SOBRE O SOFRIMENTO. MEDITAÇÃO NO LIVRO DE JÓ
Euler Sandeville Jr.
São Paulo, 06 de maio de 2016.

1. introdução

Não sabemos ao certo quando e em que contexto foi escrito o livro de Jó, nem há qualquer indício de quem o tenha escrito. Embora muitas hipóteses sejam levantadas, frequentemente de modo não mais do que arbitrário. De qualquer modo, são muito atuais as questões ali tratadas. Teria sido o sofrimento que mudou Jó? Obviamente o sofrimento nos transforma, mas a pergunta é se há alguma redenção no sofrimento. Muitas pessoas acabam reduzindo o livro a um tipo de subserviência ao sofrimento, de passividade diante das ansiedades, como se o sofrimento em si nos purificasse para Deus. Não é isso, de modo nenhum, o que está nesse livro, nem é essa a sua mensagem. Aliás, em lugar algum na Bíblia, há uma exaltação do sofrimento pelo sofrimento. Talvez o livro de Jó nos ajude então a entender melhor isso, já que obviamente o tema do sofrimento atravessa o livro todo. Do ponto de vista espiritual, o sofrimento em si mesmo pouco significa, podendo tanto aproximar quanto afastar alguém de Deus:

Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, o qual não traz pesar; mas a tristeza do mundo opera a morte (2 Coríntios 7.10).

Aliás, não há nada de passivo em Jó, nem de qualquer contentamento com o sofrimento. O que não quer dizer que o sofrimento não possa ter seu valor, porque pode ter. Mas o que de fato faz diferença no livro não é o sofrimento, é o conhecimento de Deus. O livro é de uma beleza extraordinária, mas o trato do sofrimento muitas vezes afasta as pessoas do entendimento maior e mesmo de usufruir a beleza poética como nos é apresentado. Como se o sofrimento drenasse a atenção, como diz Jó de sua profunda dor:

Reclamem-no para si as trevas e a sombra da morte; habitem sobre ele nuvens; espante-o tudo o que escurece o dia (Jó 3.5).

O Livro tem uma grande ressonância em livros do Novo Testamento. Isso é particularmente presente em Tiago. Muitas vezes o lemos em relação às cartas de Paulo aos Gálatas e aos Romanos, e sem dúvida há essa relação. Mas a carta de Tiago me parece demonstrar, talvez de modo ainda mais profundo, uma atenta leitura e meditação espiritual no livro de Jó. Aliás, Tiago faz uma citação explícita, que fala da consolação que podemos obter em Deus quando, segundo sua vontade, suportamos as situações adversas:

Irmãos, tomai como exemplo de sofrimento e paciência os profetas que falaram em nome do Senhor. Eis que chamamos bem-aventurados os que suportaram aflições. Ouvistes da paciência de Jó, e vistes o fim que o Senhor lhe deu, porque o Senhor é cheio de misericórdia e compaixão (Tiago 5.10,11).

O livro de Jó trata obviamente do sofrimento, mas também de outras questões de implicações extremamente práticas para nós. Não só no tema do sofrimento, mas da humildade diante de Deus, do cuidado com a fala e outros temas, que podemos aprender lendo o livro de Jó. Um tema importante é que não há, necessariamente, relação entre o pecado e o sofrimento, e que muitas podem ser suas causas:

E passando Jesus, viu um homem cego de nascença. Perguntaram-lhe os seus discípulos: Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Respondeu Jesus: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi para que nele se manifestem as obras de Deus (João 9.1-3).

São muitos os temas: a amizade, a fala e a escuta, mas talvez a coisa mais bela é que Jó, em seu sofrimento, não contende com Deus sua causa. Mais do que isso, como observa o comentário ao Livro na Bíblia de Jerusalém, “Luta desesperadamente para reencontrar a Deus que se esquiva e em cuja bondade ele continua crendo”. Aliás, o resumo do enredo que consta nessa Bíblia é particularmente bonito, embora depois sigam comentários que discutem a crítica literária, de todo desnecessários para a compreensão do livro, quando exacerbam suas hipóteses. Fiquemos com esse resumo do enredo:

A obra-prima da literatura do movimento sapiencial é o livro de Jó. Começa com uma narração em prosa. Era uma vez um grande servo de Deus, chamado Jó, que vivia rico e feliz. Deus permitiu a Satã prová-lo para ver se ele continuaria fiel no infortúnio. Ferido primeiro nos seus bens e nos seus filhos, Jó aceita que Deus retome o que lhe havia dado. Atormentado em carne por doença repugnante e dolorosa, Jó se mantém conformado e censura sua mulher que o aconselha a amaldiçoar a Deus. Então, três amigos seus, Elifaz, Baldad e Sofar, chegam para compadecer-se dele. Após esse prólogo, abre-se grande diálogo poético, que forma o corpo do livro. Primeiramente, é conversa entre quatro pessoas: em três ciclos de discursos Jó e seus amigos contrapõem suas concepções da justiça divina; as ideias progridem de modo bastante livre, principalmente intensificando-se a luz sobre os princípios postos no início. Elifaz fala com a moderação da idade e também com a severidade que longa experiência dos homens pode dar; Sofar se deixa levar pelos arroubos da juventude; Baldad é homem sentencioso que se mantém no meio-termo. Mas os três defendem a tese tradicional das retribuições terrestre: se Jó sofre é porque pecou; pode parecer justo aos seus próprios olhos, mas não o é aos olhos de Deus. Diante dos protestos da inocência de Jó, só sabem radicalizar sua posição. A essas considerações teóricas Jó contrapõe sua experiência dolorosa e as injustiças de que o mundo está cheio. Retorna ao tema sem cessar, e sempre esbarra no mistério de um Deus justo que aflige o justo. Não caminha, fica vagando na escuridão. Em sua aflição moral, profere gritos de revolta e palavras de submissão, e tem momentos de crise e de alívio em seu sofrimento físico. Este movimento alternado atinge dois ápices: o ato de fé do cap. 19 e o protesto final de inocência do c. 31. É então que intervém nova personagem, Eliú, qua contesta Jó e seus amigos e, com eloquência prolixa, procura justificar a maneira de gir de Deus. É interrompido pelo próprio Iahweh (…) (Bíblia de Jerusalém, p. 800)

2. o céu e a terra

Logo no início, o livro, que está ele todo pleno de referências à criação de Deus, mostra que ela é atravessada por uma realidade maior. Os versos de 1 a 5 do primeiro capítulo começam com “Havia na terra de Hus…” (que a BJ supõe ser ao sul de Edom com base em Gênesis 36.28 e Lamentações 4.21) e descrevem como era a vida de Jó. A expressão “havia na terra” define o conteúdo desse prólogo, o lugar, o que se fazia, como vivia. Isso fica mais claro quando se observa o segundo parágrafo do prólogo (versos 6-13), que diz, nos abrindo para uma outra realidade:

Ora, chegado o dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles. O Senhor perguntou a Satanás: Donde vens? E Satanás respondeu ao Senhor, dizendo: De rodear a terra, e de passear por ela (Jó 1.6-7).

Para um livro que dá tamanha atenção à natureza e ao coração e pensamento humano, seu início é bastante significativo. Havia na terra um homem chamado Jó, com sua forma de vida, seus bens e práticas, sua família e amigos, e há no céu uma realidade eterna. Na parte seguinte do prólogo, um terceiro parágrafo, vemos começar o drama, ainda em prosa, do verso 3 do capítulo 1 até o final do capítulo 2: uma interferência existe entre a realidade celestial e a realidade da terra, que Jó e seus amigos não podem compreender, porque não a podem ver. Ou, como diz o apóstolo Paulo:

Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido (1 Coríntios 13.12).

Não seria possível aqui um estudo do livro de Jó, muito menos apresentar mesmo que parcialmente todos os temas e tesouros aí contidos. Posso apenas ensaiar algumas considerações que nem mesmo esgotam o tema do sofrimento, e as várias questões levantadas a partir daí sobre a justiça de Deus e dos homens. Trato aqui apenas de um aspecto, se o sofrimento é o que produz a elevação a Deus na Bíblia, e em especial nesse livro tão belo e difícil de entender. Difícil não porque não seja claro, sua leitura é extraordinariamente simples e direta, embora sofisticada. Mas porque o entendimento ao ser confrontado com o sofrimento, por vezes tende a ser capturado pelo receio compreensível que temos de sofrer, e focamos então neste único ponto.

Receio de sofrer que é sim legítimo; por que alguém gostaria de sofrer? No entanto, embora difícil, o sofrimento pode trazer um aprendizado sobre nós mesmos e o que vai em nosso coração. Como diz o autor da carta aos Hebreus, em um trecho em que trata do sofrimento e da disciplina:

Na verdade, nenhuma correção parece no momento ser motivo de gozo, porém de tristeza; mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos que por ele têm sido exercitados (Hebreus 12.11).

A palavra correção, que em algumas outras traduções aparece como disciplina, talvez não dê a plena ideia deste trecho. Mas no grego, a palavra utilizada é nada menos do que παιδεία (paideia), que além desses significados tem também o sentido de instrução. Não qualquer instrução, como em uma aula de química ou de literatura, mas no sentido de educação completa e continuada da pessoa. A correção que vem de Deus, o ensino prático que dela decorre, produz momentaneamente o confronto com nossa contrariedade, mas produz um homem pleno. Talvez uma das partes mais difíceis do sofrimento seja a ansiedade, por vezes maior até do que o sofrimento, ou em muitos casos a própria raiz do sofrimento.

Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai- vos. Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens. Perto está o Senhor. Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes em tudo sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus pela oração e súplica com ações de graça; e a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus (Filipenses 4.4-7).

A Bíblia não nos propõe o sofrimento, ele é uma decorrência das condições do mundo, e pode ser usado por Deus para nosso crescimento. A Bíblia não propõe nenhum triunfalismo, nem da ausência de sofrimento nem de nos esgotarmos nele. Ao contrário, propõe que saibamos lidar com as diversas situações da vida, e que o caráter seja portanto, não só provado, tanto nas adversidades quanto nas alegrias, como que elas contribuam para aprimorá-lo. A finalidade não é o sofrimento, é a alegria. Mas sofrer é uma condição de estarmos no mundo, na vida teremos de nos haver com essa condição, no entanto, não é isso o que define a vida. Do contrário, por que Deus iria atentar e revelar-se para Jó e seus amigos? A comunhão com Deus produz alegria. As coisas que Ele criou também, trazem satisfação. A própria natureza criada por Deus é fonte de alegria e satisfação, tanto quanto é de ensino e aprendizagem.

3. entre amigos

Aliás, no livro de Jó a natureza entrelaça-se com toda a compreensão de mundo de Jó e de seus amigos. Ao final do livro, depois de várias citações à natureza feitas por esses homens nos seus diálogos, Deus mesmo usa a natureza para abrir os olhos de Jó.

Mas nem sempre a compreensão da natureza leva ao adequado conhecimento de Deus, embora possa levar a algum conhecimento e decorra de conhecimentos prévios. De onde podemos concluir que o conhecimento da natureza, e da revelação de Deus através da natureza, depende antes de mais nada de uma busca por Deus. Os discursos no livro de Jó, tanto dele, quanto os de seus amigos, veem plenos de citações à natureza. As mais profundas emoções encontram um paralelo aí, a natureza hora infunde terror e perplexidade ao colocar-se o homem diante do significado de seu destino, ou da imensidão da própria natureza, hora lhe serve de medida, hora de consolo. Exemplifico um pouco.

O primeiro discurso de Jó vem em meio a um sofrimento sem limites. Havia perdido seus bens e sua família, e seu corpo estava corrompido por doenças que humilhavam e afastavam os demais. Você pode pensar que isso é só literatura, mas já vi pessoas diante de situações que lembram essa. Vejamos como era descrito Jó nesse momento, em que a alegria passada e toda sua importância haviam abandonado seu coração, como observa Tiago em sua carta: “Pois o sol se levanta em seu ardor e faz secar a erva; a sua flor cai e a beleza do seu aspecto perece; assim murchará também o rico em seus caminhos” (Tiago 1.12).

Ouvindo, pois, três amigos de Jó todo esse mal que lhe havia sucedido, vieram, cada um do seu lugar: Elifaz o temanita, Bildade o suíta e Zofar o naamatita; pois tinham combinado para virem condoer- se dele e consolá-lo. E, levantando de longe os olhos e não o reconhecendo, choraram em alta voz; e, rasgando cada um o seu manto, lançaram pó para o ar sobre as suas cabeças. E ficaram sentados com ele na terra sete dias e sete noites; e nenhum deles lhe dizia palavra alguma, pois viam que a dor era muito grande (Jó 2.11-13).

É Jó quem toma a iniciativa de romper o silêncio. Em seu primeiro discurso, em que deságua o sofrimento em que está imerso, descreve seus sentimentos, em que a natureza povoa-lhe a compreensão assombrosa da aflição em que se encontra e que ele questiona incisivamente a Deus sobre as razões de estar passando por isso:

Reclamem-no [o dia de seu nascimento] para si as trevas e a sombra da morte;

habitem sobre ele nuvens; espante-o tudo o que escurece o dia.

Quanto àquela noite, dela se apodere a escuridão;

e não se regozije ela entre os dias do ano;

e não entre no número dos meses.

Ah! que estéril seja aquela noite,

e nela não entre voz de regozijo.

Amaldiçoem-na aqueles que amaldiçoam os dias,

que são peritos em suscitar o leviatã.

As estrelas da alva se lhe escureçam;

espere ela em vão a luz,

e não veja as pálpebras da manhã;

porquanto não fechou as portas do ventre de minha mãe,

nem escondeu dos meus olhos a aflição (Jó 3.5-10).

Também os demais discursos de Jó em resposta a seus amigos estão plenos de referências à natureza, bem como o de seus amigos. Esses amigos vieram a ser duros no debate com Jó, acusando-o de não submeter-se à vontade de Deus no sofrimento, que eles nem de longe imaginavam. Mas o que viam lhes compungia a alma e atordoava a compreensão, seus discursos de certa forma indicam também a necessidade de organizarem o próprio mundo e o que sabiam.

Não subestimemos esses amigos, que ficaram quietos por sete dias ao lado de Jó, até que este rompeu o silêncio desabafando sua aflição. Mas, os argumentos de Jó lhes pareceram insensatos, e atentando mais para os argumentos do que para o sentido existencial colocado, trouxeram o que sabiam à baila. Sem dúvida, os argumentos que surgem mostram o quanto por vezes os debates em que entramos não estão compreendendo as verdadeiras razões que nos movem a eles. Por baixo das divergências doutrinárias e de opiniões, por vezes reside um mundo sob o risco de ser colocado em desordem, que luta para reencontrar sua coerência.

De fato, os amigos de Jó acabam atribuindo o seu sofrimento a pecados que poderia ter cometido, aumentando ainda mais sua aflição. Não compreendem a ousadia de Jó de colocar seu pleito diante de Deus. Mas também não compreendem seu sofrimento, e muito menos suas causas. No entanto, eram amigos, uma vez que moveram-se até Jó. Considere que naquele tempo uma doença como essa era sinal de maldição e de contágio, levando ao afastamento do doente.

Hoje ainda seria assim, como aliás permaneceu em nossa sociedade com os hospícios e com os leprosários. Ou mais, quando não tocamos ou não nos aproximamos de alguém conhecido, devido a alguma condição que sofre ou moléstia que tememos contemplar. O sofrimento dos outros por vezes expõe nosso próprio medo de sofrer e nossa dificuldade de abandonar a comodidade de nossa segurança. Mas os amigos de Jó, que serão ao fim repreendidos por Deus, moveram-se e sentaram-se longamente ao seu lado. Pessoas costumam ter defeitos e qualidades, e por vezes sua incompreensão machuca os outros. A situação não era simples e voltarei ainda a isso.

4. o conhecimento humano

Vejamos apenas um trecho desses discursos, no caso de Elifaz, que foi o primeiro amigo a se manifestar após ouvir a agonia de Jó. Vejamos também a contínua referência à natureza para construir sua argumentação e para situar seu entendimento no mundo:

Mas agora que se trata de ti, te enfadas; e, tocando-te a ti, te

Porventura não está a tua confiança no teu temor de Deus, e a tua esperança na integridade dos teus caminhos?

Lembra-te agora disto: qual o inocente que jamais pereceu? E onde foram os retos destruídos?

Conforme tenho visto, os que lavram iniquidade e semeiam o mal segam o mesmo.

Pelo sopro de Deus perecem, e pela rajada da sua ira são consumidos.

Cessa o rugido do leão, e a voz do leão feroz; os dentes dos leõezinhos se quebram.

Perece o leão velho por falta de presa, e os filhotes da leoa andam dispersos.

Ora, uma palavra se me disse em segredo, e os meus ouvidos perceberam um sussurro dela.

Entre pensamentos nascidos de visões noturnas, quando cai sobre os homens o sono profundo, sobrevieram-me o espanto e o tremor, que fizeram estremecer todos os meus ossos (Jó 4.5-14).

Elifaz erra, sabemos. Mas por que erra? Porque o ensino que reproduz, a sabedoria que expressa, não reconhece o momento em que se encontra. De certa forma, reproduz o ensinamento de sabedoria antigo, que muitas vezes era a base de argumentação para uma vida piedosa. Mas aqui, adquire autonomia, existe por si, não reconhece nem aprende com o momento diante do qual está, porque ignora a realidade celestial, os propósitos de Deus, as relações entre as coisas visíveis e invisíveis, e o caminho dos homens diante de Deus. De fato, não há como saber essas coisas, senão no temor diante de Deus, e na escuta de sua voz.

O ensinamento quando adquire autonomia, desvinculado de uma prática, de um entendimento do real, torna-se perigosamente literatura legalista. A vida piedosa deixa de ser seu fim, e passa a ser sua justiça própria. Pela repetição seguida, converge em um entendimento parcial da natureza, de Deus, do destino humano, substituindo o amor e a misericórdia pela dureza da justiça própria e da lei humana. É o caso do ensino dos fariseus, como ocorreria centenas de anos depois de Jó, que emergiram em algum momento do desejo de fidelidade e de pureza na vida, mas afastando-se do entendimento de Deus, fecharam-se na repetição de si e da exterioridade da lei:

Então chegaram a Jesus uns fariseus e escribas vindos de Jerusalém, e lhe perguntaram: Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? pois não lavam as mãos, quando comem. Ele, porém, respondendo, disse-lhes: E vós, por que transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição? Pois Deus ordenou: Honra a teu pai e a tua mãe; e, Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe, certamente morrerá. Mas vós dizeis: Qualquer que disser a seu pai ou a sua mãe: O que poderias aproveitar de mim é oferta ao Senhor; esse de modo algum terá de honrar a seu pai. E assim por causa da vossa tradição invalidastes a palavra de Deus. Hipócritas! bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo:

Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim. Mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homem.

E, clamando a si a multidão, disse-lhes: Ouvi, e entendei: Não é o que entra pela boca que contamina o homem; mas o que sai da boca, isso é o que o contamina (Mateus 15.1-10)

Esses amigos bem merecem a designação de “amigos de Jó”. Pois lhe aumentavam a aflição, ao não entender a causa do sofrimento, e ao colocarem-se de modo insensível e legalista diante do sofrimento dele. Mas devemos nós também, que contemplamos de fora esses diálogos, temer nossa própria dureza de coração, e o quão rapidamente podemos julgar os amigos de Jó, sabendo o que sabemos como leitores, vendo a obra desde seu fim, e não mergulhados em seu processo. Pois sendo leitores, não estando lá, contemplamos o todo, quando estamos imersos, vemos partes e aparências. Será que esses diálogos não fazem exatamente isso, expor a dureza de nossos corações, quando os lemos sabendo que os amigos de Jó não serão bem sucedidos, e com eles, ainda menos do que com Jó, não queremos ser identificados? Esta talvez seja a pergunta mais importante deste estudo, releia este parágrafo.

Eles diziam coisas que não podemos considerar erradas em uma escuta literal. Quem discordaria da pergunta de Elifaz, que estrutura a essência de seu primeiro discurso: “Pode o homem ser justo diante de Deus? Um mortal ser puro diante do seu Criador?” (Jó 4.17, BJ). Deus mesmo colocará isso diante de Jó. O problema aqui é que essa compreensão na relação com Deus, distanciada Dele, tornava-se inquisição e não compreensão, julgamento e não misericórdia.

Elifaz baseava-se ainda em uma visão limitada de Deus, que mesclava uma percepção real de nossa fragilidade, mas não compreendia de fato quem é Deus. Ele diz:

Eis que Deus não confia nos seus servos, e até a seus anjos atribui loucura; quanto mais aos que habitam em casas de lodo, cujo fundamento está no pó, e que são esmagados pela traça! Entre a manhã e a tarde são destruídos; perecem para sempre sem que disso se faça caso (Jó 4.18-20).

Esta frase nega, ainda que sutilmente, todas as promessas de Deus a seus servos, ou seja, vê um Deus que não se importa, embora seja todo-poderoso.

5. conhecer a Deus

Sim, é necessário o temor de Deus, mas nossa impureza diante de Sua pureza não é a única realidade a se considerar. Para dar um único exemplo, quando Moisés pede a YHWH que lhe mostre sua glória, e Deus de fato o faz, assim Ele responde a Moisés: “Farei passar toda a minha bondade diante de ti e te proclamarei o nome de YHWH” (Êxodo 33.19). Mas Deus a quem Elifaz se referia não era apenas justo, era quase cruel e indiferente, ao passo que o Deus terrível diante de quem Moisés está é bondade. E mais, é disposto a dar-se a conhecer (proclamarei o meu nome a você). Deus deseja revelar-se ao que o busca. E de fato irá se revelar a Jó.

Isso, para falar de apenas um dos ensinamentos que Deus pode iluminar em nossa alma, ao contemplarmos sua natureza, e sua Palavra no Livro de Jó. A riqueza é imensa. Mas aqui vemos que, observando a realidade, as evidências, não podemos chegar a Deus senão por Sua revelação e Sua graça. É necessário ultrapassar as visões parciais de nossos discursos e conhecimentos, para recebermos de Sua presença o ensino verdadeiro, o verdeiro conhecimento de Deus. Como Jesus disse:

Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e é necessário que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade. Replicou-lhe a mulher: Eu sei que vem o Messias (que se chama o Cristo); quando ele vier há de nos anunciar todas as coisas. Disse-lhe Jesus: Eu o sou, eu que falo contigo (João 4.23-26).

Deus está perto, como Jesus em frente da mulher samaritana. Mas sem entendimento, por vezes olhando para Sua Palavra, vemos nosso próprio espelho, mais do que a imensidão maravilhosa e verdadeira de Deus. Usamos nosso próprio juízo, ao invés da vontade de Deus. Lembremos do profeta Jonas, que a anunciar a mensagem de arrependimento a uma cidade violenta, preferiu fugir da presença de Deus. Bem disse Davi, quando pecou e Deus lhe concedeu que escolhesse como seria repreendido. Talvez ele tenha se lembrado dos juízos de Deus sobre o Egito, e que a resistência de Faraó só levou à destruição. Davi sabia que um único dia do juízo de Deus poderia devastar mais do que anos de guerra. Conhecendo a própria natureza e a natureza humana, mesmo sabendo da severidade do juízo e que não se pode lutar contra Deus, preferiu ser repreendido por Deus. E por que então? Porque Davi conhecia a Deus, e aos homens.

“E Gade veio a Davi, e lhe disse: Assim diz o Senhor: Escolhe o que quiseres: ou três anos de fome; ou seres por três meses consumido diante de teus adversários, enquanto a espada de teus inimigos te alcance; ou que por três dias a espada do Senhor, isto é, a peste na terra, e o anjo do Senhor façam destruição por todos os termos de Israel. Vê, pois, agora que resposta hei de levar a quem me enviou. Então disse Davi a Gade: Estou em grande angústia; caia eu, pois, nas mãos do Senhor, porque mui grandes são as suas misericórdias; mas que eu não caia nas mãos dos homens” (1 Crônicas 21.11-13)

6. diante de Deus

O livro de Jó é conhecido pelo extremo sofrimento e provação pela qual ele passou. Muitas vezes não se atenta devidamente para a verdadeira redenção que vem de Deus no final do livro, porque se presta mais atenção ao seu sofrimento e ao fato de que Deus o permitiu. Por isso, se atenta para a restauração de sua sorte e a possibilidade de uma nova felicidade. O fato verdadeiramente impressionante, excepcional, às vezes não recebe a distinção que tem. A restauração da felicidade após o sofrimento é algo grandioso, mas algo ainda mais extraordinário do que isso aconteceu, como veremos adiante.

O sofrimento nunca nos parece agradável e pode produzir tristeza, ou ansiedade, ou receio. Mas, se levado com paciência diante do Senhor, produz em nós uma maior comunhão e conhecimento de Deus. Só que não é o sofrimento em si que o faz, nem nossa força de vontade, é a ação de Deus. No livro de Jó toda a diferença está em uma pequena frase no verso 1 do capítulo 38: “Depois disso o YWHW respondeu a Jó…”.

Deus começou revelando-se a Jó, e o convida ao entendimento pela observação da natureza em sua beleza poética, através da maravilha da criação. Em meio ao sofrimento, Jó não apenas contemplou a criação, sentindo algum consolo com isso. Deus lhe mostrou suas obras, sua presença em tudo o que fez, sua infinita grandeza e poder. Jó contemplou a criação ouvindo a voz de Deus, guiado pelo próprio Deus. Palavras que ouvira antes nas querelas com seus amigos, e não faziam sentido nem para eles próprios, quando iluminadas por Deus tornam-se vivas e verdadeiras. O próprio Deus vai explicar diretamente a Jó as coisas:

Contempla agora o hipopótamo, que eu criei como a ti, que come a erva como o boi.

Eis que a sua força está nos seus lombos, e o seu poder nos músculos do seu ventre.

Ele enrija a sua cauda como o cedro; os nervos das suas coxas são entretecidos.

Os seus ossos são como tubos de bronze, as suas costelas como barras de ferro.

Ele é obra prima dos caminhos de Deus; aquele que o fez o proveu da sua espada.

Em verdade os montes lhe produzem pasto, onde todos os animais do campo folgam.

Deita-se debaixo dos lotos, no esconderijo dos canaviais e no pântano. desanimas.

Os lotos cobrem-no com sua sombra; os salgueiros do ribeiro o cercam. desanimas.

Eis que se um rio trasborda, ele não treme; sente-se seguro ainda que o Jordão se levante até a sua boca (Jó 40.15-23).

Não há uma receita de como Deus fala aos que o buscam. A Elias quando fugia da presença de seus inimigos, Deus lhe falou de muitas formas, mas foi necessário que ele reconhecesse Sua presença em uma manifestação mansa e suave:

Ali entrou numa caverna, onde passou a noite. E eis que lhe veio a palavra do Senhor, dizendo: Que fazes aqui, Elias? Respondeu ele: Tenho sido muito zeloso pelo Senhor Deus dos exércitos; porque os filhos de Israel deixaram o teu pacto, derrubaram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada; e eu, somente eu, fiquei, e buscam a minha vida para ma tirarem. Ao que Deus lhe disse: Vem cá fora, e põe-te no monte perante o Senhor: E eis que o Senhor passou; e um grande e forte vento fendia os montes e despedaçava as penhas diante do Senhor, porém o Senhor não estava no vento; e depois do vento um terremoto, porém o Senhor não estava no terremoto; e depois do terremoto um fogo, porém o Senhor não estava no fogo; e ainda depois do fogo uma voz mansa e delicada. E ao ouvi-la, Elias cobriu o rosto com a capa e, saindo, pôs-se à entrada da caverna. E eis que lhe veio uma voz, que dizia: Que fazes aqui, Elias? (1 Reis 19.9-13).

Observe, Deus chama Elias e este responde, e ao ser chamado, move-se, mas ainda não sai da caverna. Ainda não havia compreendido, escutado profundamente, sido renovado por contemplar o Deus a quem já servia, ainda se recolhia em meio à sua aflição e decepção. O Senhor passou, mas não estava senão na suavidade. Foi apenas ao ouvir a voz de Deus que Elias se prostrou. E Jonas, uma pequena planta que cresce no deserto pela vontade de Deus, ao secar, faz com que ele entenda que a dureza de seu coração pedindo justiça impiedosa contra inimigos que desprezava era a razão de não compreender os propósitos e misericórdias de Deus. E quantos mais? São muitos os exemplos.

O verdadeiro resultado é uma comunhão profunda de Jó com Deus, um estar na Sua presença, o conhecê-lo com intimidade, ao ponto de Jó declarar no final do livro:

Então, respondeu Jó ao SENHOR:

Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado.

Quem é aquele, como disseste, que sem conhecimento encobre o conselho?

Na verdade, falei do que não entendia; coisas maravilhosas demais para mim, coisas que eu não conhecia.

Escuta-me, pois, havias dito, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me ensinarás.

Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem.

Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza.

Ou como está noutra tradução: “De fato, meu ouvidos já tinham ouvido a teu respeito; contudo, agora os meus olhos te contemplaram! Por essa razão menosprezo a mim mesmo e me arrependo sinceramente no pó e na cinza” (Jó 42.1-6, KJA*).

É só após compreender quem é Deus, e entender-se diante Dele, que Jó faz essa confissão realmente extraordinária – “o conhecia só de ouvir falar, mas agora o conheço pessoalmente”, ou nas palavras de Jó: “De fato, meu ouvidos já tinham ouvido a teu respeito; contudo, agora os meus olhos te contemplaram!”. Ele tinha ouvido falar de Deus, e O adorava tão só pelo que havia aprendido e entendido. Mas agora diz: MEUS OLHOS TE CONTEMPLARAM! Quem pode imaginar a profundidade dessa afirmação?

Isso se tornou real para ele porque Deus falou diretamente com ele. E como o fez? Lemos acima: “Depois disso YWHW respondeu a Jó dum redemoinho, dizendo”. É só depois de ouvir a voz de Deus que Jó abre o coração. A partir de um redemoinho indicando a presença de Deus Jó ouve sua voz, fala diretamente com Deus finalmente. Mas já não quer colocar sua causa, percebe a grandeza e a bondade de Deus e vẽ as coisas sob um novo prisma.

Os ensinamentos do trecho são ainda bem mais profundos. Mas aqui basta atentarmos pelo modo como a natureza comparece revelada pela voz do próprio Deus a Jó. Não é apenas nesse momento que a natureza é evocada no livro de Jó, e nem só de modo a trazer o conhecimento efetivo de Deus, como já vimos nos discursos morais dos amigos de Jó. Da mesma forma que Jó sabia de Deus, mas não o conhecia, vamos ver ao longo da Bíblia pessoas que, evocando a Deus sem a humildade e o entendimento adequado, ainda que cheias de boas intenções, geram um afastamento Dele.

Na Carta de Paulo aos Romanos lemos o apóstolo esclarecendo um pouco de tudo o que foi dito antes, desde nossos vínculos com a natureza, nossos vínculos com Deus e conosco mesmo, e da integridade sensível e cognitiva da percepção da natureza, que em sua beleza e arranjo integrado revelam não só a presença de Deus, mas um pouco do que Ele é. No entanto, a recusa desse conhecimento, quando se ouve a voz de Deus, é muito ruim.

Pois os seus atributos invisíveis, o seu eterno poder e divindade, são claramente vistos desde a criação do mundo, sendo percebidos mediante as coisas criadas, de modo que eles são inescusáveis; porquanto, tendo conhecido a Deus, contudo não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes nas suas especulações se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu (Romanos 1.21-22).

Por isso, se hoje ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração nos adverte a carta aos Hebreus (3.7-8). Porque duas possibilidades estão postas. Aquele que endurecer o coração estará entregue às suas especulações e ao obscurecimento do seu entendimento. Entretanto, aquele que como Jó abrir seu coração diante de Deus ao ouvir sua voz, o Senhor diz: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo” (Apocalipse 3.20).

À pergunta que abre este texto, “O sofrimento redimiu Jó?”, estou convencido que a resposta é não! Aliás, não se tratava de obter redenção, as escrituras não tratam aí de redenção, esta é apresentada nos evangelhos. Isso então quer dizer que não tem mérito quem suporta o sofrimento? CLARO QUE NÃO QUER DIZER ISSO.  Tem grande mérito quem suporta o sofrimento real, com paciência, na presença de Deus e na amizade dos que são próximos. A questão é que não é que não é o sofrimento em si que produz a elevação espiritual. Há muita ideia errada sobre isso.

O Livro de Jó é ensina outra coisa. O que o mudou foi ouvir a voz de Deus e lhe abrir o coração. Você está sofrendo? Coloque isso diante de Deus. Você não está sofrendo? Alegre-se, não está condenado a sofrer para conhecer a Deus. Sua elevação espiritual não depende disso. Depende de ouvir Sua voz, abrir-lhe o coração. O sofrimento por si só não produz elevação, depende de como você lida com ele, caso tenha de sofrer. Não podemos evitar ter sofrimentos e não devemos imaginar buscar a Deus como um seguro contra o sofrimento, mas porque Ele é Deus. Isso basta.

Na vida temos tristezas e alegrias, jamais esqueçamos disso. Entretanto, o que nos transforma, seja na alegria, seja no sofrimento, seja no dia bom, seja no dia mal, é o coração que busca a Deus. Deus irá conceder-lhe a oportunidade (hoje, se ouvirdes a Sua voz). Por isso Jesus dizia “quem tem ouvidos par ouvir ouça”. Por isso também se diz em Apocalipse 22.11: “Continue o injusto fazendo injustiça, continue o imundo ainda sendo imundo; o justo continue na prática da justiça, e o santo continue a santificar-se”. A única possibilidade de salvação está no conhecimento de Deus.

O apóstolo João, que estando em visão diante do Senhor Jesus desfalece, mas Jesus estende-lhe a mão, tocando-o e dizendo, “não temas”. O sentir esse toque, a presença de Jesus, é extraordinário. Não depende de nosso esforço, mas de contemplarmos a Deus:

Quando o vi, caí a seus pés como morto; e ele pôs sobre mim a sua destra, dizendo: Não temas; eu sou o primeiro e o último, e o que vivo; fui morto, mas eis aqui estou vivo pelos séculos dos séculos; e tenho as chaves da morte e do hades (Apocalipse 1.17-18).

Jó ouviu a voz do Senhor de um modo, Elias de outro, o apóstolo Paulo de outro. Ao ouvirem a voz do Senhor renderam-se a Ele, pois nada se compara à sua presença. Daí porque Jó declara: “arrependo-me sinceramente”, porque Elias cobre o rosto em submissão e adoração a Deus, e porque Paulo, caindo por terra indagou “Quem és tu Senhor” e desde esse dia o seguiu. Este é o maior milagre e a verdadeira cura.