O ERRANTE E O CAMINHO1
Euler Sandeville Jr.
Itu, 08/05/2017 (primeira versão 27/10/2015)

 

Dentre todos, este post não podia tardar mais. Pela intensidade e profundidade do vivido, pela importância para o entendimento dos que me conhecem. E, para os que não participam, nem conhecem, podemos aprender e ser encorajados com o aprendizado uns dos outros.

 

Sou cristão. O que significa dizer isso? Que sou uma pessoa que não erra? Bem sei que não. Que sou governado por uma razão moralista? Não, claro que não é isso. Que lê a Bíblia? Também não, muitas pessoas leem e não são cristãs. Bem, eu leio a Bíblia, mas não é por nada disso que sou cristão.

A fé é uma realidade muito mais profunda do que essa, embora em algum momento sempre tenha de se haver com estes e outros desafios humanos. O que chamamos de vida cristã nos atinge muito mais profundamente e vai muito além da sinceridade e da honestidade, indispensáveis, mas não suficientes.

O que me faz cristão é um dia ter conhecido a Cristo e, ao tocá-lo no espírito, atestei sua ressurreição e o aceitei como Senhor2. Literalmente, caí de joelhos. É buscar a Deus o que me faz cristão. A isso chamamos de conversão, uma profunda mudança, que não é inerente, não vem de berço, é uma escolha como um abrir de olhos em algum momento da vida, que torna o antes e o depois demarcado pelo conhecimento de Jesus.

Não venho de família cristã; embora minha avó fosse católica, a família tendia ou para a indiferença, ou para o ceticismo, ou para um certo misticismo sincrético e sem grande aprofundamento. Também não vivi em um meio evangélico. Ao contrário, desde cedo experimentei e vivenciei contradições imensas, tanto em minha intimidade quanto no ambiente familiar e social. Minha escolha pelas artes também não me aproximava de uma prática cristã, ao contrário, colocava-me em uma intensidade criativa onde tudo se apresentava possível e, nesse sentido, inquietante.

Eu conheci ao Senhor e me converti ainda na Faculdade, em setembro de 1978. Porém, como está dito no Livro aos Hebreus, quando decorrido o tempo da conversão eu deveria ser mestre – o que quer dizer alguém experimentado na prática da palavra de Deus – novamente necessito de alimento leve3. Pior, mesmo tendo conhecido a ressurreição de Jesus passei a maior parte da minha vida andando por descaminhos, do ponto de vista de Deus. Nessa alucinação, vi e fiz coisas contrárias aos ensinamentos bíblicos. O que segue, portanto, tem um tom de confissão.

Depois que me separei, em meados dos anos 1990, atirei-me a uma condição de embriagues e paixões. Foram duas décadas assim, e quanto mais caminhava movido pelas minhas dores e culpas, mesmo que não tivesse plenamente essa clareza, ou melhor, que ela se traduzisse em processos criativos extremos, mais buscava eu mesmo meu próprio castigo e ruptura. O problema dessas coisas é que, depois de um tempo, e isso gradualmente, chegamos ao ponto de não perceber mais a distância de Deus. E quanto mais natural vai se tornando seguir os desejos e os encantos4, mais fundo essa busca se esvai atrás da paixão.

Resolvi então, nesses anos à deriva, guardar silêncio sobre a minha fé por não estar vivendo de acordo com o que sabia. Deus jamais saiu de meu coração, embora não conseguisse viver conforme sua Palavra e nos limites das igrejas como se organizam. Nunca deixei de orar, mas tornou-se esporádico e deixei de ler a Bíblia, talvez com alguma exceção, por cerca de quase 20 anos. Não deixei de ter fé, e era consciente de meu desvio de Deus, embora pouco a pouco deixasse de ter claras as dimensões das distâncias em que me colocava. Como o profeta Jonas, fugindo na direção oposta a seu chamamento, por sua pequenez de mente, a cada decisão e passo colocava-se mais longe – até o dia em que clamou a Deus. O profeta estava no fundo do oceano, mas ao clamar viu que Deus estava também ali.

Digo que foi aos poucos que segui essa trilha, porque aprendi que mesmo quando o que nos atrai ou exacerba a algum erro nos é externo, o que nos leva ou não ao erro, a decidir, é interno. O erro que cometemos raramente está além de nós mesmos, e mesmo havendo o pretexto, não é nele que reside nossa reação.

E o digo por mais uma razão, que também tenho aprendido. As coisas começam antes do momento em que as consumamos, suas razões estão em sua gestação muitas vezes silenciosa e oculta à consciência, a tomar a forma que vão ter só depois. Então vou repetir, aos poucos não percebi o quão longe fui na realização dos meus desejos, qual a distância de Deus em que me coloquei. O costume com alguma coisa ou condição, por conveniência e distração, tende a naturalizar, a quitar nossa consciência.

Veja, não deixei de fazer o meu trabalho, de ser honesto nas coisas, de ter uma relação que – desejava –, fosse positiva com os outros, fundada em princípios. Mas, no plano da intimidade, foi aí que experimentei essa dissolução do ser. Não foi na ambição desmedida, socialmente aceita, não foi na relação de esperteza buscando vantagens simbólicas, não foi lesando, mentindo, e outras tantas coisas tão comuns e aceitas socialmente, mesmo quando isso não seja dito que é assim, mas se revela claramente inscrito nas práticas.

Apenas me entreguei às paixões, o que pode trazer um desregramento socialmente menos aceito, De um modo pleno e intenso, deixei-me levar nessa busca , sincera, da intensidade da experiência, da paixão, dos desejos, das rupturas criativas, da alucinação do entorpecimento mas, mesmo isso, em uma busca criativa, de fazer arte. Estava errado, não porque a paixão em si seja imanentemente errada, mas porque não via mais toda a extensão do desvio que tomara e das consequências espirituais e psíquicas que me trazia.

Creio que uma metáfora ajude compreender. Emprestando a imagem de Jonas em seu contínuo afastamento, embrenhei-me também eu em um mergulho que parecia não ter fim. Nesse mergulho fui encontrando todo tipo de peixes coloridos que atraiam a atenção, e quando foi ficando mais profundo, peixes luminosos estabeleceram sua dança, até que cheguei a um ponto em que só resta a bolha de ar que sobe.

Tocando o fundo, o que há é como que um lodo, sem mais imagens; na verdade, esse lodo aparentemente informe é a essência de muitos desejos e vontades em estado bruto, que necessitam encontrar alguma forma para virem à tona. Normalmente, as pessoas se entretêm com as formas dos mais diversos peixes e corais que sobem à superfície, tornando aceitável e inconsciente esse elo profundo consigo mesmo. Em alguns casos, alguns de nós mergulham mais fundo, explorando as camadas subterrâneas da consciência.

Mas se cheguei tão longe, o que me fez voltar? E o que me impediu de voltar durante esses anos em que me entreguei à minha loucura?

Talvez a principal palavra que descreva minha hesitação em voltar tenha sido o medo. O medo de não conseguir, de tropeçar e cair novamente, de não ser capaz de levar minha fé a seu termo. O medo de não resistir a meus desejos, de não poder me conformar com as formas dadas, de enfrentar minha dura e frágil, embora tenaz, realidade. O medo de balançar, oscilando entre extremos, sem encontrar o ponto duradouro. E, mais uma vez tão óbvio, o desejo de me entregar à minha própria tragédia, minha sina, como se meu destino estivesse na inquietação e seu horizonte fosse o risco da destruição sob o signo da aventura.

Nesses anos, guardei silêncio sobre as coisas de Deus, pois não era digno de pronunciar seu Nome, ainda mais sabendo as coisas que sabia. Como em um redemoinho, fui sendo tragado às regiões abissais de meu ser, e manifestando-as com minha boca em minha insanidade. A insanidade de um toca a de todos, e sua manifestação poética certamente teve seu impacto, seus ouvintes.

Esse tipo de jornada é muito perigoso. Física, psicológica e espiritualmente. Mas não me refiro aqui aos riscos e consequências mundanas, e sim às espirituais. Não diz lá em Hebreus5 (como também nas cartas de Pedro6) que é impossível, após ter experimentado os dons celestes, voltar ainda à comunhão com Deus e com os irmãos? Entenda, não se trata do isso ou aquilo feito, mas de como o coração se afastou de Deus, mesmo reconhecendo-o, como quem resvala o pé no salto impensado quando a onda molha a rocha à beira mar. Deus está sempre próximo, nosso coração não, como Jonas, que do abismo é ouvido por Deus a quem já não via. Mesmo presente Deus, não se deve esquecer, de fato Jonas estava no abismo. O que está em questão nunca é a presença de Deus, é o lugar onde estamos.

O que me levou tão longe? Muitas explicações são possíveis, inclusive decepções, que talvez ultrapassem as possibilidades da memória, mas isso só ensina que o coração amargurado é sua própria destruição. Posso voltar? Como voltar agora, anos sem comunhão com os irmãos, mergulhado em ambientes que não conhecem, nem reconhecem a Palavra; ao contrário, não raro a desprezam e até a odeiam. Como fazer que as mudanças que sinto necessárias em mim não sejam pensadas no campo superficial dos preconceitos? É possível firmar-me, receber esse perdão e seguir sem jamais afastar-me novamente? Tendo ido tão longe, é aceitável a Deus que eu volte?

Pode-se dizer que cerca de 2008, e sobretudo 2010, quando cheguei sucessivamente a limites que o Filho Pródigo reconheceria por suas companhias, e talvez ido além experimentando minha própria insanidade de me entregar a esses caminhos, comecei um lento regresso para casa. Ainda não parecia. Foi só entre novembro de 2014 e abril de 2015 que tomei consciência das perguntas a colocar e a encontrar a resposta, a mudar radicalmente a minha perspectiva. Não eram coisas novas, era o renascer de uma coragem perdida, de uma razão sem a qual não me reconheço, de uma alegria e liberdade que não está nos atos, mas no espírito.

Senhor, mesmo eu sabendo tudo o que sei, tendo vivido tudo o que vivi da forma como vivi, o Senhor me recebe de volta? Já não me interessa se as pessoas vão compreender, nem se vão dizer que não havia mal em nada disso, porque o mal não estava nas coisas em si, mesmo quando não eram as melhores, e mesmo quando tocadas pelo hálito da sedução do mal, com que todos os humanos convivem.

O mal, verdadeiramente, estava no afastamento do Senhor. Sim, andei apartado de Jesus, em pecado, porquanto contrário á vontade de Deus, mesmo no que fosse aceitável aos olhos humanos, que não vêm as mesmas coisas na mesma coisa.

Meus caros, posso resumir. Só a alma contrita pode entender a sua dimensão diante de Deus: “Entretanto, o publicano ficou à distância. Ele sequer ousava olhar para o céu, mas batendo no peito, confessava: ‘Ó Deus, sê benevolente para comigo, pois sou pecador’.

Naqueles dias Ele me respondeu. Primeiro com o Salmo 66, em meus momentos de oração. Muito mais viria, como lemos nos Livros de Esdras e Neemias, nesse retorno a Jerusalém e ao Templo, isto é, aos lugares sagrados da presença do Altíssimo. Mês a mês, lágrimas; e edificação nos escombros do que fora uma visão gloriosa, para aprender que a única visão gloriosa é Deus. Novas lutas, novos limites, aprendizagem difícil de quem apreende com tanta facilidade coisas mundanas, mas tão tardiamente a Deus, cuja voz, entretanto, está sempre perto7.

Povos, bendizei o nosso Deus,
fazei ressoar seu louvor;
é ele que nos mantém vivos
e não deixa tropeçarem nossos pés.

Sim, ó Deus, tu nos provaste,
nos refinaste como se refina a prata;
fizeste-nos cair na rede,
puseste um peso em nossos rins;
deixaste um mortal cavalgar nossas cabeças;
passamos pelo fogo e pela água,
mas fizeste-nos sair para a abundância.

Entro em tua casa com holocaustos,
cumpro meus votos a ti,
os votos que meus lábios pronunciaram
e minha boca prometeu, na minha angústia.
Salmo 66.8-148

 
notas
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1Lucas 15:11-32. Onde não for indicado outra tradução, é utilizada a Almeida Revista e Atualizada.

2Hoje sei, diz a Bíblia na Carta aos Romanos (10.8-10): “Porém que se diz? A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração; isto é, a palavra da fé que pregamos. Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação.”

3Hebreus 5.11-14: “A esse respeito temos muitas coisas que dizer e difíceis de explicar, porquanto vos tendes tornado tardios em ouvir. Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido. Ora, todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança. Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal”.

4Como está descrito com toda clareza em Tiago 1.13-15: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte.”

5 Hebreus 6.4-6: “É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia.”

6Embora referindo-se a falsos profetas, a lição pode ser expandida, e é dura a referência que encontramos em 2 Pedro 2.17-22: “Esses tais são como fonte sem água, como névoas impelidas por temporal. Para eles está reservada a negridão das trevas; porquanto, proferindo palavras jactanciosas de vaidade, engodam com paixões carnais, por suas libertinagens, aqueles que estavam prestes a fugir dos que andam no erro, prometendo-lhes liberdade, quando eles mesmos são escravos da corrupção, pois aquele que é vencido fica escravo do vencedor. Portanto, se, depois de terem escapado das contaminações do mundo mediante o conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, se deixam enredar de novo e são vencidos, tornou-se o seu último estado pior que o primeiro. Pois melhor lhes fora nunca tivessem conhecido o caminho da justiça do que, após conhecê-lo, volverem para trás, apartando-se do santo mandamento que lhes fora dado. Com eles aconteceu o que diz certo adágio verdadeiro: O cão voltou ao seu próprio vômito; e: A porca lavada voltou a revolver-se no lamaçal.”

7Em Ezequiel 16, uma das mais severas e verdadeiras exortações da Bíblia a quem se afasta dos preceitos e da comunhão com o Senhor, ainda há uma possibilidade de reencontrá-lo em sua paciência e misericórdia nos chamando: “…para que te lembres e te envergonhes, e nunca mais fale a tua boca soberbamente, por causa do teu opróbrio, quando eu te houver perdoado tudo quanto fizeste, diz o SENHOR Deus. ” (Ezequiel 16.36). Por isso, em Hebreus 4.7, a exortação definitiva: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração.”. Por isso, como aprendemos no Livro de Jó, ainda que sob o entendimento equivocado de seu amigo Elifaz, correto o seu sentido (como se lê em Apocalipse 3.19): “Bem-aventurado é o homem a quem Deus disciplina; não desprezes, pois, a disciplina do Todo-Poderoso.” (Jó 5.17).

8Utilizada a Bíblia de Jerusalém, na qual li esse Salmo na ocasião a que me referi.