campo (…)” (Gênesis 4.3-8).

A chave não está apenas no domínio próprio como geralmente lemos esse versículo, embora sem dúvida seja necessário, haja visto o resultado. Acontece que, tomado por fortes desejos ou emoções, o domínio próprio não será, por si só, capaz de superar o mal. Não consta que Caim tenha se esforçado ou não. Ele simplesmente não atentou para o que Deus lhe dizia, apenas para sua necessidade de satisfação, de externar sua ira e mágoa a qualquer custo. A disciplina não é ainda suficiente para vencer, porque o desafio habita o coração. Nós olhamos para a última parte, para a necessidade de dominar, e esquecemos da primeira, que diz: se procederes bem. E o que era proceder bem nesse contexto? Era aproximar-se de Deus. Abel havia buscado a Deus, Caim a seus interesses e bens (há um simbolismo bíblico nas ofertas que não desenvolverei aqui). Em decorrência, descobriu essas verdades do pior modo, porque seu coração, mais do que se aproximar de Deus, queria dar vazão à sua amargura e inveja. Queria ser justo sem precisar ser. Para isso é necessária a graça de Deus.

A disciplina como mortificação do corpo, dos sentimentos e da vontade, não produz a justiça de Deus, porque ainda está baseada na força e na presunção humana. O terceiro capítulo de Colossenses trata disso, aliás, na sequência do trecho citado acima (Colossenses 2.23). A expressão bem conhecida “Mortificai os vossos membros” também pode ser traduzida como “Exterminai, pois, as vossas inclinações carnais”. Quais sejam essas inclinações está claramente indicado nesse trecho e em outros:

“Exterminai, pois, as vossas inclinações carnais; a prostituição, a impureza, a paixão, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria; pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência; nas quais também em outro tempo andastes, quando vivíeis nelas; mas agora despojai-vos também de tudo isto: da ira, da cólera, da malícia, da maledicência, das palavras torpes da vossa boca; não mintais uns aos outros, pois que já vos despistes do homem velho com os seus feitos, e vos vestistes do novo, que se renova para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou; onde não há grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo ou livre, mas Cristo é tudo em todos” (Colossenses 3.5-11).

Mas como obter isso? O risco é ler apenas o “mortificai” (“exterminai” na tradução acima), e não entender nem o sentido, nem o Caminho, perdendo-se em um esforço não só destinado ao fracasso, mas que, frequentemente, na dificuldade de dar conta de si tenderá a submeter outros às mesmas cadeias sem com isso compreender o sentido da liberdade a que nos chama Deus. Não podemos operar por nós mesmos. Porque os frutos da carne, como já vimos, são contrários ao do espíritofigura: Bíblia, passe o mouse para ler citação do versículo. No trecho acima, Colossenses 3.5-11, como no caso de Caim, vimos a resposta de como proceder, de como obter isso: “se procederes bem”. E vimos que esse proceder bem é buscar a Deus, com um coração verdadeiro, tal como fizera Abel. O mesmo capítulo 3 de Colossenses, nos versos que antecedem imediatamente o trecho citado acima havia deixado claro: buscando as coisas do alto, ou seja, mantendo os olhos em Cristo, nos revestindo de coração compassivo, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade, perdoando-vos uns aos outros, buscando a paz de Cristo. E semelhantes a estes há muitos ensinos na Bíblia:

“Se, pois, fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra; porque morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória” (Colossenses 3.1-4).”Revestí-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de coração compassivo, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade, suportando-vos e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como o Senhor vos perdoou, assim fazei vós também. E, sobre tudo isto, revesti-vos do amor, que é o vínculo da perfeição. E a paz de Cristo, para a qual também fostes chamados em um corpo, domine em vossos corações; e sede agradecidos. A palavra de Cristo habite em vós ricamente, em toda a sabedoria; ensinai-vos e admoestai-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, louvando a Deus com gratidão em vossos corações. E tudo quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai” (Colossenses 3.1-4).

Podemos ver ainda que o problema não é o corpo em si, a carne como tal. Como a palavra mundo, a palavra carne abriga esses dois sentidos na Bíblia, a do corpo mortal, e a dos desejos que operam nesse corpo pelo pecado. Por isso, ao invés de sermos governados pelas contingências imediatas do corpo, que está enfermo pelo pecado e se desfaz, procuramos o que é eterno e se renova pela vida e pelo sacrifício de Jesus, de modo que podemos andar não mais governados pela imediata satisfação egoísta dos desejos, mas movidos pelo Espírito Santo movidos em direção ao que é eterno e perfeito. Ainda não somos, nem o seremos nesta existência “debaixo do sol” como diz o Eclesiastes, por isso não olhamos apenas para o que se desfaz, mas olhando para o autor e consumadro da fé, que tem a Vida em si mesmo, sabemos que somos peregrinos e estrangeiros, ou seja, estamos de passagem. É importante distinguir e entender o que se diz. Vejamos mais um texto que elucida isso:

“Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte. Porquanto o que era impossível à lei, visto que se achava fraca pela carne [σαρκός], Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança da carne [σαρκός] do pecado, e por causa do pecado, na carne condenou o pecado, para que a justa exigência da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito. Pois os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que são segundo o Espírito para as coisas do Espírito. Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz. Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser; e os que estão na carne não podem agradar a Deus.
Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele. Ora, se Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justiça. E, se o Espírito daquele que dos mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dos mortos ressuscitou a Cristo Jesus há de vivificar também os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita.
Portanto, irmãos, somos devedores, não à carne para vivermos segundo a carne; porque se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis. Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus. Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes com temor, mas recebestes o espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai!” (Romanos 8.1-15)

De fato, se nos entregarmos a nossas sensações como um fim em si mesmo, se o prazer que nos possibilitam volta-se apenas para si, escurecendo ou negando outras dimensões da vida por uma satisfação imediata, nos tornaremos escravo delas. E sempre hão de exigir de nós repetição com maior intensidade. Por isso mesmo, também, será assim para aquele que confiar na disciplina extrema como um fim em si mesma para enfrentar os desejos da carne.

Não precisa ser assim, porque a alegria também é um princípio da Palavra de Deus. Então, temos que aprender a discernir entre esses campos das possibilidades e fragilidades humanas em nossa busca por Deus. No entanto, o ser humano estará sempre diante de tensões de sua consciência. Mesmo a pessoa materialista e agnóstica se deparará com contradições e lutas com sua consciência, ou terá de amortecer sua sensibilidade. Convém então perguntar:

“De onde vêm as batalhas e os desentendimentos que há entre vós? De onde, senão das paixões que guerreiam dentro de vós. Cobiçais e nada tendes. Matais e invejais, porém não conseguis obter o que desejais; viveis a brigar e a promover contendas” (Tiago 5.1,2).

Sabemos de onde vêm, mas precisamos saber também como nos alegrarmos diante da criação e da presença de Deus e como não ficarmos cativos das fragilidades descritas acima, já que não podemos superar certas condições apenas pela mortificação e disciplina da carne. O evangelho não é uma porposta pessimista de mortificação e negação (“a tristeza do mundo produz morte”), mas de comunhão com Deus, que produz a vida, o fruto da presença de Deus, ainda que mesmo nessa busca ainda tenhamos muitas vezes que nos prostrar diante de Deusfigura: Bíblia, passe o mouse para ler citação do versículo. Como disse Jesus, é o que sai do coração o que contamina o homem:

“O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem; e o homem mau, do seu mau tesouro tira o mal” (Lucas 6.45).“Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus” (Mateus 5.8).

“Também de pecados de presunção guarda o teu servo, para que não se assenhoreiem de mim; então serei perfeito, e ficarei limpo de grande transgressão. Sejam agradáveis as palavras da minha boca e a meditação do meu coração perante a tua face, Senhor, Rocha minha e Redentor meu!” (Salmo 19.13-14)

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie. Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus antes preparou para que andássemos nelas” (Efésios 2.8-10).

Do que foi dito até aqui, em um assunto que certamente é difícil para quem não quer se conformar com os valores do presente mundo, algumas coisas me parecem essenciais: 1. é necessário estar olhando para Cristo e na comunhão com Deus e os irmãos; 2. é necessário saber que não somos perfeitos e iremos tropeçar, pois se alguém diz que não peca é mentiroso e faz de Deus mentiroso e se confessamos os nossos pecados Ele nos perdoa e purifica; 3. é necessário saber que a culpa dificilmente irá produzir o arrependimento, pois a mera tristeza segundo o mundo, por mais intensa, gera a morte; 4. renovarmos nosso entendimento do que a Bíblia aponta como coisas graves, vendo que nem sempre o que socialmente condenamos é a maior das preocupações bíblicas, e coisas que aceitamos no nosso cotidiano como normais ou casuais, aparecem em pé de igualdade com o que consideramos mais escandaloso, de modo que passemos a cultivar a comunhão com Deus; 5. é necessário conhecer os princípios e valores de que fala a Palavra de Deus, e deles nos revestirmos e cultivarmos, para sermos transformados a cada dia; 6. quem semear obras da carne colhe morte, ou seja, distância de deus e se vulnerabiliza para outras coisas semelhantes, quem anda na comunhão com Deus participa do fruto do Espírito Santo (paz, alegria, mansidão, etc.).

Sim, não estaremos livres das nossas aflições e lutas, mas com uma mudança profunda do pensamento e do coração, purificado e perdoado por Deus, poderemos enfrentar os desafios que se colocam a nossa frente. Estou muito longe de onde devia estar, porque fui tardio em aprender. Com meus erros aprendi da forma mais dura e desnecessária. Talvez isso possa consolar ou ajudar alguém, mas o melhor é não precisar disso, não chegar a se ver nos laços das próprias entranhas e dores, porque nem todo o que se deixa enlaçar tem a oportunidade do arrependimento para ver novamente a luz, a paz, a alegria da presença de Deus, embora todo o que o busque, o encontrará.

”buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal” (Mateus 6.33-34).

 

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* Nota: a tradução habitualmente utilizada neste sítio é a de João Ferreira de Almeida, Atualizada (JFA), que se você for comprar uma Bíblia recomendo que dê preferência a esta, ou à versão da Bíblia na Linguagem de Hoje, se você ainda está apenas começando. Quando utilizar outra tradução neste sítio isso será indicado através da abreviatura: KJA (King James Atualizada), BJ (Bíblia de Jerusalém). É necessário lembrar que são traduções de um idioma antigo, mas como verá, o sentido essencial não muda.