“NOSSOS PECADOS PESAM SOBRE NÓS. COMO PODEREMOS VIVER?” (EZ 33.10-20)
Euler Sandeville Jr.

22/05/2017 (revisão 18/01/2018)

 

O pecado nos afasta de Deus e isso não é uma condição abstrata, mas concreta. Observe o que está implicado em relatos sobre erros humanos nas Escrituras. Por exemplo, Adão (desejo de poder, cobiça de ser mais do que é), Caim (inveja, ódio, traição), Saul (incredulidade) e Davi (cobiça, vaidade, desejo carnal e traição), Jonas (intransigência, desamor, vingança) e tantos outros. Porém, muitas vezes ao invés de arrependimento, a pessoa cultiva a culpa. E a culpa ainda nos afasta mais de Deus, porque, em si mesma, a culpa é pecado.

É pecado, porque, em última análise, além de arrogância, é falta de fé. Mas alguém pode objetar:

“- como você pode dizer que é arrogância e falta de fé?. A culpa não seria o sofrimento merecido pelo erro?”

Penso que, ainda que diante dos mais graves pecados, autopunição é um modo de conformação, não de superação. O juízo severo e intransigente, sobre si mesmo ou sobre os outros, é, temos de reconhecer, arrogância e falta de fé. É arrogância por não aceitar a própria fragilidade e falibilidade ou a alheia. E falta de fé porque tanto no Novo quanto no Velho Testamentos, o amor de Deus ultrapassa a Lei.

Aqui vou considerar um trecho magnífico no Livro de Ezequiel, um dentre os Livros mais severos da Bíblia. Contudo, é apenas severo para quem estaciona em uma leitura focada no incômodo da dura advertência; é necessário ler o texto em sua integridade. Mais do que advertência pelo erro, que está claramente posta ali, é um convite à sua superação.

As profecias de Ezequiel foram feitas em um momento crítico da história judaica, que foi a derrota para a Babilônia e depois o exílio. Ezequiel escreveu nesse momento inicial da deportação para o exílio. De fato, como veremos a seguir, havia muita margem para a culpa, e os acontecimentos da época realçavam ainda mais essa tendência.

Para que não fiquem dúvidas sobre a gravidade dos pecados a que se referia o profeta, vejamos como são descritos os pecados de Israel e Judá no Livro de Ezequiel, e não é ainda a descrição mais severa (Ezequiel 22.6-12, grifei apenas os aspectos não litúrgicos do texto):

Eis que os príncipes de Israel, cada um segundo o seu poder, nada mais intentam, senão derramar sangue. No meio de ti, desprezam o pai e a mãe, praticam extorsões contra o estrangeiro e são injustos para com o órfão e a viúva. Desprezaste as minhas coisas santas e profanaste os meus sábados. Homens caluniadores se acham no meio de ti, para derramarem sangue; no meio de ti, comem carne sacrificada nos montes e cometem perversidade. No teu meio, descobrem a vergonha de seu pai e abusam da mulher no prazo da sua menstruação. Um comete abominação com a mulher do seu próximo, outro contamina torpemente a sua nora, e outro humilha no meio de ti a sua irmã, filha de seu pai. No meio de ti, aceitam subornos para se derramar sangue; usura e lucros tomaste, extorquindo-o; exploraste o teu próximo com extorsão; mas de mim te esqueceste, diz o SENHOR Deus.

Era nesse contexto que a palavra de Ezequiel foi dirigida ao povo. A sua mensagem era sobretudo para religiosos, no sentido que geralmente a Bíblia dá a essa palavra, onde a fé não opera uma experiência profunda, e onde as exterioridades da religião são mais importantes do que a condição íntima e coletiva diante de Deus. Também era dirigida a pessoas que, no meio do povo hebreu, não tinham fé e praticavam a injustiça, como também a praticavam os religiosos. A maldade e a incredulidade haviam se disseminado.

É preciso entender que essas palavras de Ezequiel são Palavras de Deus ao povo, ainda sob o regime da Lei. É sob a Lei que viviam; esse apelo ainda não era feito sob a graça inaugurada pela morte e ressurreição de Jesus. Não havia nada mais severo do que a Lei, que anunciava uma justiça retributiva. De modo que os israelitas, contemplando a própria desgraça naqueles dias, diziam (Ezequiel 33.10):

Assim falais vós: Visto que as nossas prevaricações e os nossos pecados estão sobre nós, e nós desfalecemos neles, como, pois, viveremos?

Nossos pecados pesam sobre nós. Como poderemos viver?”. A culpa nunca levou ninguém a lugar algum, ela é o próprio castigo, severo, intransigente, cruel. O que não deixa de ser uma forma de escapar de um castigo maior, ou a recusa do confronto ativo com as consequências dos próprios atos. Entretanto, suas raízes são profundas na alma humana, e nem sempre são conscientes. Seja como for, o conhecimento sobre o qual se constrói a culpa não opera nada, apenas conformidade com a própria tragédia.

Focar na própria culpa é um modo de satisfazer-se ou compensar-se com ela. É nada mais que uma forma de justiça própria, e por vezes bem cruel. Mas alguém poderá objetar: “Como você pode afirmar isso?!” Ou: “Como pode ser falta de fé se é a percepção do erro?” Alguém dirá ainda, talvez temendo que a supressão da culpa venha a estimular uma vida de pecados:

“- Mas é injusto isso, a justiça de Deus exige a perfeição, a santidade, e o mal deve ser condenado”.

Vejamos então o que diz o texto bíblico, e um texto do Antigo Testamento, portanto, sob o domínio da severa Lei mosaica. A mensagem de Deus, embora houvesse anunciado a justiça sobre aqueles pecados acima descritos, e outros, era fundamentalmente outra. Continuando (no v. 11) o texto que lemos antes, Deus responde aos que falavam daquele modo (“como poderemos viver?”):

Dize-lhes: Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois por que haveis de morrer, ó casa de Israel?

A proposta de Deus era que, mesmo considerando os terríveis atos e disposições do coração acima descritos, e convenhamos, eram graves injustiças, haveria ainda possibilidade de perdão. E isso sob a severidade da Lei! Deus estava mostrando que a cada momento o homem pode fazer suas escolhas. Se o justo deixa de ser justo, não deveria receber a repreensão desse mal caminho? Mas também, o que talvez seja mais difícil de entender, poderia o perverso mudando sua disposição e corrigindo seus erros encontrar ainda lugar de perdão (veja Ezequiel 33.13-16)?

Eram graves os erros descritos por Ezequiel? Não há dúvida. Não diz o Livro de Hebreus (12.14-17) que

Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor, atentando, diligentemente, por que ninguém seja faltoso, separando-se da graça de Deus; nem haja alguma raiz de amargura que, brotando, vos perturbe, e, por meio dela, muitos sejam contaminados; nem haja algum impuro ou profano, como foi Esaú, o qual, por um repasto, vendeu o seu direito de primogenitura. Pois sabeis também que, posteriormente, querendo herdar a bênção, foi rejeitado, pois não achou lugar de arrependimento, embora, com lágrimas, o tivesse buscado.

A advertência é séria. Não há lugar de arrependimento para os que tais coisas praticam? Esaú abriu mão da benção, da herança prometida, mas não era também essa a condição de Israel às vésperas do exílio? E não é ainda lançado a eles o convite ao arrependimento? Talvez devêssemos nos perguntar, diante da severidade do texto de Hebreus e da oferta de restauração em Ezequiel,  o que buscava Esaú? Era arrependimento (“não achou lugar de arrependimento”) ou a benção (“querendo herdar a bênção”).

Para não entendermos errado o texto de Hebreus, vejamos o que aconteceu. De fato, Esaú perdeu a benção, e Hebreus nos diz que perdeu porque foi profano, isto é, não compreendia a dimensão espiritual de suas escolhas momentâneas. O estrago estava feito. O que diz em Gênesis (27.34-40) é que nesse momento, quando se dá conta do que perdeu, “bradou com profundo amargor” (v. 34) e “chorou” (v. 38), e ainda: “passou a odiar [seu irmão] por causa da benção” (v. 41).

Certamente ele vivenciou um grande desespero, mas terá sido isso, de fato, arrependimento (“não achou lugar de arrependimento” como está dito em Hebrieus)? Sua rejeição decorre dele não conseguir se arrepender, porque o que ele buscava, de fato, não era o arrependimento mas a benção perdida. Estava preso nas coisas de baixo, não via as coisas do alto. Continuou olhando na direção de antes, na da ambição do momento, não no sentido mais elevado que estava diante dele.

De qualquer modo, em Ezequiel 33 encontramos o povo diante de uma situação talvez ainda mais grave, pois na Lei de Moisés estava previsto o perigo da apostasia que agora víamos chegando a seu ápice, e dando seu fruto mais trágico com a conquista de Jerusalém por Nabucodonosor. Em Ezequiel, apesar dessa condição, o que se oferecia ao povo não eram só as consequências dos pecados, mas o arrependimento (“que o perverso se converta do seu caminho e viva”).

O povo de Israel, entretanto, não parecia concordar que isso fosse possível, ou mesmo aceitável. Diziam a Deus em seus corações que Deus, e não eles próprios, estava errado:

17 Todavia, os filhos do teu povo dizem: Não é reto o caminho do Senhor; mas o próprio caminho deles é que não é reto.

e

20a Todavia, vós dizeis: Não é reto o caminho do Senhor.

Veja que interessante. O povo não só se culpava – “os nossos pecados estão sobre nós, e nós desfalecemos neles, como, pois, viveremos?”, como recusava que o pecador pudesse ser perdoado. E dizia que Deus não era reto, não agia corretamente.

Literalmente, respondiam com intransigência a Deus quando este falava que o justo que se desviasse tornava-se culpado, e o culpado que verdadeiramente se arrependesse era perdoado. Diziam então: “Não é reto o caminho do Senhor”, Não é reto o caminho do Senhor”… Diziam, enfim, que o caminho de Deus (usam aqui a palavra Adonai, e não YHWH) não servia para eles. Não aceitavam nem Sua justiça, nem Sua misericórdia e perdão. Colocavam-se, e ficavam, em um lugar sem saída.

Com isso, recusavam a Deus de quem esperavam ainda algum favor, e negavam a sua própria possibilidade de cura, porque, acima de tudo, não queriam mudar e não queriam receber de Deus senão a benção mundana. Persistiam nesse caminho perpetuando o peso da própria culpa, a qual preferiam a reconhecer o erro e receber o perdão. A culpa é uma forma de autossatisfação, e o juízo severo sobre os outros apenas justificação de si mesmo.

Quem focar dessa forma, talvez tenha compreendido a sua distância da perfeição de Deus e as sutilezas do coração humano, propenso ao erro, à ganância e à violência, tanto quanto aos afetos, à abnegação, aos grandes gestos. Mas certamente não terá ainda compreendido toda a grandeza de Deus.

Propôs também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros: (…) (Lucas 18.9)

e

Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas. (Romanos 2.1)

Vemos aqui que a autojustificação opera em duas chaves, uma colocando-se fora da possibilidade de cura (nossas prevaricações e os nossos pecados estão sobre nós, e nós desfalecemos neles, como, pois, viveremos?), Outra, também cruel, que se justifica colocando-se acima dos demais (no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas).

Há razão para isso? Obviamente, pois quem, diante de Deus, poderia dizer-se justo? Porque a luz intensa que dele emana só nos daria a visão de nossa pequenez, a luz que é também sua santidade e pureza só realçaria e faria ver o que, por vezes, escondemos de nós mesmos em nossos corações. O que dizer então daquilo em que sabemos errar e ter errado? Dos erros que, sabendo erros, neles persistimos, ou do que fizemos e trouxe grande mal? Mas se é assim, quem pode ser salvo, quem pode ser perdoado?

No entanto, a mensagem de Deus é outra. Apesar de ser outra, muitas vezes, como nos exemplos acima, não conseguimos aceitá-la, compreendê-la. Seria injusta por ser de cura e de restauração? O coração endurecido pensa que sim, para sua própria desgraça. Também aquele que, inseguro diante de seus feitos, não crê que possa ter absolvição.

Veja, os pecados do povo no tempo de Ezequiel que lemos acima não eram uma mentira eventual, ou um olhar avesso a alguém que lhe passou à frente na fila. Esses não são bons sentimentos, e mostram do que nosso coração é capaz, tanto do melhor quanto do pior. Mas aqui as pessoas estavam vivendo continuamente de um modo perverso, persistiam longos tempos sobre o erro e, advertidas, eram refratárias à mudança. Haveria também para isso o perdão?

Vejamos a mensagem que lhes levava Ezequiel (33.11-16) que, como vimos acima, recusavam:

Dize-lhes: Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois por que haveis de morrer, ó casa de Israel? Ezequiel (33.11)

Quando eu disser ao justo que, certamente, viverá, e ele, confiando na sua justiça, praticar iniquidade, não me virão à memória todas as suas justiças, mas na sua iniquidade, que pratica, ele morrerá. Quando eu também disser ao perverso: Certamente, morrerás; se ele se converter do seu pecado, e fizer juízo e justiça, e restituir esse perverso o penhor, e pagar o furtado, e andar nos estatutos da vida, e não praticar iniquidade, certamente, viverá; não morrerá. De todos os seus pecados que cometeu não se fará memória contra ele; juízo e justiça fez; certamente, viverá. Ezequiel (33.13-16)

Refletindo sobre isso, vi que, ainda na época sob a Lei que punia severamente o pecado, o sentido que Deus oferecia não era o da punição, mas o do arrependimento e da cura. Jamais o da culpa, pois por sua natureza ela afasta de Deus e impede a cura e o perdão. Não se julga capaz de merecer o perdão. Nem julga que o outro possa recebê-lo, deixando de perceber a enormidade dos próprios erros. Mas, ainda que não seja merecedor, a questão é outra. É que o amor de Deus vem nos buscar aonde estamos. Isso opera mais do que supressão da culpa, gera liberdade e vida.

O amor de Deus ultrapassa o pecado e a retribuição, é paciente, aguarda a oportunidade de uma mudança e que essa mudança opere vida (“se converter do seu pecado, e fizer juízo e justiça, e restituir esse perverso o penhor, e pagar o furtado, e andar nos estatutos da vida, e não praticar iniquidade, certamente, viverá”). Que sentido profundo, a vida ao invés da prisão da culpa e do castigo, ao invés da autocomiseração. Trata-se de uma experiência de liberdade. Liberdade não é apenas poder ou não fazer algo, é esse fluir da vida.

Vemos, portanto, mais uma coisa, que o perdão recebido opera uma mudança de comportamento e de vida. A culpa foca o castigo, mas não vê a redenção. O arrependimento vê a culpa, mas foca na mudança, na atitude humilde diante de Deus. O que pode ser paradoxal, mas é expressa na opção por seu amor inefável. Isso é difícil de compreender para quem tem a consciência de seus erros e dos erros de seu tempo.

Você leu acima os pecados a que se referia Ezequiel. E vê que, por mais longamente praticados e graves, ainda havia uma possibilidade de redenção. Não na satisfação da culpa, mas no amor que Deus nos oferece. Pedro, que havia negado a Jesus em seu momento de fraqueza que tanto o envergonhou e amargurou, aprendeu com o próprio erro quando o Senhor o resgata de sua culpa. Esse homem, transformado pela maturidade, falando do amor humano, diz enfaticamente, por ter aprendido do próprio Senhor o perdão e a restauração,  que o amor cobre uma multidão de pecados (1 Pedro 4.8):

Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados

Não só isso, ao contrário da culpa que produz juízo humano sobre si e os outros, o amor produz afeto e restauração. Aí está anunciada a solução. E se é assim com o amor humano ao conhecer o amor de Deus, o que dizer então do amor de Deus quando o conhecemos?

O amor acobertaria então o erro? Não, é justamente o contrário. Daí sua riqueza e dificuldade. A falta de amor é que opera a amargura, é que esconde os sentimentos impronunciáveis.O amor exatamente os liberta e restaura, tal como Pedro experimentou do Senhor e depois na sua maturidade nos ensina, como lemos acima.

Tendo meditado nos caminhos da vida, do que vivemos, e no que nos dizem as Escrituras sobre momentos críticos da nossa experiência, concluí que a culpa é a prisão em si mesmo, e que a recusa ao perdão de Deus é falta de fé nele, porque não confiamos no seu amor que transcende nosso entendimento e nosso próprio desejo de realização e castigo.

A resposta israelita nos dias de Ezequiel era de que não tinham fé, e preferiam a culpa e o juízo ao amor. Mas o amor traz liberdade e vida. Quem prefere a culpa diria: “prefiro o castigo”; então, como poderá conhecer o amor? Talvez aos nosso olhos, considerando o que temos feito com nossa história e uns com os outros, seria fácil duvidar de que ainda haveria espaço para o amor e a salvação.

Veja, a escolha a ser feita não retira a necessidade de compreensão de si e de seu contexto, nem retira os problemas a serem enfrentados. Apresenta-lhes uma outra solução, outro destino. Não é à toa que o nome de Ezequiel significa “o poder de Deus” ou “força de Deus”. Isso demarcará o livro todo, é um profeta na dependência de Deus. Trata-se, como percebo agora, de fé e o que está em questão é a fé, a confiança em Deus e em seu amor por nós.

O trecho de Ezequiel aqui mencionado era dirigido a pessoas que sabiam de seus erros e estes lhes pesavam, mas não mudavam. O que significa que poderiam mudar. Repito, a culpa não muda, ela apenas satisfaz a si mesma, ainda está no âmbito, paradoxalmente, da arrogância.

Propôs [Jesus] também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros: Dois homens subiram ao templo com o propósito de orar: um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho. O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado. (Lucas 18.9-14)

Isso não foi escrito para que pequemos, ou façamos o mal. De modo algum! Vimos nesses textos que sobre o mal pesa condenação e afastamento de Deus. Não poderia haver nada mais triste para qualquer um de nós do que o afastamento de Deus, um cair no vazio da própria existência, prisioneiro solitário de si mesmo eternamente afastado da luz de Deus, preso no próprio ego. Percebam que as pessoas que fazem ou fizeram o mal, seja qual for sua medida, são espremidas pela culpa, mesmo que profunda e inconsciente, e que sua satisfação é a compensação do mal: a prisão na própria culpa.

A culpa consome, corrói, replica a injustiça e a intransigência, solapa o amor entre as pessoas. O amor liberta, traz vida. Aprendi, ao cabo da minha meditação, que a culpa, além de certa arrogância e altamente destrutiva, é um pecado ainda maior, porque é falta de fé em Deus e de confiança em seu amor por nós. E sem fé não se pode achegar a Deus. Culpa consumidora e endurecimento da consciência, ou libertação oferecida por Deus pelo arrependimento; o que satisfaz mais a quem errou com gravidade? A resposta a essa pergunta, que no último termo é uma pergunta sobre a fé, desenhará o seu caminho.

Visto que as nossas prevaricações e os nossos pecados estão sobre nós, e nós desfalecemos neles, como, pois, viveremos?

Não seja seu próprio juiz, como as pessoas que negavam a Deus (“vós dizeis: Não é reto o caminho do Senhor”), esta não é a única possibilidade. Ninguém disse que seria fácil, é verdade, mas ao contrário de um caminho de dureza de coração e amargura, conheça o amor de Deus: “De todos os seus pecados que cometeu não se fará memória contra ele; juízo e justiça fez; certamente, viverá”. Claro, exige arrependimento, busca da graça do Senhor, não autocomplacência. Mudança de direção. Andemos no poder de Deus e não no de nossos erros. No fim, o que conta é se você tem fé no Senhor, ou não. Porque Ele pode não apenas perdoar, mas restaurar e libertar.

Filhinhos, agora, pois, permanecei nele, para que, quando ele se manifestar, tenhamos confiança e dele não nos afastemos envergonhados na sua vinda. (1 João 2.28).