MISTÉRIOS E REVELAÇÕES DE ENOQUE: II. UM HOMEM DE FÉ
Euler Sandeville Jr.
Setembro de 2017

Enoque é apresentado em apenas três trechos das Escrituras, em um total de 6 versos: em Gênesis 5, Hebreus 11 e Judas. O texto em Gênesis suscitou por gerações uma sofisticada fantasia literária e pedagógica em torno de Enoque, com uma elaborada literatura apócrifa. As referências a Enoque feitas nas Escrituras têm algumas características muito distintas entre si. Este ensio é um estudo da referência a Enoque feita em Hebreus 111. O livro de Hebreus segue próximo aos versos que mencionam Enoque na Bíblia hebraica, mas parece elaborar com a tradição do judaísmo helenístico. Na análise visitamos alguns livros pseudoepígrafos, supostamente compostos em torno aos dois séculos antes de Cristo. Discutimos as diferenças e aproximações eventuais entre esses textos e o texto da Escritura. O estudo dos trechos bíblicos2 referentes a Enoque, apesar de bastante sintéticos nas Escrituras, tendem a suscitar diversas questões sobretudo à vista do judaísmo tardio. Essas questões se tornam mais intensas na carta de Judas, da qual não tratamos neste trabalho. Apesar da complexidade que o estudo desses textos pode estimular, o texto das Escrituras permanece bastante claro e essencial em seu incentivo à fé e à vida piedosa em Cristo.

Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem. Pois, pela fé, os antigos obtiveram bom testemunho. Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem.

Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas. Por meio dela, também mesmo depois de morto, ainda fala. Pela fé, Enoque foi trasladado para não ver a morte; não foi achado, porque Deus o trasladara. Pois, antes da sua trasladação, obteve testemunho de haver agradado a Deus. De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam. Pela fé, Noé, divinamente instruído acerca de acontecimentos que ainda não se viam e sendo temente a Deus, aparelhou uma arca para a salvação de sua casa; pela qual condenou o mundo e se tornou herdeiro da justiça que vem da fé. (Hebreus 11.1-7)

Não sabemos quem escreveu nem a quem se destinava o livro, ou carta aos Hebreus. Nada exige que fosse dirigida exclusivamente a hebreus. Uma coisa entretanto é evidente: sua profunda interpretação e remissão às Escrituras. George Guthrie (2014, p. 1131) identificou cerca de “37 citações, 40 alusões, 19 casos em que o material do AT é resumido e 13 referências a um nome ou tema do AT sem a identificação de um contexto específico”. Penso que não é apenas a quantidade de citações, o texto todo constrói-se trazendo-as à mente. No estágio atual de conhecimento, qualquer coisa além disso não passa de especulação sobre a autoria e destinatários. Podem ser exercícios intelectuais interessantes, mas esse procedimento pode se tornar infrutífero, como observa Gabriel Josipovici (1997, p. 542):

Revela-se, na prática, que aquilo que os especialistas pensam que a carta significa é o que vai determinar a sua escolha de contexto e data, os quais, então, são usados como fatos disponíveis, que estabelecem o significado da carta – um argumento circular comum na especialidade bíblica, que é, com tanta frequência, meticulosa e fantástica simultaneamente.

Costumo observar, sem prejuízo de outras leituras3, que o livro aos Hebreus começa desvendando uma realidade celeste invisível aos nossos olhos. Como o início do livro de Jó, em seu primeiro capítulo, que transcorre nas regiões celestes, à qual os olhos de Jó e seus amigos estão alheios, não podem ver, não podem compreender. Esta é a potência do capítulo 1 de Hebreus no contexto da carta. Apresenta-nos essa realidade na qual os anjos são ministros, e na qual Jesus é a expressão exata de Deus e sustenta o universo. Jesus está no centro dessa realidade, tendo feito a purificação dos pecados, é apresentado no capítulo 2 como Sumo Sacerdote eterno, capaz de nos socorrer e interceder por nós. Essa realidade celestial, que nos escapa mas é anunciada, mostra a plena confiança que devemos ter no poder de Deus. A partir do capítulo 3, através de uma série de referências ao Pentateuco, a carta vai nos mostrando o encontro e amálgama dessa realidade celestial com a terrestre, sendo as coisas passadas a figura de sua consumação em Cristo, tanto nas realidades celestes quanto na realidade presente. Aqui está o grande desenvolvimento da carta, plenamente ancorada na Torah e na sublimidade da visão do Criador e de sua obra em Cristo. A partir do capítulo 10.194, o autor convida aos que creem em Deus, à vista de tudo isso, a cuidar das relações nesse tempo presente. Ou seja, tendo olhado o céu, e seu encontro com a terra na obra de Deus e na pessoa de Cristo, agora observa da terra para o céu. É onde nos encontramos. Tendo entendido as realidades celestes que nos escapam, tendo entendido a santidade desse encontro do céu e da terra em Cristo, somos convocados a viver de modo digno, pela fé.

Depois de dizer que “o mundo visível não tem sua origem em coisas manifestas” (11.1, BJ) o autor convoca Abel, Enoque e Noé como testemunhas do andar com Deus, superando as incertezas e as impossibilidades pela fé. Apesar da referência a Enoque, de quem se diz que não morreu, e depois de mencionar também Abraão, Sara, Isaque e Jacó, aos quais retornará, o autor da carta observa: “Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra” (11.13). Nesse sentido, é bastante interessante observarmos a passagem, em nossa divisão em versos, do 4 que fala de Abel para o 5 que fala de Enoque: “Por meio dela, [Abel] também mesmo depois de morto, ainda fala. Pela fé, Enoque foi trasladado para não ver a morte”. Essa condição da morte como uma condição humana está presente na carta, que agora nos lembra da transitoriedade dessa condição perante Deus.

George Guthrie (2014, p. 1207) observa sobre a seção em 11.1-40 que o autor adota os exempla (lista de exemplos): “ferramenta retórica empregada pelos escritores antigos para estimular os ouvintes à ação”. Segundo ele, há ainda um padrão geral utilizado em cada exemplo demarcado pela expressão “pela fé” (pistei): “1) o termo pistei (“pela fé”) seguido do 2) nome da pessoa citada como exemplo, 3) a ação ou fato pelo qual q fé se expressa, 4) o resultado”. Aqui, vou limitar-me a procurar compreender a construção dessa breve referência a Enoque. Lendo o verso, fica claro de que não se trata de uma citação literal ao texto em Gênesis, embora plenamente aderente a ele:

Pela fé, Enoque foi trasladado para não ver a morte; não foi achado, porque Deus o trasladara. Pois, antes da sua trasladação, obteve testemunho de haver agradado a Deus. De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam. (Hebreus 11.5)

Em Gênesis temos:

Enoque viveu sessenta e cinco anos e gerou a Metusalém. Andou Enoque com Deus; e, depois que gerou a Metusalém, viveu trezentos anos; e teve filhos e filhas. Todos os dias de Enoque foram trezentos e sessenta e cinco anos. Andou Enoque com Deus e já não era, porque Deus o tomou para si. (Gênesis 5.21-24)

A primeira diferença textual, mas não de significação, é essencial ao propósito do autor de Hebreus ao citar Enoque. Ainda quando possamos fazer outras considerações mais adiante, esse é o verdadeiro tema desse trecho. É o modo como se dá a inserção de Enoque nesse capítulo de Hebreus. Se não pudéssemos dizer mais nada, isso é o que não poderia deixar de ser dito. Foi através da fé, sem a qual não se pode agradar a Deus, que Enoque foi trasladado. Não foi, portanto, por um mérito humano superior, como parecem lhe atribuir os apócrifos, nem por obras que houvesse realizado. Aliás, nossas traduções da Bíblia, costumam tratar essa seção de Hebreus 11 como os “heróis da fé”. Nada mais contrário ao sentido da Bíblia. O livro de Hebreus parece afastar essa aura sobrenatural de uma santidade inerente a Enoque que transparece nos apócrifos, ou essa aura de uma galeria de heróis que nós, modernos, esperamos encontrar em seus exemplos. A Bíblia não é um livro de heróis, mas de pessoas comuns, que diante das agruras de seu tempo, andaram com Deus.

O livro do Gênesis não menciona a fé, mas de fato o contexto de Enoque é um contexto de fé, e assim podemos entender a frase em Gênesis: “andou Enoque com Deus”. Seguindo agora Hebreus, no contexto em Gênesis, isso significa que, em meio a uma geração incrédula e corrupta, Enoque teve fé em Deus. Mais, andou de acordo com essa fé, e não com os ditames, seduções e imposições de seu tempo. É a fé que opera sua relação com Deus. Foi pela fé que obteve o testemunho de haver agradado a Deus. Esse “haver agradado a Deus” não está no livro de Gênesis, embora seja plenamente coerente com seu relato. O capítulo anterior já havia colocado isso, revelando uma tensão desde Caim, que não agradou a Deus, e Abel, que agradou a Deus (Gênesis 4.4,5)5. Não se trata apenas de interpretação exegética, o autor de Hebreus não seguiu o texto hebraico, como está em nossas Bíblias, mas o texto largamente difundido da Septuaginta6, que traduziu do hebraico como “Enoque agradou a Deus e não foi achado, porque Deus o trasladou” (seguindo Donald Guthrie, 2014 e notas da Bíblia de Jerusalém).

O trasladou da Septuaginta talvez já reflita uma tradição interpretativa do texto hebraico. Considerando que temos o hábito de dizer que Elias foi trasladado, temos então Enoque e Elias no antigo testamento poupados da morte. Mas seria esse um entendimento correto? Há duas questões que se impõem: se trasladação ou arrebatamento significa ser poupado da morte, e como está no original. No caso de Elias, tomado em meio a um turbilhão, 2 Reis 2.1 diz: “Quando estava o SENHOR para tomar Elias ao céu por um redemoinho, (…)”. A palavra (2 Reis 2.1: בְּהַעֲל֤וֹת , bə-ha-‘ă-lō-wṯ) parece significar ascender ao céu, como em 2 Reis 2.117 (וַיַּ֙עַל֙, way-ya-‘al). Não parece entrar a questão da morte ou não de Elias, mas quando Jesus diz de João Batista que veio no espírito de Elias (Lucas 1:178, Mateus 11:7-149), parece ter semelhança com o poder que o Espírito concedia operar em Elias e que é transferido para Eliseu (2 Reis 2.9-1510). Há um problema adicional. Elias é visto com Moisés (que morreu) na transfiguração de Jesus (Mateus 17:1-911, Lucas 9:28-3612, Marcos 9:2-813), ou seja, conversavam com Jesus, indicando uma comunicação para além do tempo, como uma abertura no nosso tempo e espaço, diríamos hoje. Nada sugere que Elias estivesse vivo e Moisés morto, ao contrário, a sugestão é de que, havendo morrido, para Deus estão vivos. Mais, Jesus disse “Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do Homem” (João 3.13), provavelmente se referindo Deuteronômio 30.11-14. No entanto, o subir ao céu de Jesus em vida exigiu sua morte e ressurreição.

Porque este mandamento que, hoje, te ordeno não é demasiado difícil, nem está longe de ti. Não está nos céus, para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Nem está além do mar, para dizeres: Quem passará por nós além do mar que no-lo traga e no-lo faça ouvir, para que o cumpramos? Pois esta palavra está mui perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a cumprires. (Deuteronômio 30.11-14)

No caso de Enoque, וְאֵינֶ֕נּוּ (wə-’ê-nen-nū) foi traduzido como “desapareceu” (BJ) e “já não era” (ARA), interpretado na Septuaginta como “não foi achado”. A ideia parece ser de inexistência, o que não é, deixou de ser. Nada parece implicar o sentido de não ver a morte, depois entendido assim nos apócrifos e nos debates sobre o significado da passagem. Pode ter havido duas interpretações, sendo a mais corrente de que não morreu. Restaria então vermos o trecho em Gênesis traduzido na Septuaginta e em Hebreus por “trasladado”, e na Bíblia de Jerusalém por “arrebatou”, na Almeida Revista e Atualizada por “Deus o tomou para si”. Aqui também a Septuaginta parece já decorrer de uma interpretação do texto que se aproxima dos apócrifos, em alguma medida. No hebraico, temos לָקַ֥ח (lā-qaḥ), cujo sentido é de ser tomado, tomar, de retirar (como em Gênesis 27.3614), levar (Gênesis 31.115), ou de tomar para esposa (Êxodo 6.2516). Os sentidos são largos e a ideia de tomar traduzida na ARA parece ser a mais próxima.

Quase é possível, contemplando o hebraico, entender que não há necessidade no texto bíblico de supor que não houve morte, e isso se ateria a uma interpretação e debates posteriores. De fato, é com a ausência de morte que encontramos Enoque nos pseudoepígrafos tardios. Vejamos os versos 1 a 5, dos 10 que encerram o Livro dos Segredos de Enoque17:

Enoque havia nascido no sexto dia do mês de Tsivan, e viveu trezentos e sessenta e cinco anos. Ele foi levado ao céu no primeiro dia do mês de Tsivan e ali permaneceu sessenta dias. Ele anotou todos esses sinais de toda a criação criada pelo Senhor, e escreveu trezentos e sessenta e seis livros, entregou-os a seus filhos e permaneceu na terra trinta dias, sendo novamente levado para o Céu no sexto dia do mês de Tsivan, no dia e na hora exata em que nascera.

Durante sua vida, o homem vê sua própria natureza como algo velado, obscuro, e assim também o são sua concepção, nascimento e despedida desta vida. Na mesma hora em que ele é concebido, ele nasce, e naquela mesma hora também morre.

Há uma beleza nesse trecho em que o autor do Livro dos Segredos problematiza o mistério da existência humana. Sem dúvida, é uma complexa e sofisticada elaboração literária a partir da imaginação de como teriam sido as visões e elevações de Enoque. Está imerso em um sabor extraordinário desse mistério da existência e do conhecimento de Deus.

Vamos reconhecer que a carta aos Hebreus começa no capítulo 11 dizendo que “Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem”, em clara alusão ao Gênesis e, como está expresso em Jó 38.4 “Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Dize-mo, se tens entendimento”. Ou seja, nos convida à humildade diante do Criador de todas as coisas e na plena confiança da fé. Ou como está dito em Romanos 1.20:

Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas

Essa compreensão estava bem estabelecida na cultura judaica e dos primeiros cristãos. Há, nesse sentido, um entendimento semelhante ao de Hebreus, sem com isso sugerir que haja citação de Hebreus ao Livro dos Segredos de Enoque ou vice-versa, como sua datação geralmente no I século permite supor. Creio que não haja. Ao contrário, era uma percepção fundamental do mistério da existência, que entretanto não se entrega às forças do cosmo e das paixões como no politeísmo, mas convida á humildade diante do Criador:

Eu curvei-me diante do Senhor, e o Senhor falou-me: “Enoque, amado, tudo o que vês já está pronto, eu te digo que já era antes mesmo do início, pois que tudo isso eu criei do não-ser, as coisas visíveis do invisível. (Livro dos Segredos de Enoque 24.2)

E Enoque respondeu a todos dizendo: “Ouvi, meus filhos, antes de todas as criaturas terem sido criadas, o Senhor criou o visível e o invisível”. (Livro dos Segredos de Enoque 59.1)

A mente do homem não pode furtar-se a essa percepção de uma dimensão de mistério na existência, o que perdemos muito na cultura contemporânea, ao reduzir toda á existência à narrativa emudecida de uma matéria na qual se extingue a realidade. É esse mistério, é essa transcendência de nós mesmos e de nossas certezas imediatas, a que o livro de Gênesis nos convida, como também Hebreus. Não vemos tudo, e no invisível para nós está a compreensão da existência visível, pela revelação divina. Este anseio, exagerado sem dúvida nos apócrifos, mas traduzido na Bíblia continuamente (Jó, Romanos, Hebreus, Salmos etc.), nos permite uma visão rica e extraordinária da existência, do devir, do caminhar nessa neblina em vias de ser iluminada por um dia perfeito (Provérbios 4.1818), que para nós é perceptível, mas ainda não é claro.

Nesse sentido, pouco importa se Enoque morreu ou não nesse arrebatamento em que foi tomado para Deus. Entretanto, não estamos autorizados a entender que Enoque morreu nesse ser tomado. A carta aos Hebreus assume, seguindo essa tradição, que Enoque foi “arrebatado, a fim de escapar da morte” (BJ) ou “trasladado para não ver a morte” (ARA). Ainda resta aqui um campo interpretativo sobre essa questão. Não apenas isso, o próprio texto em Gênesis favorece a possibilidade desse entendimento, embora seja difícil desvendar cabalmente o sentido desse ser levado para Deus. Mais do que isso, começa a ficar claro que não é este o propósito das Escrituras, perder-se nessas questões, por mais essenciais que possam parecer às nossas convicções. Fica claro o que as Escrituras estão nos convocando a perceber, tanto no Gênesis quanto em Hebreus. A questão é o conjunto de testemunhos que temos de que as pessoas que agradaram a Deus foram aquelas que, em meio a uma geração perversa e antagônica ao Criador, andaram por fé e com justiça, na busca de santidade e na humildade. A intenção do autor não parece ser de modo algum a de discutir essa cultura (preocupação mais própria a nosso tempo), mas demonstrar, através dela, retornando à essência das Escrituras, o sentido fundamental da existência, da fé e da salvação pela graça e misericórdia de Deus. Disso decorre um convite à vida piedosa.

Talvez seja útil estabelecer melhor estas últimas observações. Como o autor de Hebreus, a par de seu profundo conhecimento das Escrituras, utiliza-se da tradição helenística da Septuaginta, pode ser interessante observar se Enoque é citado nos livros chamados deuterocanônicos. Há menções a Enoque em dois desses livros, geralmente datados em torno ao II século AC. Não estou entendendo que haja citação a esses livros em Hebreus, e sim que havia um conjunto de meditações dos judeus em torno à figura de Enoque, que a carta de Hebreus parece conhecer e utilizar para instruir na piedade e na verdade seus leitores. É interessante ver essas menções nos deuterocanônicos, ainda mais quando o texto, tanto nos deuterocanônicos quanto em Hebreus, difere integralmente da menção que Judas faz a Enoque, este sim, utilizando uma referência literal ao pseudoepígrafo.

O livro deuterocanônico Eclesiástico19 menciona Enoque em dois momentos. No capítulo 44, em um trecho que lembra bastante Hebreus 11, elogiando a virtude desses homens, menciona que “Henoc agradou ao Senhor e foi arrebatado, exemplo de conversão para as gerações” (44.16, BJ). A Bíblia de Jerusalém observa em nota que “exemplo de conversão”, isto é, motivo para se converterem, no hebraico seria “exemplo de ciência”. Para o comentarista dessa edição seria uma possível referência aos mistérios divulgados nos apócrifos de Enoque. Não vejo a necessidade desse entendimento aqui. Se considerarmos o contexto em que Enoque viveu, temos aí uma interpretação que se apega ao relato bíblico, ou seja, de que Enoque, vivendo em meio a uma geração perversa, era um exemplo para que seus contemporâneos se voltassem a Deus e se arrependessem. De qualquer modo, o trecho no Eclesiástico é bastante próximo ao ensino em Hebreus.

Contudo, Enoque é mencionado novamente no Eclesiástico no capítulo 49.14, ao lado de José, Sem, Sete e Adão, e aí difere em espírito do que está em Hebreus: “Ninguém sobre a terra foi criado igual a Henoc, ele que foi arrebatado da terra” (BJ). Aqui vemos a profunda e duradoura impressão deixada pelo relato de Gênesis 5. Esses trechos estão em uma longa lista no Eclesiástico que se inicia no capítulo 44.1: “Elogiemos homens ilustres, nossos antepassados, em sua ordem de sucessão”. A lista em ordem inclui Enoque em 44.16 e foi seguida até Neemias, quando retorna ao Gênesis com Enoque, José, Sem, Sete (49.14), colocando ainda: “mas acima de todo ser vivente está Adão”. Esta última menção a Enoque tem o exagero do elogio, mas já não está consoante em seu sentido com o relato de Gênesis e de Hebreus. Quando muito podemos ver o uso corrente dos exempla, mas a estrutura e o objetivo são bastante distintos em Eclesiástico e Hebreus, no objetivo, estrutura e sobretudo profundidade. Hebreus não procura a exaltação do homem, mas o testemunho da fé que nos serve de exemplo. A diferença entre Eclesiástico e Hebreus é sutil nesse trecho específico, mas tem relevância.

A outra menção é feita no livro da Sabedoria20, no capitulo 4 (em especial 4.10-15). Aqui Enoque não é claramente nominado, mas o verso é uma evidente citação a Gênesis 5.24:

Agradou a Deus, Deus o amou; vivia entre pecadores, Deus o transferiu. Arrebatou-o para que a a malícia não lhe pervertesse o julgamento e a perfídia não lhe seduzisse a alma; pois o fascínio do que é vil obscurece o bem e o turbilhão da cobiça perverte um espírito sem maldade. Amadurecido em pouco tempo atingiu a plenitude de uma vida longa. Sua vida era agradável ao Senhor, por isso saiu às pressas do meio da perversidade. As multidões o veem, mas não entendem, nada disso lhes ocorre à mente: que graça e misericórdia são para seus eleitos e sua visita para seus santos.

Sem dúvida, uma bela descrição do contexto em que vivia Enoque e de sua relação com Deus. É aplicada aqui, de uma forma muito bonita, à experiência de todo o homem que andar com Deus e à dificuldade de entendê-lo de seus contemporâneos que não seguem a Deus. O contexto, entretanto, é outro. O trecho tem a finalidade de explicar a morte do justo, e a retirada de Enoque e a meditação sobre o contexto em que vivia com Deus é então convidada. Com isso, se insinua uma lição maior, e quase se pode entender que o arrebatamento pode ser também essa retirada por Deus do justo do meio de uma geração perversa, tomando-o para si.

Em todos esses trechos, de grande beleza, não se pode explicar o arrebatamento de Enoque. Permanece, como no caso de Elias, um mistério. É esse mistério que os apócrifos pretendem explorar. Mas isso não é o mais importante, não é, de fato, a questão que as Escrituras nos propõem a entender. Há coisas que não saberemos e isso não é um problema. Aceitemos os limites de nosso entendimento e o mistério maravilhoso da existência. O ruim seria não entendermos as coisas que estão ao alcance do entendimento, o sentido expresso no texto. A mensagem fundamental das Escrituras é simples e, como sempre, ao alcance de todos. Somos convidados a perceber a fé, o andar com Deus em meio a uma geração hostil a Deus, e o convite claro à vida piedosa. Não é na vida piedosa que está o mérito, mas na fé, e a fé leva à piedade. É necessário, ao entendermos essa riqueza de ensinamentos diante dos mistérios da existência e da sublimidade do conhecimento de Deus em sua santidade e misericórdia, não nos afastarmos do sentido primeiro do texto bíblico.

O autor de Hebreus não está tão interessado em discutir a tradução mais correta, ou o uso da tradição, mas em nos chamar a atenção para algo mais essencial, aceitando que os mistérios da existência pertencem a Deus, até onde nos são revelados ou dados a conhecer em sua Palavra. Por estes sim, devemos zelar. Todo o trecho citado de Enoque, para além da referência ao hebraico ou a Septuaginta, e da comunicação em um campo cultural que afinal não se propõe a discutir, pode ser resumido na sequência imediata do texto em 11.5:

De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam. (Hebreus 11.6).

 


BIBLIOGRAFIA CITADA

GUTHRIE, Donald. Hebreus, introdução e comentário. Tradução Gordon Chown, 1a edição, 9a reimpressão. São Paulo: Vida Nova, 2014.

GUTHRIE, George. Hebreus. In BEALE, G. K., CARSON, D. A. (ORG.). Comentário do uso do Antigo testamento no Novo Testamento. Trad. C. E. S. Lopes, F. Medeiros, R. Malkomes e V. Kroker. São Paulo: Vida Nova, 2014, pg. 1131 a 1222.

JOSIPOVICI, Gabriel. A Epístola aos Hebreus e as Epístolas Católicas. In ALTER, Robert e KERMODE, Frank (org.). Guia literário da Bíblia. Trad. Raul Fiker. São Paulo: UNESP, 1997, pg. 541 a 561.

LIVRO DOS SEGREDOS DE ENOQUE. In Apócrifos e pseudoepígrafos da Bíblia. Org. Eduardo de Proença, 6a edição. Tradução Claudio J. A. Rodrigues. São Paulo: Fonte editorial, 2005, pg 105 a 129.


TRADUÇÕES DAS ESCRITURAS UTILIZADAS

BÍBLIA DE JERUSALÉM. 1a. Edição, 11a. Reimpressão. São Paulo: Paulus, 2016.

BÍBLIA. Edição Almeida Revisada E Corrigida. Sociedade Bíblica Do Brasil, on line, São Paulo, s/d. Disponível em http://www.sbb.org.br/conteudo-interativo/pesquisa-da-biblia/ acesso entre 09 de setembro e 02 de outubro de 2017.

BÍBLIA. Bíblia Português. Bíblia Online. Bible Hub. on line, Glassport, Pennsylvania, 2004-2017. Disponível em http://bibliaportugues.com, com acesso em 25 de setembro de 2017.


NOTAS

1 Este ensaio foi apresentado à disciplina Pregando e Ensinando a Mensagem dos Profetas, Professor Dr. Pedro E. C. Santos.

2 Todas as citações bíblicas são da Almeida Revista e Atualizada (ARA, como disponível em http://www.sbb.org.br/conteudo-interativo/pesquisa-da-biblia/), e quando for utilizada a Bíblia de Jerusalém será indicado (BJ). As citações aos deuterocanônicos seguiu a Bíblia de jerusalém. As extrações do hebraico são feitas aqui pelo interlinear disponível em Bible Hub (http://bibliaportugues.com), com acesso em 25 de setembro de 2017.

3 O livro de Hebreus propõe uma série de problemas de interpretação, sobretudo quando se procura reconhecer possíveis autores e destinatários, e ainda mais em citações do Antigo Testamento e seu uso na carta, como demonstram as discussões de George Guthrie (2014) e Donald Guthrie (2014). A problematização dessa literatura, que se insere em um universo muito amplo, foge às possibilidades deste um artigo e, sobretudo, deste autor. No entanto, sem permitirmo-nos perder nesse emaranhado extremamente complexo de possibilidades eruditas, é possível uma leitura atenta do significado da carta e suas diversas perícopes e ainda sermos enriquecidos pela leitura cuidadosa desses dedicados comentaristas. Assim, a proposta de leitura que apresento aqui não pretende sobrepor-se a nenhuma outra, erudita ou não, desde que estejamos buscando permanecer fiéis ao sentido e mensagem a que esta epístola das Escrituras nos exorta.

4 “Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura. Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel. Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima.” (Hebreus 10.19-25).

5 “ Agradou-se o SENHOR de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou” (Gênesis 4.4,5).

6 A Septuaginta (LXX) foi uma tradução do hebraico para o grego koiné, entre o século III a.C. e o século I a.C., por setenta e dois rabinos em Alexandria. A Septuaginta inclui livros depois considerados apócrifos ou deuterocanônicos e foi a versão das Escrituras mais utilizadas devido a difusão da língua grega na Antiguidade e foi a versão basicamente utilizada para citações no Novo Testamento.

7 “Indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho.” 2 Reis 2.11

“E irá adiante do Senhor no espírito e poder de Elias, para converter o coração dos pais aos filhos, converter os desobedientes à prudência dos justos e habilitar para o Senhor um povo preparado.” Lucas 1:17

“Então, em partindo eles, passou Jesus a dizer ao povo a respeito de João: Que saístes a ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Sim, que saístes a ver? Um homem vestido de roupas finas? Ora, os que vestem roupas finas assistem nos palácios reais. Mas para que saístes? Para ver um profeta? Sim, eu vos digo, e muito mais que profeta. Este é de quem está escrito: Eis aí eu envio diante da tua face o meu mensageiro, o qual preparará o teu caminho diante de ti. Em verdade vos digo: entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista; mas o menor no reino dos céus é maior do que ele. Desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele. Porque todos os Profetas e a Lei profetizaram até João. E, se o quereis reconhecer, ele mesmo é Elias, que estava para vir. ” Mateus 11:7-14

10 “Havendo eles passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me o que queres que eu te faça, antes que seja tomado de ti. Disse Eliseu: Peço-te que me toque por herança porção dobrada do teu espírito. Tornou-lhe Elias: Dura coisa pediste. Todavia, se me vires quando for tomado de ti, assim se te fará; porém, se não me vires, não se fará. Indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho. O que vendo Eliseu, clamou: Meu pai, meu pai, carros de Israel e seus cavaleiros! E nunca mais o viu; e, tomando as suas vestes, rasgou-as em duas partes. Então, levantou o manto que Elias lhe deixara cair e, voltando-se, pôs-se à borda do Jordão. omou o manto que Elias lhe deixara cair, feriu as águas e disse: Onde está o SENHOR, Deus de Elias? Quando feriu ele as águas, elas se dividiram para um e outro lado, e Eliseu passou. Vendo-o, pois, os discípulos dos profetas que estavam defronte, em Jericó, disseram: O espírito de Elias repousa sobre Eliseu. Vieram-lhe ao encontro e se prostraram diante dele em terra. ” 2 Reis 2.9-15

11 “Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro e aos irmãos Tiago e João e os levou, em particular, a um alto monte. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com ele. Então, disse Pedro a Jesus: Senhor, bom é estarmos aqui; se queres, farei aqui três tendas; uma será tua, outra para Moisés, outra para Elias. Falava ele ainda, quando uma nuvem luminosa os envolveu; e eis, vindo da nuvem, uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi. Ouvindo-a os discípulos, caíram de bruços, tomados de grande medo. Aproximando-se deles, tocou-lhes Jesus, dizendo: Erguei-vos e não temais! ntão, eles, levantando os olhos, a ninguém viram, senão Jesus. E, descendo eles do monte, ordenou-lhes Jesus: A ninguém conteis a visão, até que o Filho do Homem ressuscite dentre os mortos. ” Mateus 17:1-9

12 “Cerca de oito dias depois de proferidas estas palavras, tomando consigo a Pedro, João e Tiago, subiu ao monte com o propósito de orar. E aconteceu que, enquanto ele orava, a aparência do seu rosto se transfigurou e suas vestes resplandeceram de brancura. Eis que dois varões falavam com ele: Moisés e Elias, os quais apareceram em glória e falavam da sua partida, que ele estava para cumprir em Jerusalém. Pedro e seus companheiros achavam-se premidos de sono; mas, conservando-se acordados, viram a sua glória e os dois varões que com ele estavam. Ao se retirarem estes de Jesus, disse-lhe Pedro: Mestre, bom é estarmos aqui; então, façamos três tendas: uma será tua, outra, de Moisés, e outra, de Elias, não sabendo, porém, o que dizia. Enquanto assim falava, veio uma nuvem e os envolveu; e encheram-se de medo ao entrarem na nuvem. E dela veio uma voz, dizendo: Este é o meu Filho, o meu eleito; a ele ouvi. Depois daquela voz, achou-se Jesus sozinho. Eles calaram-se e, naqueles dias, a ninguém contaram coisa alguma do que tinham visto. ” Lucas 9:28-36

13 “Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João e levou-os sós, à parte, a um alto monte. Foi transfigurado diante deles; as suas vestes tornaram-se resplandecentes e sobremodo brancas, como nenhum lavandeiro na terra as poderia alvejar. Apareceu-lhes Elias com Moisés, e estavam falando com Jesus. Então, Pedro, tomando a palavra, disse: Mestre, bom é estarmos aqui e que façamos três tendas: uma será tua, outra, para Moisés, e outra, para Elias. Pois não sabia o que dizer, por estarem eles aterrados. A seguir, veio uma nuvem que os envolveu; e dela uma voz dizia: Este é o meu Filho amado; a ele ouvi. E, de relance, olhando ao redor, a ninguém mais viram com eles, senão Jesus. ” Marcos 9:2-8

14 “Disse Esaú: Não se chama ele com razão Jacó, visto que já por duas vezes me enganou? tirou-me [לָקָ֔ח] o direito de primogenitura, e eis que agora me tirou [לָקַ֣ח] a bênção. E perguntou: Não reservaste uma bênção para mim?” Gênesis 27.36

15 “Jacó, entretanto, ouviu as palavras dos filhos de Labão, que diziam: Jacó tem levado [לָקַ֣ח] tudo o que era de nosso pai, e do que era de nosso pai adquiriu ele todas estas, riquezas.” Gênesis 31.1

16 “Eleazar, filho de Arão, tomou (לָקַֽח־) por mulher uma das filhas de Putiel; e ela lhe deu Finéias; estes são os chefes das casa, paternas dos levitas, segundo as suas famílias.” Êxodo 6.25

17 Também chamado de II Enoque, é geralmente atribuído ao primeiro século.

18 “Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito.” Provérbios 4.18.

19 Eclesiástico (Livro da Assembleia) ou Sirácida é um dos livros deuterocanônicos da Bíblia. O prólogo do tradutor atribui o Livro a seu avô, Jesus filho de Sirach, teria sido traduzido cerca de meados do II século AC.

20 O Livro da Sabedoria ou Sabedoria de Salomão é anônimo e geralmente datado no I século AC, supostamente escrito no contexto do judaísmo em Alexandria.