QUEM PODE BUSCAR A DEUS?
Euler Sandeville Jr.
São Paulo, 25 de abril de 2016, reescrito em 16 e 17 de setembro de 2017.


 

Um militar, um judeu, um estrangeiro, um negociante, um perfeccionista, um doente, um religioso, uma prostituta, uma viúva, uma virgem, um questionador. O que pode haver em comum entre eles? Nada. Vivem em nichos distintos, quando não antagônicos, da sociedade e das relações humanas.

Para os nossos olhos, geralmente tão cheios de preconceito, essas pessoas jamais se encontrariam, jamais seriam postas juntas uma com as outras. E devemos reconhecer, aos nosso olhos não parecem pequenas nem irrelevantes as diferenças que nos separam. Imagine uma pessoa que é um militar importante responsável pela ordem da ocupação em solo estrangeiro e um homem pobre, teimoso, sem erudição e zeloso de suas tradições. Como um poderia ver ao outro como pessoa? Assim, se pegarmos as pessoas dessa lista acima, que poderia ser bem mais extensa, talvez tivéssemos dificuldade de manter todas elas em um mesmo círculo de amizades.

Suas diferenças são por demais profundas, o modo como vivem e se posicionam na vida estão em campo diametralmente distantes. Muitas vezes a tendência seria vê-los pelo modo como os enquadramos, um questionador, uma prostituta, um religioso. Mas esses rótulos, que vestimos nos outros é também um modo de vestirmos os nossos próprios rótulos. Dependendo de onde cada um se encontra nesse espectro de possibilidades humanas e da cultura torna-se difícil e até insuportável ver o outro como pessoa. Esses que rótulos marcam nossas distâncias e incomodam afastam, e encerram os iguais em seus campos. Cada vez que julgamos por um a priori, por um rótulo, por um campo de conceitos pré-definidos, é porque nos posicionamos ancorados em nossos próprios rótulos. O mundo fica estreito.

Um militar, um judeu, um estrangeiro, um negociante, um perfeccionista, um doente, um religioso, uma prostituta, uma viúva, uma virgem, um questionador. O que pode haver em comum entre eles? Curiosamente, todas essas pessoas se encontraram, e tiveram que superar suas distâncias. Encontraram-se porque antes foram vistas por Deus.

Neste texto, veremos alguns dos homens e mulheres que, em algum momento, desejaram conhecer a Deus e entregaram-se a Ele de coração pela fé. Viveram em diferentes tempos na Antiguidade Oriental e Clássica (como se diz), em diferentes lugares, de diferentes ascendências, de diferentes ocupações e inserções sociais, com comportamentos muito distintos, sob o contexto de diferentes impérios e de povos em disputas. Muitos deles enfrentavam preconceitos, desde questões étnicas até morais, em seu tempo. Alguns eram justos, outros se achavam justos, outros se sabiam grandes transgressores. Não é nada disso o que faz a diferença espiritual. Uns tiveram que aprender a se relacionar entre si, ultrapassando suas fronteiras, outros se tornaram parentes, outros foram unidos pela história. Todos sabiam, em algum momento, que não tinham a Deus, e em algum momento de suas vidas compreenderam que desejavam mudar isso.

Houve, talvez por volta dos anos 30 ou 40 do primeiro século, um homem chamado Cornélio, que buscava e orava a Deus de coração. Cornélio, embora soubesse que Deus existe e é o criador de tudo, merecendo seu respeito e devoção, sentia ainda que algo lhe faltava. Ele era um homem “piedoso e temente a Deus com toda a sua casa, e que fazia muitas esmolas ao povo e de contínuo orava a Deus” (Atos 10.1). Mas, para os judeus, Cornélio tinha alguns problemas graves. Além de ser romano, estrangeiro representante de um povo dominador, era um militar que manteria a ordem a mando dos estrangeiros.

Deus ouviu as orações de Cornélio, e Pedro, o apóstolo, foi instruído a falar o evangelho da salvação para ele. Mas os judeus não entravam para comer com os estrangeiros, sobretudo os que representavam Roma. Os que o faziam eram mal vistos pela população e por setores religiosos e políticos, encarados como transgressores. É bem verdade que Cornélio era piedoso, granjeando respeito dos que o conheciam, mas embora seu coração desejasse a Deus ainda sem conhecê-lo, ainda por cima sua cultura era idólatra (Atos 10.25). Ele ainda não tinha discernimento de Deus. Pedro era um homem impulsivo, um homem iletrado e zeloso de suas tradições, das tradições de seu povo.

Deus mandou que Pedro aprendesse a vê-lo de outro modo e que Cornélio ouvisse a Pedro, um rude pescador. Para Deus o que significa o poder ou a tradição humana? Deus não vê da mesma forma que os homens e mulheres fechados em seu círculo de pequenas coisas, ainda quando lhes pareçam definir a existência. Nesse encontro saíram ambos transformados, novas pessoas. Pedro, vendo o mundo maior do que suas tradições, Cornélio convertendo-se ao Criador de todas as coisas e ao Salvador. Pedro, superadas suas hesitações, diz a Cornélio, e vemos aí o peso da distância em que se encontravam, tanto quanto a transformação que estavam experimentando:

Falando com ele, entrou, encontrando muitos reunidos ali, a quem se dirigiu, dizendo: Vós bem sabeis que é proibido a um judeu ajuntar-se ou mesmo aproximar-se a alguém de outra raça; mas Deus me demonstrou que a nenhum homem considerasse comum ou imundo; por isso, uma vez chamado, vim sem vacilar.

(…)

Então, falou Pedro, dizendo: Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável. Esta é a palavra que Deus enviou aos filhos de Israel, anunciando-lhes o evangelho da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos. Vós conheceis a palavra que se divulgou por toda a Judeia, tendo começado desde a Galileia, depois do batismo que João pregou, como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele; e nós somos testemunhas de tudo o que ele fez na terra dos judeus e em Jerusalém; ao qual também tiraram a vida, pendurando-o no madeiro. A este ressuscitou Deus no terceiro dia e concedeu que fosse manifesto, não a todo o povo, mas às testemunhas que foram anteriormente escolhidas por Deus, isto é, a nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressurgiu dentre os mortos; e nos mandou pregar ao povo e testificar que ele é quem foi constituído por Deus Juiz de vivos e de mortos. Dele todos os profetas dão testemunho de que, por meio de seu nome, todo aquele que nele crê recebe remissão de pecados. (Atos 10.27-29; 34-43).

Da mesma forma que Cornélio, que buscava a Deus mas ainda não o conhecia, houve um outro homem, de quem não sabemos o nome e conhecemos somente o episódio de sua conversão. Esse homem era um eunuco de uma corte estrangeira. Para os judeus os eunucos não podiam participar das assembleias devido à sua castração (Deuteronômio 23.1), embora houvesse a profecia em Isaías (56.4-5) de que viriam a ser aceitos no próprio Templo. Além disso, era um alto oficial da rainha etíope. Ele havia ido à Judeia adorar a Deus, mas pode-se dizer que não o conhecia. Possivelmente não era bem recebido, exceto no que se refere aos protocolos de corte, e não poderia entrar no lugar de adoração. Lia as Escrituras, mas não as entendia. E o mais importante, que infelizmente nem sempre acontece: ele sabia que não entendia, que o sentido do que lia lhe escapava como que deixando um vazio ou uma perplexidade ao ler.

Figura 1: Pedestal retratando Kandake Amanitore encontrado em Wad Ben Naga exposto no Museu Egípcio de Berlim. Amanitore (possivelmente reinou na primeira metade do século 1) era uma rainha núbia do antigo Reino Kushitic de Meroë, que também é referido como Núbia em muitas fontes antigas. Muitas das Candace são descritas como rainhas guerreiras que lideraram as forças na batalha. Disponível em https://en.wikipedia.org/wiki/Amanitore, acesso em 17/09/2017. “This file is licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 2.0 Generic license“.

Deus então enviou um outro servo seu até o deserto, onde encontrou esse homem que voltava para sua terra. Ao ouvir ele lia as Escrituras lhe perguntou se entendia o que lia. Esse homem poderoso, cujo nome não sabemos, reconheceu que não, e não conhecia quem pudesse esclarecer. Então Felipe explicou-lhe o sentido das palavras que estava lendo, e Deus iluminou o seu coração para entender. Se considerarmos ainda Isaías 56.4-5 mencionado acima, esse trecho está indicando a realização do momento em que as pessoas não seriam mais avaliadas por aspectos externos e rituais, mas pelo coração, não importando as diferenças de origem, etnia, condição social. Convertendo-se ao Senhor, quis imediatamente ser batizado:

Então Filipe tomou a palavra e, começando por esta escritura, anunciou-lhe a Jesus. E indo eles caminhando, chegaram a um lugar onde havia água, e disse o eunuco: Eis aqui água; que impede que eu seja batizado? [E disse Felipe: é lícito, se crês de todo o coração. E, respondendo ele, disse: Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus.] mandou parar o carro, e desceram ambos à água, tanto Filipe como o eunuco, e Filipe o batizou (Atos 8.35-38).

Estes são exemplos de pessoas que ainda não acreditavam, mas buscavam a Deus, e ouvindo a mensagem das Escrituras vieram a se entregar de todo o coração a Deus. Nem sempre é assim, e pessoas que hoje conhecemos como exemplos de fé, tiveram suas dúvidas, seus momentos de hesitação, e mesmo foram conhecendo Deus ao longo de muitas experiências. Esse é o caso de Jacó, que depois de ter uma experiência com a presença de Deus, ainda não se entregava de todo o coração a Ele, ao contrário:

Jacó levantou-se de manhã cedo, tomou a pedra que pusera debaixo da cabeça, e a pôs como coluna; e derramou-lhe azeite em cima. E chamou aquele lugar Betel; porém o nome da cidade antes era Luz. Fez também Jacó um voto, dizendo: Se Deus for comigo e me guardar neste caminho que vou seguindo, e me der pão para comer e vestes para vestir, de modo que eu volte em paz à casa de meu pai, e se o Senhor for o meu Deus, então esta pedra que tenho posto como coluna será casa de Deus; e de tudo quanto me deres, certamente te darei o dízimo (Gênesis 28.18-22).

Talvez não achemos muito bonita a atitude de Jacó. Talvez, muitas vezes, proponhamos coisas assim a Deus sem considerarmos de fato a Quem nos dirigimos. Mas Deus, por sua misericórdia, via além daquele momento, via o que Jacó poderia vir a ser. Somente muitos anos depois Jacó viria, aos poucos, a ser transformado, e deixaria de se referir a Deus como o Deus de seus pais e antepassados. Passou a dirigir-se diretamente a Ele, não mais só como Deus que havia se manifestado a seus antepassados, mas que se manifestava em sua vida. Sua postura arrogante e impetuosa aos poucos ia sendo substituída por uma humildade diante de Deus, à medida em que ia conhecendo maior intimidade com Ele:

Não sou digno da menor de todas as tuas beneficências e de toda a fidelidade que tens usado para com teu servo; porque com o meu cajado passei este Jordão, e agora volto em dois grupos ( Gênesis 32.9-10)

Certamente já era outro Jacó, mas ainda tinha muito o que aprender, como lemos em sua história. No entanto, o que por vezes é mais difícil para as pessoas, vemos em curso na sua vida: estava sendo transformado. E o que o transformava? Não era a sua personalidade que tantos problemas ia lhe trazendo, era a ação concreta, ainda que às vezes invisível, de Deus em sua vida.

Jó, ao contrário, adorava a Deus e procurava viver rigorosa e piedosamente segundo seus mandamentos. Dele nos diz o próprio Deus: “homem íntegro e reto, que temia a Deus e se desviava do mal” (Jó 1.1). Mas, em seu imenso sofrimento, ao contender com Deus, foi que veio a entender a grandeza do seu Criador. Confessa diante de Deus, a quem amava, mas ainda não conhecia de fato: “falei do que não entendia; coisas que para mim eram demasiado maravilhosas, e que eu não conhecia” e “Com os ouvidos eu ouvira falar de ti; mas agora te veem os meus olhos” (Jó 42.3,5). Antes, Jó era um homem religioso e piedoso, mas ainda não conhecia a Deus senão de ouvir falar. A intimidade com Ele mudou sua perspectiva, inclusive da sua própria justiça.

Jacó era esse homem movido pela paixão e que confiava em seus ardis para ludibriar e levar vantagens em seu enriquecimento. O que lhe trouxe muitos problemas. Mas vemos que mesmo nessa condição, Deus o abençoava, conduzindo-o para um momento em que deveria repassar sua existência e compreender a soberania do SENHOR. Ele teve um filho caçula, que mimou em em sua velhice. O menino cresceu perfeccionista, tomava conta da vida de seus irmãos mais velhos contando seus mal feitos.

Extremamente meticuloso, era também correto e fiel em suas ações. Intransigência e caráter reto misturavam-se nele. Mas se observarmos bem, os profundos sofrimentos que suportou e dificuldades imensas que teve de vencer foram causadas por injustiças, não pela intransigência, cedo quebrantada, mas por sua fidelidades a princípios éticos. Aqui temos uma pessoa muito diferente de seu pai Jacó. Também ele veio a enriquecer e se tornar um homem poderoso, mas no exílio.

Ao contrário de Jacó, José procurava fazer tudo certo, da forma mais certa. Mas como Jacó, que se dobra pedindo perdão ao irmão no momento em que começava a compreender a Deus e a mudar seu caráter, também José, só quando perdoa seus irmãos e entende seu papel para preservação da vida, é que encontra paz e reata as relações. Sua intransigência foi quebrada pela vida, seu orgulho e poder foram quebrados pelo amor. Em tudo isso, a ação de Deus nos acontecimentos, conduzindo os que deveriam aprender de sua Santidade e comungar sua Bondade.

E Paulo, talvez o mais conhecido dos apóstolos, quem era? Um homem extremamente religioso e cheio de ódio contra os cristãos, violento, que os perseguia com intensão de prender e matar, os afligia e machucava, exigindo que blasfemassem o nome de Jesus. Sua religião não o levava para Deus, mas ao ódio cego, e com isso pensava estar realizando um trabalho religioso digno de seu tempo e de seu meio. Na verdade, era um homem entregue ao ódio e alheio a qualquer conhecimento de Deus em sua religiosidade. Até o dia em que ele mesmo se deparou com Jesus. Viu ao Senhor e a Ele se converteu, e se entregou de tal modo que, abandonando as formas da religião, passou a viver pela fé e tornou-se verdadeiro apóstolo.

A maturidade não vem de um dia para o outro. Jacó, um homem que ludibriou, foi transformado por Deus. José, um homem rigoroso e altivo em suas convicções foi transformado por Deus. Jó, um homem honesto e íntegro foi transformado por Deus. Pedro, um apóstolo que andara com Jesus, foi transformado por Deus. Jacó, Paulo, Davi, Jó, Cornélio e tantos de quem a Bíblia nos contou as experiências foram transformados por deus à medida em que o iam conhecendo. O que havia em comum entre esses homens? Nada, exceto que em algum momento de suas vidas, por caminhos diferentes, conheceram a Deus e a Ele se entregaram pela fé. Mas nem isso aconteceu de modo igual para cada um deles.

Raabe, uma mulher que não era judia, e não era exatamente um dos mais recatados exemplos de virtude segundo nossos padrões, é uma outra biografia mencionada na Bíblia. A Bíblia nos conta que era uma prostituta, e que mentiu ao seu povo. A palavra para prostituição no hebraico hn”z” (z¹nâ), e na Antiguidade, poderia ter pesos diferentes do que hoje damos, sem deixar de incluí-los. No caso dos hebreus era usada também para a prostituição cultual, quando os israelitas se desviavam de Deus. Não sabemos se ela era uma prostituta cultual ou simplesmente uma prostituta, mas pela lei judaica seria uma mulher impura. Para padrões de muita gente hoje seria uma mulher considerada de moral inadequada, na melhor das hipóteses. E era mesmo. Não foi assim que Deus a viu.

Mas ao falar das mulheres, precisava começar com uma prostituta? Não poderia ter começado com Rebeca, Miriã, e tantas outras? Sim, claro, poderia sem dúvida. Mas houve uma razão especial para começar por ela. Raabe é uma das quatro mulheres que aparece na genealogia de Jesus no evangelho de Mateus! Estrangeira, portanto fora da linhagem prometida de israel, rompe, por sua ocupação, com nossos conceitos de quem pode ou não buscar a Deus, de quem Deus vai ou não usar segundo seus propósitos.

Não só ela se converte a Deus, como ainda veio depois a se tornar mãe de Boaz, que se casa com ninguém menos do que Rute, outra mulher extraordinária da história bíblica. Rute, que como Raabe também não era judia, mas ao contrário de Raabe, era uma mulher que poderíamos dizer casta. O romance dela e de Boaz tornou-se um dos livros das Escrituras Sagradas. O neto de Rute foi ninguém menos do que o pai do rei Davi.

Veja, a importância dessas mulheres não se resume à maternidade, mas ao que fizeram pela fé. Poderíamos ter pensado em Ester, outra mulher cuja vida tornou-se um dos livros do Antigo Testamento, mas houve uma razão pela qual começar por essas duas. Em determinado momento, nada há em comum entre elas, pertencem a povos inimigos de Israel, e aparentemente, não havia nada que as unisse nem entre si, nem com a proposta das Escrituras.

Ambas, Raabe, a cananeia e Rute, a moabita, em um tempo em que em todos os povos pesadas restrições pesavam sobre mulheres e estrangeiros, tornaram-se referência fundamental para o Antigo e o Novo Testamento e assim para todos os crentes. São mencionadas na genealogia de Jesus no capítulo 1 do evangelho de Mateus, são em suas diferenças e fraquezas, pela fé, incluídas no âmbito do sagrado. O que é ainda mais significativo, porque esse evangelho seleciona apenas alguns dos nomes da linhagem que vai de Jesus a Davi e deste a Abraão.

Elas nos servem de lição. Como se vê, não foi o que elas fizeram antes, mas o que fizeram ao crer no Senhor que lhes traz não só a redenção, mas o fazer parte de um dos momentos mais significativos da literatura sagrada israelita e cristã. Entretanto, se você quiser um outro exemplo, todos conhecem essa história:

E, entrando o anjo onde ela estava disse: Salve, agraciada; o Senhor é contigo. Ela, porém, ao ouvir estas palavras, turbou-se muito e pôs-se a pensar que saudação seria essa. Disse-lhe então o anjo: Não temas, Maria; pois achaste graça diante de Deus (Lucas 1.28-30).

Estas são três das cinco mulheres relacionadas no primeiro capítulo do evangelho de Mateus, que abre o Novo Testamento. O que havia em comum entre elas? Creram em Deus.

Poderíamos continuar com muitos e muitos exemplos, de mulheres e homens, jovens e velhos, mas veríamos que suas histórias são todas diferentes, uma pessoa não era igual à outra, não faziam as mesmas coisas, não tinham vivido da mesma forma, não vinham desta ou daquela família ou profissão, não tinham as mesmas convicções políticas e morais, não se restringiam a esta ou daquela condição social, a este ou aquele círculo religioso, étnico ou de relações pessoais. Nem se fez caso se eram pessoas castas e trabalhadoras, violentas, pacíficas nas aflições, fiéis nos negócios, infiéis no casamento, e assim por diante. Tampouco se esconderam seus erros, seus anseios, medos, hesitações, acertos, coragem. Apenas creram no Senhor, esta é a diferença que lhes transforma a vida.

A sinceridade na relação com Deus é um privilégio dos que o buscam. O profeta Habacuque, fiel a Deus, vendo as injustiças e sofrimentos do seu povo chega a demandar diretamente com Deus:

Até quando Senhor, clamarei eu, e tu não escutarás? ou gritarei a ti: Violência! e não salvarás? Por que razão me fazes ver a iniquidade, e a opressão? Pois a destruição e a violência estão diante de mim; há também contendas, e o litígio é suscitado. Por esta causa a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta; porque o ímpio cerca o justo, de sorte que a justiça é pervertida (Habacuque 1.2-4).

Habacuque, em seu questionamento e busca de Deus, em sua comunhão com Ele, termina seu livro com uma das mais belas orações da Bíblia. Os exemplos são muitos, e as Escrituras, ao contar daqueles que buscaram a Deus, nunca os transformou em super-heróis perfeitos. Isso é coisa de cinema ou de romance. Na vida real, somos como somos, com o que temos de melhor e de pior, e assim devemos nos achegar a Deus, para podermos ao longo de nossa vida e aprendizado irmos sendo transformados pelo conhecimento e o convívio com o Senhor. Porque, queiramos ou não, a vida é sempre aprendizado, restando escolher se queremos aprender para o bem ou para a indiferença. Não há pré-requisito para se buscar a Deus, senão desejar de todo o coração e com toda a sinceridade conhecê-lo.

Deus não olha a partir dos rótulos e paredes humanas, dos fossos que construímos uns para os outros. Ele não é refém dos nossos preconceitos, ao contrário, nos convida ao evangelho de Jesus. Também não se trata de filosofia, de bons costumes, de boas intenções, e sim de um coração transformado na comunhão com Ele. Que Lhe poderíamos agregar que Ele mesmo já não tenha criado com perfeição? A partir daí, no convívio com Deus e sua Palavra, a comunhão em seu Espírito Santo irá nos transformar, como fez a essas pessoas comuns ao longo de suas vidas. Importante perceber isso, diante da impaciência congênita que nos espreme ao sucesso imediato nos dias atuais, foi ao longo de suas vidas; a maturidade vem com o aprendizado difícil e com a transformação operada por Deus naqueles que Ele acolheu. Mesmo assim, cada um terá uma história, e essa é uma conversa que não termina por aqui.

 

 

 

 


* Nota: a tradução habitualmente utilizada neste sítio é a de João Ferreira de Almeida, Revista e Atualizada (ARA) ou Atualizada (JFA). Quando utilizar outra tradução neste sítio isso será indicado através da abreviatura: KJA (King James Atualizada), BJ (Bíblia de Jerusalém).