CONTO-FÁBULA DA TERRA
Euler Sandeville
Janeiro 2003, maio de 2017

veio a erva e perguntou à terra: posso?
não!

(há de me fazer cócegas essa coisa cheia de raizinhas
que vem em bandos: não!)

depois lhe propôs assim mesmo a árvore:
preciso de um lugar amigo onde enraizar-me
prometo florescer como abrigo
para os animais alados da noite
(bah… ratos com asas, mariposas…)
e frutificar contigo os frutos para os animais do campo
(urgh… coisas cheias de sementes meladas e espinhos pequeninos)

não!
decididamente: não!

(se a erva me coçaria a superfície
mais doeria a árvore com suas raízes
julgam-me talvez por tola
dá-se um palmo e logo se quer o subsolo
o freático alcançar
e um dia, ao acordar, lá estará a floresta toda
montada em mim)

ponderou sábia e prudentemente a terra:
além disso com as plantas
aumentariam os saprófitos as formigas os fungos os animais
a cavocar-me noite e dia coberta com um vestido de folhas secas

concluiu então como antes:
não! decididamente, não.

mas como a terra de nada se quisesse cobrir
nem houvesse companhia que lhe fosse boa
satisfeita em ser carente
veio o vento a sorrir
como quem não quer e quem não sabe
e não sabendo lhe acariciou a superfície
que estalava com o sol ardente
roubando-lhe sem maldade os mais finos grãos
antes de partir
para as terras ao sul

com isso enquanto contemplava distraída
quase por acidente
o vento preparou-lhe o dia
em que a água por ser água a invadiu desprotegida
infiltrando-se por todos os poros até saturar-lhe o ser
já sem ar

revolvendo-lhe a superfície
circulando águas e partículas de cima abaixo
esmiuçando-lhe a estrutura
e levando-a embora na torrente feroz
e sem maldade
a superfície os vãos
ravinando-lhe até a alma
então levada sem consentir
partiu a terra
sem saber por onde ia

acordou um dia embaixo d’água quente
a repousar lamacenta no fluxo já lento de um rio
que inquieto naquele verão a arrastara por todos os cantos
em rebuliço
sem descanso

até que um dia chegando à cidade
misturando-se a ela à fuligem óleos e graxas
foi revolvida até a superfície alcançar
e com o baixar das águas
finalmente pode descansar
já não reconhecendo as vestes
manchadas com as marcas de um novo lugar

pode ainda ver claramente longe
esse formigueiro humano que temia
e que com pedras caiadas reluzindo como prata (era alucobond)
tão alto ao céu se erguia
quando foi levantada pela draga
e jogada à margem pouco antes do por do sol

de manhã cedo
em meio à essa sina danada
suave aroma
lhe veio a semente de mamona
trazida de tão longe
como quem não quer
e sem lhe fazer perguntas
sem lhe impor condições
com as intenções de sempre já esquecidas
acolheu a terra cansada a semente
que chegava não se sabe de onde

meio sem forças e quase indiferente
ofereceu-lhe lugar
consolada pelo carinho das raízes
vindouras
que já não paravam de chegar