AVISO AOS NAVEGANTES: NÃO ESTAMOS SÓS
Euler Sandeville Jr.
São Paulo, 16 de setembro de 2017.
Nova redação ao texto de 25 de abril de 2016.

 

foto de Euler Sandeville Jr.

 

Há na incompletude de nossa existência aqueles momentos em que nos havemos necessariamente sós. Somos um pouco como os navegantes, vivemos na comunidade, mas há coisas na jornada que só aprendemos por nós mesmos, diante da imensidão do mundo e no imediato dos afazeres.

Há jornadas que teremos de navegar sozinhos e há um momento em que nos haveremos sós na passagem final desta vida. Naquele momento estaremos desnudos diante do desconhecido. Até lá, somos como o navegante, desenvolvendo nossas habilidades e indo e vindo pelo destino.

O navegante guia-se pelas correntes, pelos ventos e o mover-se do céu, pelo que conhece para situar-se na imensidão das águas, desenvolvendo seu saber fazer e suas habilidades. Mas, apesar de todo nosso esforço e afazeres, a vida transcorre como um sopro, mesmo que seja intenso, agradável, ou devastador.

Como o navegante, contemplar as águas imensas e o céu noturno, deve nos fazer pensar nesse transcurso. Existimos em um mundo e um universo muito maior do que jamais iremos supor e caminhamos para a eternidade. Nesse percurso, o tempo é como um casulo que nos abriga, destinado a se desfazer.

Por isso disse Jesus:

Ao cair da tarde, dizeis: Haverá bom tempo, porque o céu está rubro. E pela manhã: Hoje haverá tempestade, porque o céu está de um vermelho sombrio. Ora, sabeis discernir o aspecto do céu, e não podeis discernir os sinais dos tempos? (Mt 16. 2-3).

Há uma dimensão escatológica e outras implicações nessa metáfora de Jesus. Mas também podemos refletir em nossas próprias vidas. Ora, Jesus espera com isso que saibamos discernir não apenas os nossos ofícios, mas o tempo em que vivemos. Mais, que saibamos nos localizar e nos posicionar nesse tempo, discernindo assim nossos caminhos.

Estamos remando, e o remador experiente todo dia vai e vem, sabendo de onde parte e para onde volta, mas nem sempre na vida o sabemos. Mas isso dá à pessoa atenta uma dimensão ainda mais instigante. Certamente o mistério integra a existência e lhe confere uma dimensão rica.

Porém, em nossa cultura pós-moderna parece que se desejou eliminar o mistério, reduzir as possibilidades a um imediato. Daí a indiferença que resulta nesse instantâneo, como se nada mais tivesse a densidade das durações e consequências.

Ilusão, não só o mistério persiste mesmo quando não o queremos perceber, como reduzindo a vida ao momento de realização estamos perdendo parte do sentido dessa travessia e dos saberes necessários à sua navegação.

Para onde flui a vida?

Possamos entender o sentido de nossa existência diante de Deus, como através de uma imagem muito simples nos convidou Jesus a fazê-lo. Podemos escolher para onde desejamos ir e a direção que tomamos, mas não podemos nos subtrair da presença de Deus. Nem podemos, por mais que nos esforcemos, produzir suas obras. Se formos rebeldes, como quem se agita querendo se afastar de Deus, isso mostra apenas de nossa dificuldade de ver.

Observe o mundo ao seu redor, a beleza das coisas criadas, as possibilidades imensas da existência, ainda que breve, e perceba que, felizmente, não estamos sós. Deus se revela em cada coisa e, com seu amor, nos chama para desfrutar de um caminhar em diálogo com Ele.

Graças a Deus que Ele ouve nosso clamor quando sinceramente o buscamos e de coração lhe pedimos que nos acolha e nos mostre o caminho a seguir. Mas o que ele houve do navegante nestas águas da vida não é a destreza diante das ondas, e sim o coração em seus segredos e em sua verdade. Por isso Jesus nos disse, aos que queiram navegar nesta existência com o Criador da própria existência:

Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
(Mateus 6.6).

Nós não estamos sós, mesmo quando nos sentimos assim ou quando pensamos que tudo se resume ao momento que estamos vivendo, às coisas que conhecemos, à incerteza do que virá. Experimente conversar com o Criador e ouvir sua voz no vento suave que pode nos conduzir na existência em que navegamos a um horizonte que se aproxima.

 

 

 


* Nota: a tradução habitualmente utilizada neste sítio é a de João Ferreira de Almeida, Revista e Atualizada (ARA) ou Atualizada (JFA). Quando utilizar outra tradução neste sítio isso será indicado através da abreviatura: KJA (King James Atualizada), BJ (Bíblia de Jerusalém).