O CAMINHO DE CAIM
Euler Sandeville Jr.
Setembro de 2017

 

O capítulo 4 do livro de Gênesis começa logo após a expulsão do jardim, dizendo que Eva deu à luz a Caim, e depois a Abel. Já encontraremos aí uma primeira lição. Todos sabem que não seria Caim a agradar a Deus, mas Abel. A primogenitura é uma instituição fundamental na Antiguidade, e em diversas culturas, inclusive na Bíblia. Mas aqui já temos uma primeira inversão, que acontece em outros momentos, como em relação a Jacó, aos filhos de José, Davi. Diante de Deus não é o direito nem a força natural o que determina o caminho do homem, mas o modo como cada pessoa caminha. É o que lemos nesses 4 capítulos até o capítulo 7. Desde Caim até Lameque e de Abel e Sete até Noé, a humanidade multiplica a violência e a injustiça.

Daí porque lemos em Gênesis 4.4,5 que “Abel, por sua vez, trouxe das primícias do seu rebanho e da gordura deste. Agradou-se o SENHOR de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou. (…)”. Não é da oferta que Deus se agrada, mas de Abel e sua oferta. O que é olhado por Deus é o ofertante, sua oferta é antes de mais nada, qualificada pelo coração que oferta. O que os diferencia é bem profundo. É o modo como no coração essas pessoas se colocaram ou não no caminho de Deus.

Judas chama este o caminho de Caim1, que recusa a Deus, como já havia acontecido com Adão, e agora prossegue com a maioria de seus descendentes, pelo qual erram até Lameque e depois dele até o dilúvio. Imagino como Adão e Eva deveriam se sentir vendo as consequências de seu pecado e seus descendentes cada vez mais distantes de um caminho que tivesse alguma esperança.

Devemos imaginar o que estariam sentindo Adão e Eva, vendo um de seus filhos ser morto por seu irmão, e seus descendentes escolherem caminhos cada vez mais para longe de Deus. Como disse Caim a Deus, depois do assassinato: “Minha culpa é muito pesada para suportá-la. (…) terei de ocultar-me longe da tua face e serei um errante fugitivo sobre a terra…”. Certamente devem ter se lembrado deles mesmos, de quando enganados pela cobiça, após comer o fruto do conhecimento do bem e do mal, ouvindo a voz de Deus afastaram-se de sua presença, escondendo-se no meio das coisas criadas por Deus, tentando acobertar sua culpa.

(…) o homem e sua mulher se esconderam da presença de Iahweh Deus entre as árvores do jardim” (Gênesis 3.8, BJ).

E, de qualquer modo, o desvio de Caim e a a morte de Abel poderiam ter interrompido essa linhagem e da mesma forma o dilúvio. Mas como já desde esse momento de juízo no Éden, nos momentos de crise coexiste a possibilidade de esperança. Como em Adão, nesse momento também em Caim não há sinal de arrependimento, apenas culpa. Bem sabiam que haveria juízo de Deus sobre os feitos humanos, como vemos em Adão e em Caim. No caso de Caim, ele ainda é advertido por Deus a tempo de corrigir seu caminho e recusa a conversa com Deus:

Iahweh disse a Caim: “Por que estás irritado e teu rosto está abatido? Se estivesses bem disposto não levantarias a cabeça? Mas se não estás bem disposto, não jaz o pecado à porta, como animal acuado que te espreita; podes acaso dominá-lo?Entretanto, Caim disse a seu irmão Abel: “Saiamos” (Gênesis 4.7-8, BJ). ou:

Então, lhe disse o SENHOR: Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo. (ARA).

Depois de haver matado seu irmão espera ser vingado pelo homem, como o próprio Caim diz: “o primeiro que me encontrar me matará”. Caim não discerne Deus diante de quem está a falar, nem pode compreendê-lo, vendo apenas o que está próximo e preferindo a expiação da culpa pelas mãos de outro homem. Mas a culpa não pode ser expiada assim. Como Adão, Caim tem de conviver com seu erro, mas ao invés de se arrepender, vai viver em uma terra ao leste do Éden, e este trecho termina assim: “Retirou-se Caim da presença do SENHOR e habitou na terra de Node, ao oriente do Éden” (Gênesis 4.16).

A raça humana certamente pareceria aos olhos de Adão e Eva inexoravelmente perdida, mas nesse momento de máximo desalento e tristeza Deus concede um novo filho de Adão e Eva, Sete. Eva percebe a promessa de restauração: “Deus me concedeu outra descendência no lugar de Abel” (Gênesis 3.25). Aqui se procura reatar as coisas que estavam cindidas e Sete será educado (suponho eu) no caminho de Abel, buscando um coração temente a Deus. Não só isso, a promessa de um descendente feita a Eva tem assim continuidade. De fato, seu filho Enos depois foi o primeiro a invocar o nome sagrado de Deus, indicando no meio daquela geração que alguns ainda o amavam.

Perceba, podemos ver o mal, mas qual é sua causa? O que o mal nega, em última análise? O que está proposto na confiança de Abel de ir com seu irmão, sabendo de seu rancor e ira? Em todos esses capítulos sobre os quais meditamos aqui já vemos o princípio áureo que atravessa toda a Bíblia: Amarás o Senhor teu Deus acima de todas as coisas, e a teu próximo como a ti mesmo (Dt 6.4,5, Mt 22.37-40, Lc 10.27); e as consequências de sua negação: o caminho da mágoa, da cobiça, da ira e da culpa. Fica claro para onde leva o caminho de Caim. Mas ele não termina aí, nem nele mesmo. O relato de Caim e seus descendentes, ainda que indicando uma série de habilidades criativas que desenvolvem, é um trecho sombrio em seus termos. Começa com o desvio de coração e propósito de Caim, que mata seu irmão, e termina com a história de Lameque, que mata um homem e uma criança ou um jovem, aparentemente pelo que o texto parece sugerir, por um ato voluntarioso e gratuito. Basta comparar a história de Caim e de Lameque. Caim é repreendido e conversa com Deus, embora não se arrependa. Caim busca sua punição por si mesmo, mas Deus é quem lhe dá o juízo.

Lameque evidentemente conhecia a história de Caim, porque a cita inclusive. Mas já não ouve nem se dirige a Deus. Seu universo se encerra nele mesmo e nos que estão próximos a ele. Mesmo lembrando da lição de Caim, após matar um homem e uma criança nem ouve a Deus, nem procura falar com Ele, e se satisfaz ao criar de seu próprio coração uma lei a partir do que Caim havia recebido: “É que Caim é vingado sete vezes, mas Lamec setenta e sete vezes” (BJ). A proteção sobre Caim havia ainda sido concedida por Deus. Lameque a toma para si e se coloca na autoridade de ampliá-la.

Jesus depois retomou essa frase, invertendo o seu sentido: ao invés de pensar em si, como fez Lameque, leva-nos a pensar no próximo. Ao invés da vingança, o perdão. Jesus nos coloca diante da regra áurea: Amarás ao teu Deus e ao próximo. Mas Lameque, como Caim, já não via mais o próximo, e também já não via mais a Deus. A lamentação de Caim ainda é feita, embora se afaste para longe, em um diálogo com Deus. Em Lameque não encontramos qualquer procura de Deus, ele mesmo faz, ele mesmo resolve. Já não pensa em Deus, já não ouve Deus, e Deus não é mencionado em sua história.

 


TRADUÇÕES DAS ESCRITURAS UTILIZADAS

BÍBLIA DE JERUSALÉM. 1a. Edição, 11a. Reimpressão. São Paulo: Paulus, 2016.

BÍBLIA. Edição Almeida Revisada E Corrigida. Sociedade Bíblica Do Brasil, on line, São Paulo, s/d. Disponível em http://www.sbb.org.br/conteudo-interativo/pesquisa-da-biblia/ acesso entre 09 de setembro e 02 de outubro de 2017.


NOTAS

1 “Estes, porém, quanto a tudo o que não entendem, difamam; e, quanto a tudo o que compreendem por instinto natural, como brutos sem razão, até nessas coisas se corrompem. Ai deles! Porque prosseguiram pelo caminho de Caim, e, movidos de ganância, se precipitaram no erro de Balaão, e pereceram na revolta de Corá” (Judas 10,11).