QUEM É ESSE ANJO? TRADUÇÃO E INTERPRETAÇÃO, ANTIGUIDADE E MODERNIDADE
I PARTE: A ESTRUTURA DO TEXTO E OS SETE ANJOS
Euler Sandeville Jr.
setembro/outubro de 2017, revisão janeiro de 2018

Esta reflexão é sobre os anjos mencionados nos capítulos 2 e 3 de Apocalipse. O trabalho surgiu a partir de uma conversa sobre qual seria o melhor entendimento dessa passagem. A palavra angelō, utilizada no original grego, pode ser traduzida por anjo ou mensageiro. A questão que se coloca é se, neste caso, se refere a mensageiros celestiais ou a humanos. Mais especificamente, há uma tradição evangélica que vê aí uma menção aos pastores, representados pelos anjos e à frente das igrejas. Seria este o sentido?

Este trabalho está organizado em três partes, pensadas para serem lidas em sequência, preferencialmente. A Bibliografia das três partes foi reunida em uma página à parte, que você pode acessar pela III Parte ou pelo Sumário do sítio. No final de cada parte há um link para a seguinte ou para retornar à anterior. Todas as referências bíblicas indicadas neste trabalho apenas pela numeração pertencem ao livro de Apocalipse; as notas ao texto estão disponíveis no final.

A ESTRUTURA DO TEXTO

O primeiro capítulo de Apocalipse é como uma apresentação e endereçamento do livro. Pode estar dividido em duas partes principais. Os versos de 1.1-8 servem como um prefácio e endereçamento das visões a sete igrejas na Ásia Menor. Após esse endereçamento e apresentação do propósito do livro, os versos de 1.9-20 apresentam uma primeira visão em que João se encontra em espírito no Dia do Senhor. Nessa visão do Senhor Jesus, João recebeu dele a ordem de endereçar o que vê e ouve às sete igrejas, o que fica registrado tanto em 1.4 quanto em 1.10,11:

João, às sete igrejas que se encontram na Ásia, graça e paz a vós outros, da parte daquele que é, que era e que há de vir, (…)

Achei-me em espírito, no dia do Senhor, e ouvi, por detrás de mim, grande voz, como de trombeta, dizendo: O que vês escreve em livro e manda às sete igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia.

O capítulo 4 se inicia com uma nova visão:

Depois destas coisas, olhei, e eis que estava uma porta aberta no céu, e a primeira voz que ouvira, voz como de trombeta, falando comigo, disse: Sobe aqui, e mostrar-te-ei as coisas que depois destas devem acontecer. (4.1).

A partir daí as visões no livro de Apocalipse irão referir-se aos juízos mediados por anjos sobre as nações da Terra e à restauração final do reino de Deus. Entretanto, esses juízos gerais são antecedidos por juízos específicos sobre as igrejas nos capítulos 2 e 3, sem solução de continuidade com a visão do capítulo 1, representados pelas mensagens enviadas às sete igrejas. Neste sentido, seria coerente com o restante do Livro e, do meu ponto de vista esperado, que a palavra angelō refira-se também neste caso a mensageiros celestiais.

Jesus revela conhecer as igrejas profundamente e as instrui. Não se deve esquecer que no primeiro verso do livro se indica que a finalidade é “mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer” (1.1). Essas “cartas” às igrejas, como as costumamos chamar, ganham então grande importância, como já nos advertira o apóstolo Pedro:

Porque a ocasião de começar o juízo pela casa de Deus é chegada; ora, se primeiro vem por nós, qual será o fim daqueles que não obedecem ao evangelho de Deus? (1 Pe 4.17).

Os tempos finais começam com um convite para que as igrejas se corrijam, seus erros são indicados, bem como as consequências das escolhas a serem feitas. Estabelecido este ponto, as demais visões do Livro, todas elas mediadas também por mensageiros celestiais, referem-se aos juízos e acontecimentos do fim dos tempos.

OS SETE ANJOS DAS SETE IGREJAS

Achei-me em espírito, no dia do Senhor, e ouvi, por detrás de mim, grande voz, como de trombeta, dizendo: O que vês escreve em livro e manda às sete igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. Voltei-me para ver quem falava comigo e, voltado, vi sete candeeiros de ouro e, no meio dos candeeiros, um semelhante a filho de homem, com vestes talares e cingido, à altura do peito, com uma cinta de ouro. A sua cabeça e cabelos eram brancos como alva lã, como neve; os olhos, como chama de fogo; os pés, semelhantes ao bronze polido, como que refinado numa fornalha; a voz, como voz de muitas águas. Tinha na mão direita sete estrelas, e da boca saía-lhe uma afiada espada de dois gumes. O seu rosto brilhava como o sol na sua força. (1.10-16)

Dessa primeira visão no capítulo 1, na qual João vê o Senhor entre sete candeeiros e com sete estrelas na mão, como acontecerá com outras, é apresentada a chave interpretativa (em 1.19, 20), abrindo as mensagens que serão enviadas nos capítulos 2 e 3:

Escreve, pois, as coisas que viste, e as que são, e as que hão de acontecer depois destas. Quanto ao mistério das sete estrelas [ἀστέρων]  [1] que viste na minha mão direita e aos sete candeeiros [λυχνίας] [2] de ouro, as sete estrelas [ἀστέρες] [3] são os anjos [ἄγγελοι] das sete igrejas, e os sete candeeiros [λυχνίαι] [4] são as sete igrejas.

Observe as notas inseridas na passagem bíblica acima (disponíveis ao final deste trabalho). Segundo a fonte consultada, a palavra grega para estrela [ἀστήρ, έρος, ὁ] é utilizada 24 vezes no Novo Testamento (5 vezes em Mateus, 14 vezes no Apocalipse e as demais em outros livros). Podemos entender o trecho em Mt 2.2,7,910 [5[ como estrela ou, de modo mais improvável, como um anjo. Em Mt 24.29 [6] e Mc 13.25 [7], no contexto escatológico e de referência a poderes do céu, primariamente devem ser entendidos como estrelas. Em 1 Corinthians 15.41 (3 vezes) [8] a estrela é indicada para demonstrar a diferença entre os corpos celestiais (espirituais) e os terrestres. No material de apoio disponível neste sítio indicado abaixo (abrem em uma nova janela) estão relacionadas, entre outras, as palavras ἄστρον, ου, τό; ἀστράπτω; ἀστραπή, ῆς, ἡ; que embora permitam aprofundar este desenvolvimento não trazem aporte diferente para a questão aqui tratada.

Apenas Judas 1:13 [9] as menciona em um contexto de seres espirituais e falsos mestres. Judas merece destaque para o que tratamos aqui. É uma nota triste, em cujo contexto vemos uma comparação dos falsos mestres com estrelas errantes, colocando em uma mesma chave de desobediência anjos malignos e homens rebeldes a Deus. Esse trecho daria algum apoio a uma comparação entre mestres e estrelas?

A a força da imagem, contudo, não está de fato nessa possibilidade. O que se estabelece, efetivamente, é um paralelo com o caminho errante que conduz à condenação dos anjos malignos e o dos falsos mestres. Seria de fato muito difícil entender os sete anjos das igrejas como falsos mestres e mesmo em Judas o que sobressai é a figura de linguagem, claramente referindo-se a homens que não discernem o caminho e são reservados então à perdição (são também comparados a árvores sem frutos, entre outras menções).

Contudo, o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo e disputava a respeito do corpo de Moisés, não se atreveu a proferir juízo infamatório contra ele; pelo contrário, disse: O Senhor te repreenda! Estes, porém, quanto a tudo o que não entendem, difamam; e, quanto a tudo o que compreendem por instinto natural, como brutos sem razão, até nessas coisas se corrompem. Ai deles! Porque prosseguiram pelo caminho de Caim, e, movidos de ganância, se precipitaram no erro de Balaão, e pereceram na revolta de Corá. Estes homens são como rochas submersas, em vossas festas de fraternidade, banqueteando-se juntos sem qualquer recato, pastores que a si mesmos se apascentam; nuvens sem água impelidas pelos ventos; árvores em plena estação dos frutos, destes desprovidas, duplamente mortas, desarraigadas; ondas bravias do mar, que espumam as suas próprias sujidades; estrelas errantes, para as quais tem sido guardada a negridão das trevas, para sempre (Judas 1.9,13)

Em Apocalipse (descontados os trechos que estudamos aqui entre capítulos 1 a 3, nos quais se coloca em discussão seu sentido), as estrelas são mencionadas também em um contexto escatológico de abalo dos poderes celestiais (6:13; 8:10,11,12), de conflito entre o bem e o mal e de juízo; em 9.1 com forte referência a um ser espiritual, reforçando esse entendimento nas demais. Em 22:16 refere-se a Jesus. Apenas em 2 ocorrências, em 12.1-4 (doze estrelas sobre a sua cabeça) podemos encontrar algum paralelo com os capítulos 1 a 3:

Viu-se grande sinal no céu, a saber, uma mulher vestida do sol com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça, que, achando-se grávida, grita com as dores de parto, sofrendo tormentos para dar à luz. Viu-se, também, outro sinal no céu, e eis um dragão, grande, vermelho, com sete cabeças, dez chifres e, nas cabeças, sete diademas. A sua cauda arrastava a terça parte das estrelas do céu, as quais lançou para a terra; e o dragão se deteve em frente da mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o filho quando nascesse. Nasceu-lhe, pois, um filho varão, que há de reger todas as nações com cetro de ferro. E o seu filho foi arrebatado para Deus até ao seu trono.

Ladd (1980, pg. 125), para quem a mulher representa a igreja ideal no céu (o que não me parece ter fundamento), vê uma certa dificuldade na passagem, entendendo que a coroa de doze estrelas “pode ser somente um detalhe que ressalta a majestade da aparência dela” (o que é factível) mas considera ainda que “É possível que as doze estrelas estejam simbolizando os doze patriarcas e as doze tribos de Israel”.

Nessa passagem, entendo que a mulher claramente refere-se a Israel, e o filho que lhe nasce e é arrebatado é Jesus. A coroa de 12 estrelas, seguindo o simbolismo corrente em Apocalipse devem ser anjos, sinais de poder espiritual zelando pelas 12 tribos (que são aqui referência à promessa, ao Israel espiritual diante de Deus). Entretanto, para Beale e McDonough (2014, pg. 1366) as estrelas representam as tribos de Israel e, segundo os autores, no Testamento de Abraão e no Misdrash Rabá de Números o Sol representa Abraão, a Lua Isaque e as estrelas são Jacó e a descendência dos patriarcas.

No entanto, podemos ver nessa passagem que o dragão arrasta um terço das estrelas do céu, mas não as que estão na coroa na cabeça da mulher. Não seria descabido aqui retomar passagens em Daniel, que poderiam reforçar a interpretação dessas estrelas também como anjos. As passagens em Daniel estão também em um contexto de revelação, de visão celestial, onde é clara a mediação de anjos, indicando que para além dos conflitos entre os reinos terrestres, operam forças espirituais. Lembremos que disse o diabo a Jesus no deserto ter o controle espiritual dos reinos da terra (“Disse-lhe o diabo: Dar-te-ei toda esta autoridade e a glória destes reinos, porque ela me foi entregue, e a dou a quem eu quiser”, Lc 4.6). Vejamos as passagens em Daniel:

Eis que certa mão me tocou, sacudiu-me e me pôs sobre os meus joelhos e as palmas das minhas mãos. Ele me disse: Daniel, homem muito amado, está atento às palavras que te vou dizer; levanta-te sobre os pés, porque eis que te sou enviado. Ao falar ele comigo esta palavra, eu me pus em pé, tremendo. Então, me disse: Não temas, Daniel, porque, desde o primeiro dia em que aplicaste o coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, foram ouvidas as tuas palavras; e, por causa das tuas palavras, é que eu vim. Mas o príncipe do reino da Pérsia me resistiu por vinte e um dias; porém Miguel, um dos primeiros príncipes, veio para ajudar-me, e eu obtive vitória sobre os reis da Pérsia. Agora, vim para fazer-te entender o que há de suceder ao teu povo nos últimos dias; porque a visão se refere a dias ainda distantes. (Dn 10.10-14)

Naquele tempo se levantará Miguel, o grande príncipe, que se levanta a favor dos filhos do teu povo; e haverá um tempo de tribulação, qual nunca houve, desde que existiu nação até aquele tempo; mas naquele tempo livrar-se-á o teu povo, todo aquele que for achado escrito no livro. E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno. Os que forem sábios, pois, resplandecerão como o fulgor do firmamento; e os que converterem a muitos para a justiça, como as estrelas sempre e eternamente. Tu, porém, Daniel, cerra as palavras e sela o livro, até o fim do tempo; muitos correrão de uma parte para outra, e a ciência se multiplicará. (Dn 12.1-4)

Devemos olhar com cuidado essas interpretações, embora seja bom o argumento de Beale e McDonough indicado acima, pois outros livros neotestamentários aproveitam material apócrifo, notadamente Judas. Também não creio que a referência que faço a Daniel seja suficiente para explicar o trecho de Apocalipse 12, é apenas uma consideração que não pode ser ignorada, tanto para Apocalipse 2 e 3 quanto para o capítulo 12. Observo que o sol, a lua e as estrelas são mencionados tanto no Apocalipse como em outros livros neotestamentários para indicar os poderes celestiais, em um contexto de crise em que são abalados, como em Mateus 24.26-30 [10]. Nesse sentido parece-me que em todas essas passagens se estabelece uma distinção entre a ordem no cosmos, os poderes celestiais e o poder supremo de Cristo e de Deus. Este é um tema central em Apocalipse e deve ser considerado aqui como seu sentido essencial.

Ainda resta uma diferença fundamental, entre 12.1-4 e os capítulos 2 e 3; a referência possível no capitulo 12 seria aos patriarcas das 12 tribos, mas nos capítulos iniciais teríamos dificuldade de ver o equivalente neotestamentário dos apóstolos. Nestes, os 7 anjos dos capítulos iniciais, evidentemente não são nem patriarcas nem apóstolos, e a sugestão de que seriam humanos em uma posição pastoral não encontra apoio nem na doutrina da igreja em Atos e nas Cartas, nem em outras passagens neotestamentárias. Não me ocorre um lugar no NT onde seja atribuído tal simbolismo a presbíteros, mestres, diáconos. Ao contrário, são parte do corpo, não uma realidade sobreposta e distinta dele como na visão dos candeeiros e estrelas. Esta última frase coloca um ponto central para a compreensão desse texto.

A palavra grega para candeeiro ocorre 12 vezes. Em todas elas o sentido é convergente com Apocalipse 1-3, apenas em Hb 9:2 refere-se ao Tabernáculo no AT e em Ap 11.4 a duas testemunhas. De modo convergente, temos as igrejas como testemunhas de Cristo e do evangelho, como também o foi o Tabernáculo e depois o Templo. É possível ver uma unidade de sentidos na representação dos candeeiros nas Escrituras cristãs. Como ainda se poderá notar no Quadro 1 abaixo, e nas referências indicadas, essas duas palavras – estrela e candeeiro – aparecem relacionadas tão somente em Apocalipse 1 a 3.

As estrelas indicam praticamente em todas as ocasiões anjos ou poderes celestiais ou são citadas em seu contexto, restando apenas a interpretação que se queira dar a Apocalipse 1 a 3 e 12.1 e Judas 1.9. Os candeeiros representam, no meu entendimento, em todos os casos, o testemunho do povo de Deus, onde a luz que deles emana não é uma luz própria, mas aquela que depende da presença do Espírito em seu interior. Até onde consigo perceber, isso mostra uma natureza muito distinta entre as estrelas e os candeeiros em todo o Novo Testamento.

Quadro 1. Menção a estrelas e candeeiros no Novo Testamento, com base no interlinear on line de Bible Hub. Pesquisa e organização do autor.
estrela – ἀστήρ, έρος, ὁ candeeiro – λυχνία, ας, ἡ
Mt 2.2, 7, 9, 10*; 24.29**; Mt 5:15*;
Mc 13.25**; Mc 4:21*;
Lc 8:16; 11:33*;
1 Co 15.41 (2x)***;
Hb 9:2**;
Jd 1.13****;
Ap 1.16, 20 (2x); 2.1, 28; 3.1*****; Ap 1:12, 13,20; 2.1,5;***
Ap 6.13; 8.10,11,12; 9.1; 12.1, 4; 22.16****** Ap 11.4****
* refere-se a uma estrela, pode ser interpretado como anjo

** estrelas, mas refere também a abalar os poderes celestiais

*** estrelas, em contexto de corpos celestiais e terrenos

**** estrelas, como metáfora dos anjos perdidos

***** entendo que se referindo a anjos, outros sugerem pastores

****** em todos os casos referindo-se a anjos, ou no contexto de abalar os poderes do céu, ou ainda ao próprio Cristo; apenas 12.1 pode referir-se às tribos de Israel, ou ainda aos anjos dessas tribos, já que a metáfora de suas vestimentas é celestial e não terrena.

* a imagem da candeia sobre o velador, para sua luz ser vista

** a imagem do candeeiro no santo lugar, antes do santo dos santos

*** referindo-se às igrejas

**** referindo-se às duas testemunhas dos últimos dias (também representadas por oliveiras, parecendo indicar Israel e a igreja, que são mortas, ressuscitam e são arrebatadas)

Segundo um levantamento no qual pude trabalhar com 174 ocorrências da palavra anjo no grego (Quadro 2, reproduzido adiante neste texto), parece-me ficar claro que a palavra grega refere-se inequivocamente a mensageiros humanos apenas em 7 vezes (todas nos evangelhos e uma em Tiago e menos provável em Judas, onde há uma comparação entre os erros dos seres celestiais e o dos falsos mestres).

Das 10 ocorrências que poderíamos interpretar de uma ou de outra forma, mas sendo em meu entendimento em todas mais provável serem seres espirituais, 8 estão no próprio trecho aqui discutido de Apocalipse e as duas restantes em 1 e 2 Coríntios. Isso dá pouca margem de apoio para entender em Apocalipse 2 e 3 mensageiros humanos, ainda mais se considerarmos o contexto de Apocalipse. No evangelho de João as 4 ocorrências são claramente a seres espirituais. Todas as demais 59 ocorrências em Apocalipse idem e, penso, seja este também o caso destas 8 vezes empregadas nos capítulos iniciais (ressalvada uma possível dificuldade de interpretação em 12.1-4).

Retomemos a continuidade do texto em Apocalipse 1 a 3. Tendo apresentado essa primeira visão e explicado o seu significado (1.19, 20), sem qualquer interrupção e de imediato o texto continua com a mensagem às igrejas. À vista do exposto, observemos o texto entre 1.10 e 2.9+, sem as quebras impostas pelos subtítulos estranhos às Escrituras acrescidos nas edições das Bíblias atuais. Isto é, façamos a leitura da tradução na continuidade como foi escrito no grego. Não esqueçamos que Jesus fez questão de revelar a chave da visão (1.20, havendo plena continuidade entre 1.20 e 2.1, ao contrário do que ocorre nossas traduções):

Achei-me em espírito, no dia do Senhor, e ouvi, por detrás de mim, grande voz, como de trombeta, dizendo: O que vês escreve em livro e manda às sete igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. Voltei-me para ver quem falava comigo e, voltado, vi sete candeeiros de ouro e, no meio dos candeeiros, um semelhante a filho de homem, com vestes talares e cingido, à altura do peito, com uma cinta de ouro. A sua cabeça e cabelos eram brancos como alva lã, como neve; os olhos, como chama de fogo; os pés, semelhantes ao bronze polido, como que refinado numa fornalha; a voz, como voz de muitas águas. Tinha na mão direita sete estrelas, e da boca saía-lhe uma afiada espada de dois gumes. O seu rosto brilhava como o sol na sua força. Quando o vi, caí a seus pés como morto. Porém ele pôs sobre mim a mão direita, dizendo: Não temas; eu sou o primeiro e o último e aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno. Escreve, pois, as coisas que viste, e as que são, e as que hão de acontecer depois destas. Quanto ao mistério das sete estrelas que viste na minha mão direita e aos sete candeeiros de ouro, as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candeeiros são as sete igrejas. Ao anjo da igreja em Éfeso escreve: Estas coisas diz aquele que conserva na mão direita as sete estrelas e que anda no meio dos sete candeeiros de ouro: Conheço as tuas obras, tanto o teu labor como a tua perseverança, e que não podes suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos; e tens perseverança, e suportaste provas por causa do meu nome, e não te deixaste esmorecer. Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas. Tens, contudo, a teu favor que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus. Ao anjo da igreja em Esmirna escreve: Estas coisas diz o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver: Conheço (..).

Essas igrejas abrem a revelação profética do Dia do Senhor com esses sete oráculos. Todas elas começam com a frase “Ao anjo da igreja escreve”. Não custa observar que o texto não menciona “cartas”, apenas diz, “Ao anjo da igreja escreve”. Nós é que associamos a ideia de carta, isso não está no texto. De tanto repetirmos “carta às igrejas”, passamos a ler o trecho como tal. De fato, o editor de nossas Bíblias, seguindo esse entendimento, grafa esse subtítulo para a seção, o que não está de fato nas Escrituras. Na verdade, todo o Apocalipse é endereçado a essas igrejas e por extensão a todo o que ouve (1.3; 2.7, 11, 17 e seguintes; 22.18).

A questão na interpretação desse trecho das Escrituras surge porque a palavra anjo (gr.: angelō) também pode ser traduzida como mensageiro e, de fato, o anjo nas Escrituras é primeiramente um mensageiro de Deus. Na maioria dos casos em que a palavra é utilizada o contexto impede uma dupla tradução – anjo ou mensageiro humano, como vimos acima. Neste caso específico, entretanto, surge a possibilidade de indagarmos se o texto se refere a um mensageiro angelical ou humano, como haja quem argumente. Não se trata de mera dificuldade interpretativa de tradução, ou de entendimento na leitura. Embora não sendo esse o centro da mensagem, o modo como decidimos traduzir para as línguas modernas pode ter algumas implicações na forma como representamos a relação das igrejas com Deus e seus enviados.

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NOTAS
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1 ἀστήρ, έρος, ὁ, 24 ocorrências: ἀστὴρ — 4 Occ.; ἀστέρα — 4 Occ.; ἀστέρας — 3 Occ.; ἀστέρες — 5 Occ.; ἀστέρων — 5 Occ.; ἀστέρος — 3 Occ. Mt 2.2, 7, 9, 10; 24.29; Mc 13.25; 1 Co 15.41 (2x); Jd 1.13; Ap 1.16, 20 (2x); 2.1, 28; 3.1; 6.13; 8.10,11,12; 9.1; 12.1, 4; 22.16. Disponível em http://bibliaportugues.com/greek/792.htm. ἀστέρων (asterōn) — 5 ocorrências: 1 Co 15:41; Ap 1:20; Ap 8:12; Ap 12:1; Ap 12:4. Disponível em http://bibliaportugues.com/greek/astero_n_792.htm acessos em 10 de outubro de 2017.

2 λυχνία, ας, ἡ 12 ocorrências; λυχνία — 1 Occ.; λυχνίαι — 2 Occ.; λυχνίαν — 4 Occ.; λυχνίας — 3 Occ.; λυχνιῶν — 2 Occ. Mt 5:15; Mc 4:21; Lc 8:16; 11:33; Hb 9:2; Ap 1:12, 13,20; 2.1,5; 11.4. Disponível em http://bibliaportugues.com/greek/3087.htm. λυχνίας 3 ocorrências Lc 8.16; Ap 1.12, 20. Disponível em http://bibliaportugues.com/greek/luchnias_3087.htm acessos em 10 de outubro de 2017.

3 ἀστέρες (asteres) — 5 ocorrências: Mt 24:29; Mc 13:25; Jd 1:13; Ap 1:20; Ap 6:13. Disponível em http://bibliaportugues.com/greek/asteres_792.htm acessos em 10 de outubro de 2017.

4 λυχνίαι (lychniai) — 2 ocorrências: Ap 1.20; 11.4. Disponível em http://bibliaportugues.com/greek/asteres_792.htm acesso em 10 de outubro de 2017.

5 “Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, em dias do rei Herodes, eis que vieram uns magos do Oriente a Jerusalém. E perguntavam: Onde está o recém-nascido Rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos para adorá-lo. Tendo ouvido isso, alarmou-se o rei Herodes, e, com ele, toda a Jerusalém; então, convocando todos os principais sacerdotes e escribas do povo, indagava deles onde o Cristo deveria nascer. Em Belém da Judeia, responderam eles, porque assim está escrito por intermédio do profeta: E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as principais de Judá; porque de ti sairá o Guia que há de apascentar a meu povo, Israel. Com isto, Herodes, tendo chamado secretamente os magos, inquiriu deles com precisão quanto ao tempo em que a estrela aparecera. E, enviando-os a Belém, disse-lhes: Ide informar-vos cuidadosamente a respeito do menino; e, quando o tiverdes encontrado, avisai-me, para eu também ir adorá-lo. 9 Depois de ouvirem o rei, partiram; e eis que a estrela que viram no Oriente os precedia, até que, chegando, parou sobre onde estava o menino. E, vendo eles a estrela, alegraram-se com grande e intenso júbilo.” Mt 2.1-10.

6 “Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados.  Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória.” Mt 24.29, 30.

7 “Mas, naqueles dias, após a referida tribulação, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade,  as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados. Então, verão o Filho do Homem vir nas nuvens, com grande poder e glória. E ele enviará os anjos e reunirá os seus escolhidos dos quatro ventos, da extremidade da terra até à extremidade do céu.” Mc 13.24-27.

8 “Uma é a glória do sol, outra, a glória da lua, e outra, a das estrelas; porque até entre estrela e estrela há diferenças de esplendor.” 1 Co 15.41.

9 “Ora, estes, da mesma sorte, quais sonhadores alucinados, não só contaminam a carne, como também rejeitam governo e difamam autoridades superiores. Contudo, o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo e disputava a respeito do corpo de Moisés, não se atreveu a proferir juízo infamatório contra ele; pelo contrário, disse: O Senhor te repreenda! Estes, porém, quanto a tudo o que não entendem, difamam; e, quanto a tudo o que compreendem por instinto natural, como brutos sem razão, até nessas coisas se corrompem. Ai deles! Porque prosseguiram pelo caminho de Caim, e, movidos de ganância, se precipitaram no erro de Balaão, e pereceram na revolta de Corá. Estes homens são como rochas submersas, em vossas festas de fraternidade, banqueteando-se juntos sem qualquer recato, pastores que a si mesmos se apascentam; nuvens sem água impelidas pelos ventos; árvores em plena estação dos frutos, destes desprovidas, duplamente mortas, desarraigadas; ondas bravias do mar, que espumam as suas próprias sujidades; estrelas errantes, para as quais tem sido guardada a negridão das trevas, para sempre.” Jd 1.8-13.

10 “Portanto, se vos disserem: Eis que ele está no deserto!, não saiais. Ou: Ei-lo no interior da casa!, não acrediteis. Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até no ocidente, assim há de ser a vinda do Filho do Homem. Onde estiver o cadáver, aí se ajuntarão os abutres. Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados. Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória.” (Mt 24.26-30)