QUEM É ESSE ANJO? TRADUÇÃO E INTERPRETAÇÃO, ANTIGUIDADE E MODERNIDADE.
III PARTE: SERES CELESTIAIS E SERES TERRENOS
Euler Sandeville Jr.
setembro/outubro de 2017

Esta reflexão é sobre os anjos mencionados nos capítulos 2 e 3 de Apocalipse. O trabalho surgiu a partir de uma conversa sobre qual seria o melhor entendimento dessa passagem. A palavra angelō, utilizada no original grego, pode ser traduzida por anjo ou mensageiro. A questão que se coloca é se, neste caso, se refere a mensageiros celestiais ou a humanos. Mais especificamente, há uma tradição evangélica que vê aí uma menção aos pastores, representados pelos anjos e à frente das igrejas. Seria este o sentido?

Este trabalho está organizado em três partes, pensadas para serem lidas em sequência, preferencialmente. Se ainda não leu a primeira parte, clique aqui, se ainda não leu a segunda parte clique aqui.

 

SERES CELESTIAIS E TERRENOS

Até onde estudei, o contexto do livro de Apocalipse não favorece tal interpretação, embora não a impeça de todo. O Apocalipse de João é um livro de visões endereçado aos servos de Deus, conservos entre si no mundo terreno e celestial, para mostrar coisas por vir, enviado por intermédio de um anjo (1.1) e operada através de anjos, como entre os capítulos 4 e 22. Seria coerente que também nos capítulos 2 e 3 fosse assim, mostrando uma profunda unidade no Apocalipse. Das cerca de 174 ou 176 vezes que a palavra grega que traduzimos como anjo ocorre no Novo Testamento, como já vimos, 67 delas ocorrem no livro de Apocalipse (quase 40% das ocorrências)! Lembremos ainda que João também contempla os eventos em espírito. Os anjos são os agentes enviados por Deus em todo o livro para ministrar seus juízos. Começa assim em 1.1 e seguintes e assim vai por todo o livro até o final (22.6,16 [1]).

Em 1.12-20 Jesus está no meio dos candeeiros, e as estrelas (os anjos) estão em sua mão. Não são a mesma realidade os candeeiros e as estrelas, nem têm a mesma natureza; os candeeiros não têm luz própria, senão na habitação do Espírito (Mt 22.30; 1 Co 6.19) [2], já os anjos, têm sua luz na presença do Senhor. Os candeeiros (os humanos) e as estrelas não têm a mesma matéria, não são os mesmos corpos:

Também há corpos celestiais e corpos terrestres; e, sem dúvida, uma é a glória dos celestiais, e outra, a dos terrestres. Uma é a glória [δόξα] do sol, outra, a glória da lua, e outra, a das estrelas [ἀστέρων]; porque até entre estrela [ἀστὴρ] e estrela [ἀστέρος] há diferenças de esplendor [δόξῃ]. Pois assim também é a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo na corrupção, ressuscita na incorrupção. Semeia-se em desonra, ressuscita em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder. Semeia-se corpo natural [ψυχικόν], ressuscita corpo espiritual [πνευματικόν]. Se há corpo natural, há também corpo espiritual. Pois assim está escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente. O último Adão, porém, é espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, e sim o natural; depois, o espiritual. O primeiro homem, formado da terra, é terreno; o segundo homem é do céu. Como foi o primeiro homem, o terreno, tais são também os demais homens terrenos; e, como é o homem celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do que é terreno, devemos trazer também a imagem do celestial. (1 Co 15.40-49).

Podemos ainda considerar o contexto do gênero literário. A literatura apocalíptica tornou-se um gênero extremamente utilizado na cultura judaica. Vamos encontrá-lo em livros proféticos da Tanakh e em uma fértil literatura apócrifa, que pelo menos do século III a.C. se estende pelo tempo do cristianismo primitivo. John Collins (2010) fez um minucioso estudo do gênero. Segundo ele, “a primeira obra introduzida como um apokalypsis é o Apocalipse de João” (p.20). Aqui a referência não é a um gênero, mas a uma revelação, embora muitas das características do gênero possam ser encontradas no livro de João. De fato, a ideia de que havia um conjunto de escritos que pudesse ser caracterizada como apocalíptica é introduzida no século XIX, segundo Collins (2010, p. 19) por Friedrich Lücke, em uma publicação de 1932.

A síntese de Lucke foi provocada em parte pela edição recente de I Enoque por Richard Laurence (que também editou A Ascensão de Isaías, que Lücke discutiu como um apocalipse cristão). A lista de obras apocalípticas judaicas incluía Daniel, I Enoque, 4 Esdras e os Oráculos Sibilinos, e ele aduziu essa literatura como pano de fundo para o Apocalipse de João. Descobertas subsequentes aumentaram o corpus e modificaram o perfil do gênero: 2 e 3 Baruc, 2 Enoque, o Apocalipse de Abraão e o Testamento de Abraão foram todos publicados na parte final do século dezenove.

Uma análise da literatura considerada apocalíptica foi realizada no Projeto de Gêneros da Society of Biblical Literature, publicados em Semeia 14 (1979). Ainda segundo Collins (2010, p. 22) nesse estudo

(…) define-se um apocalipse como “um gênero de literatura revelatória com estrutura narrativa, no qual a revelação a um receptor humano é mediada por um ser sobrenatural, desvendando uma realidade transcendente que tanto é temporal, na medida em que vislumbra uma salvação escatológica, quanto espacial, na medida em que envolve outro mundo, sobrenatural”.

Collins segue com uma detalhada análise do que seria como gênero literário, percorrendo as discussões dos diversos autores, que não vem ao caso problematizar aqui. Para nós, neste momento, não interessa tanto o gênero, mas entender que essa mediação do sobrenatural através de um mensageiro angelical era parte da cultura hebraica e do primeiro cristianismo. Em Apocalipse não estamos apenas diante de um campo cultural, mas de uma visão dada pelo próprio Senhor. Para nós, que vivemos em uma sociedade em grande medida cética e ancorada na matéria, tendemos a nos distanciar das realidades espirituais, e remeter, mesmo que discretamente, os anjos a um domínio do simbólico.

Essa questão bem mereceria um desenvolvimento à parte, como aliás o complexo entendimento dos anjos, que percorrem de modo muito concreto as escrituras do Gênesis ao Apocalipse. Por hora basta entendermos que uma eventual dificuldade em reconhecer a existência e mediação de anjos não é a dificuldade que emana da leitura dos textos bíblicos (e dos apócrifos). Se ocorre, é uma dificuldade nossa de vislumbrar o mundo celestial, imersos como estamos em uma cultura materialista e imediata. No entanto, esses símbolos não são apenas figuras de linguagem como uma interpretação moderna poderia desejar, são de fato reais na relação com o mundo invisível. Invisível, mas real, e invisível até que os olhos sejam abertos para percebê-los, como foi para o perverso Balaão [3], para João no Apocalipse, ou para o moço que servia Eliseu:

Tendo-se levantado muito cedo o moço do homem de Deus e saído, eis que tropas, cavalos e carros haviam cercado a cidade; então, o seu moço lhe disse: Ai! Meu senhor! Que faremos? Ele respondeu: Não temas, porque mais são os que estão conosco do que os que estão com eles. Orou Eliseu e disse: SENHOR, peço-te que lhe abras os olhos para que veja. O SENHOR abriu os olhos do moço, e ele viu que o monte estava cheio de cavalos e carros de fogo, em redor de Eliseu. (2 Rs 6. 15-17).

Nesse sentido, tendo a pensar, pelas razões expostas, que o anjo/mensageiro em Apocalipse 2 e 3 é de fato um anjo. No entanto, reconhecendo o direito à dúvida, as duas outras possibilidades – de um mensageiro humano e de um presbítero – não podem ser descartadas. Considero ainda que, como Jesus dá a interpretação da visão a João (1.20), deveria parecer claro a eles o significado do texto. O problema talvez só exista para nós, em outro contexto e tempo, e valendo-nos de outra linguagem. Finalmente, pareceu-me prudente consultar alguns autores que tinha ao meu alcance. A posição deles vai na mesma direção que fui embora não desenvolvam uma argumentação a respeito. O que não impede, como eles mesmos indicam, a possibilidade de irmos em outra direção. A partir deste ponto, basicamente cito autores consultados para confrontar (ou não) o entendimento que vinha tendo, e ao final apresento breves considerações à guisa de conclusão.

Segundo O Novo Dicionário Internacional de Teológico do Novo Testamento, editado por Lothar Coenen (no alemão) e Colin Brown (1984, pg. 227), “angelos se acha 175 vezes no NT [4] (51 vezes nos Sinópticos, 21 em Atos, 67 em Apocalipse). Emprega-se com respeito a homens apenas 6 vezes (Lc 7:24, 9:52 [5], Tg 2:25 [6], e Mt 11:10 [7], Mc 1:2b [8], Lc 7:27 [9] ao citarem Ml 3:1)”. Confira na primeira e segunda partes deste artigo o levantamento que fiz a esse respeito. Sobre o Apocalipse menciona: “É provável que ‘os anjos das igrejas’ (Ap 1:20, 2:1 etc.) sejam realmente anjos e não pastores”.

A Strong’s Concordance (disponível em http://bibliaportugues.com/greek/32.htm, acesso em 30 de setembro de 2017) traz um rico e extenso comentário. Transcrevo um trecho de HELPS Word-studies copyright © 1987, 2011 by Helps Ministries, Inc. (http://helpsbible.com/):

32 (ággelos) is used 176 times in the NT (usually of heavenly angels), but only the context determines whether a human or celestial messenger is intended. For example, 32 (ággelos) in Rev 1:20 can refer to heavenly angels or key leaders (perhaps pastors) of the seven churches.

[32 (ággelos) can refer to “a human messenger” (cf. John the Baptist, Mt 11:10, quoting Mal 3:1; see also Lk 7:24, 9:52). 32 /ággelos (plural, angeloi) refers to heavenly angels over 150 times in the NT, i.e. spiritual beings created by God to serve His plan.

In Rev 2, 3, “angels” seems to refer to heavenly angels that serve God in conjunction with these seven local churches.

(Rev 2:1) – “Probably ‘the angels of the churches’ (Rev 1:20, 2:1, etc.) – i.e. really angels, and not pastors” (DNTT, Vol 1, 103).

Em Thayer’s Greek Lexicon STRONGS NT 32: ἄγγελος, no mesmo endereço digital, encontramos – talvez com certo exagero – em “who exercise such a superintendence and guardianship over”:

3. Guardian angels of individuals are mentioned in Matthew 18:10; Acts 12:15. ‘The angels of the churches’ in Revelation 1:20; Revelation 2:1, 8, 12, 18; Revelation 3:1, 7, 14 are not their presbyters or bishops, but heavenly spirits who exercise such a superintendence and guardianship over them that whatever in their assemblies is worthy of praise or of censure is counted to the praise or the blame of their angels also, as though the latter infused their spirit into the assemblies; cf. DeWette, Düsterdieck (Alford) on Revelation 1:20, and Lücke, Einl. in d. Offenb. d. Johan. ii., p. 429f, edition 2; (Lightfoot on Philip., p. 199f).

Para George Ladd, em seu comentário do Apocalipse (2014, pg 29):

A expressão os anjos das sete igrejas, representados pelas sete estrelas na mão de Cristo, é difícil interpretar, principalmente porque cada uma das sete cartas foi dirigida ao anjo da respectiva igreja. Isto fez muitos comentadores concluírem que o anjo representa o bispo da igreja. Esta seria uma boa saída, se não fosse contra a maneira de o Novo Testamento usar o termo. A palavra aggelos não é usada para líderes cristãos, e nas sete cartas nem anjos nem bispos são repreendidos. Um outro significado de aggelos é “mensageiro”, e os “anjos” poderiam ser os sete mensageiros que levaram as cartas às igrejas. Se este fosse o caso é difícil entender porque as cartas foram dirigidas aos mensageiros e não às próprias igrejas. O significado apropriado da palavra é anjo, e a ideia natural é que as igrejas na terra têm anjos que as representam no céu. Mas em toda a literatura apocalíptica não há a figura de anjos representando ou simbolizando homens. Alguns têm tido a impressão que os anjos são anjos-da-guarda das igrejas. A melhor maneira de entender isto é que este seria um símbolo incomum para representar o caráter celestial e sobrenatural da igreja.

Entretanto, colocaria uma ressalva à última frase de Ladd. Ela não me parece de modo algum necessária, embora coerente em seu texto. Beale e McDonough (2014) em seu comentário de Apocalipse e Bernard McGinn (1997) não se ocupam da questão, embora sejam importantíssimos na análise da estrutura do Apocalipse e em toda a literatura apocalíptica apócrifa. Finalmente, consultei também a Bíblia de Jerusalém, que observa sobre o ponto que procuramos entender aqui:

Conforme as ideias judaicas, não somente o mundo material era regido pelos anjos (cf. Ap 7,1; 14,18; 16,5), mas também as pessoas e as comunidades (cf. Ex 23.20+). Considera-se, pois, que cada Igreja é governada por um anjo responsável, e a cada anjo será enviada uma carta. As Igrejas todavia, estão na mão de Cristo, sob seu poder e sua proteção.

É um exagero dizer “governada por um anjo responsável” como aparece nesse comentário e uma visão nesse ponto equivocada da igreja, tal como ensinada nas Escrituras. Sua função não é de governo, mas de levar a mensagem! De qualquer forma, este foi o material complementar à leitura do texto bíblico que me foi possível consultar. As opiniões caminham basicamente na mesma direção do entendimento que tive, mas, certamente, uma pesquisa de maior fôlego encontraria uma exposição querendo entender aí pastores, como esses autores indicam haver e como frequentemente poderemos ouvir no ambiente evangélico. Considerando que minha leitura foi na mesma direção dos autores que consultei, devo esclarecer que não dispunha de um conhecimento prévio que dirigisse minhas escolhas. Se foram na direção da leitura que faço, não houve intenção de omitir outros. Entendo ainda, pelo contexto e pelos versos já citados que, embora a mensagem pareça endereçada ao anjo, ele é apenas o mensageiro; são de fato mensagens de Jesus endereçadas às igrejas, o que é coerente com o restante do Apocalipse e com as próprias mensagens.

 

OS ANJOS DAS IGREJAS ERAM ANJOS?

Se me perguntarem como entendo a passagem, diria que os mensageiros das igrejas em Apocalipse são sem dúvida anjos. A mediação entre João, o anjo da igreja e a igreja é uma mediação invisível entre o mundo espiritual e o material, como indiquei na primeira parte deste artigo, ao me referir às visões de Daniel e João. Mas se alguém entender diferente, reconheço que não foi possível chegar a uma conclusão que elimine totalmente as possibilidades de dúvidas neste caso, embora o estudo aqui apresentado me pareça suficiente para colocar em uma condição remota essa possibilidade, que atribuo sobretudo à tradição recente e ao contexto eclesiástico.

Não está de todo excluída essa possibilidade interpretativa, mesmo que não me pareça a melhor. Até porque o problema vem de uma dupla possibilidade de entendimento – anjo e mensageiro, de onde se desdobra uma terceira, pastor, que não havia nesses termos na época em que foi escrito. Bastaria lermos mensageiro (mas essa palavra em português limita muito o campo semântico original) e ficarmos em paz com isso. De qualquer forma, aceite-se ou não uma posição ou outra, a reflexão sobre seu conteúdo me permitiu descortinar melhor a realidade tal como revelada nas Escrituras. Ainda que não sendo capaz de concluir de modo cabal, esse estudo permitiu ampliar minha visão de mundo e da relação entre o visível e o invisível para nós.

Finalmente, esclareço que o procedimento que utilizei foi primeiro a leitura do texto bíblico em oração, uma primeira consulta ao interlinear para só então consultar os comentaristas de que dispunha, já com este texto avançado. Na sequência retomei de modo mais sistemático o estudo das diversas ocorrências da palavra a partir do interlinear, retornando a este texto com os resultados. Senti dúvidas em muitos momentos se valeria aprofundar-me nessa passagem, nessa questão específica. Então me ocorreu que há coisas que nos escapam, entendimentos que não podemos alcançar senão através dos símbolos, das metáforas e das visões, não porque não sejam reais, mas exatamente porque são reais e nossa mente não consegue abarcar toda a existência e daí o recurso ao símbolo. Não precisamos saber tudo, mas o que podemos saber é mais do que suficiente para assegurar uma vida de intimidade com o Senhor, se o que nos leva às Escrituras é a fé. Esta é a maravilha de nossa humanidade, que Ele nos amou, que nos alerta sobre as coisas por vir, que nos aguarda no tempo certo e que seus propósitos não são frustrados.

A vida abriga mistérios. Aliás, esta é exatamente a palavra – μυστήριον – que Jesus utiliza em 1.20 ao explanar o sentido dos sete candeeiros e estrelas! O nosso Senhor tem em suas mãos a vida e a morte, e nos enviou seus servos, sejam os anjos, sejam os humanos, para nos revelar o que precisamos saber para a vida piedosa com os que invocam o Seu Nome.

Devemos aceitar e nos comprazer com algum mistério, para apreendermos a dimensão extraordinária da vida e da existência. Nesse sentido, repito a conclusão a que havia chegado anteriormente neste texto; seria para o sentido do texto bíblico totalmente supérfluo definir esses anjos como pastores, devendo-se aceitá-los como angelō, sem entrar no mérito de sua natureza. Esta me parece a melhor possibilidade, mas coloca a leitura em um campo intuitivo difícil de aceitar para o contexto moderno preso ás categorias e classes, inclusive dos seres e da bios.

Seja quem pensemos ser o mensageiro, isso não muda a mensagem enviada às igrejas, e a responsabilidade de cada um de ouvi-la e praticá-la. Esta advertência – Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas – é repetida sete vezes nesse mesmo trecho.

Nesse sentido, a atualidade dos ensinos em Apocalipse 2 e 3 é imensa, como deve ser evidente a quem quer que olhe para si mesmo e ao seu redor, e é bem legítimo tê-las como coisas que ainda são, ou seja, que devemos contemplar no âmbito da fé. Ter ouvidos para ouvir. Não é essencial estabelecer de modo fechado quem seja esse ἀγγέλῳ, ao contrário, mas é indispensável não perdermos a simplicidade na leitura.

Devemos atentar fundamentalmente para a mensagem que nos é dirigida, se somos nascidos de novo na igreja de Cristo, que deve ser luz, testemunho do Senhor até seu retorno. Não nos esqueçamos, essa luz não é inerente a nós mesmos, bem o sabemos (e como sabemos!), juntos somos apenas o candeeiro se em nosso meio está Cristo e se andamos segundo seus ensinos e sua vontade. Como na parábola das noivas, em um capítulo que anuncia a vinda de Jesus com seus anjos:

Então, o reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas [λαμπάδας [10]], saíram a encontrar-se com o noivo. Cinco dentre elas eram néscias, e cinco, prudentes. As néscias, ao tomarem as suas lâmpadas [λαμπάδας], não levaram azeite consigo; no entanto, as prudentes, além das lâmpadas [λαμπάδων], levaram azeite nas vasilhas. E, tardando o noivo, foram todas tomadas de sono e adormeceram. Mas, à meia-noite, ouviu-se um grito: Eis o noivo! Saí ao seu encontro! Então, se levantaram todas aquelas virgens e prepararam as suas lâmpadas [λαμπάδας]. E as néscias disseram às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas [λαμπάδες] estão-se apagando. Mas as prudentes responderam: Não, para que não nos falte a nós e a vós outras! Ide, antes, aos que o vendem e comprai-o. E, saindo elas para comprar, chegou o noivo, e as que estavam apercebidas entraram com ele para as bodas; e fechou-se a porta. Mt 25. 1-10.

Essencial ainda perceber que, não importando se através de João, e de um mensageiro humano ou celestial, se de homens ou de anjos, devemos ouvir o que o Espírito nos fala (1.7, 11, 17, 29; 3.6, 13, 22). A mensagem dada ao anjo não é de João, é revelada por Jesus, quem diz às igrejas é o Espírito. Quanto aos mensageiros, quem é João, e quem são os anjos afinal?

Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer e que ele, enviando por intermédio do seu anjo, notificou ao seu servo João 1.1

Eu, João, irmão vosso e companheiro na tribulação, no reino e na perseverança, em Jesus, achei-me na ilha chamada Patmos, por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus. 1.9

Eu, João, sou o que ouvi e vi estas coisas. E quando as ouvi e vi, prostrei-me aos pés do anjo que mas mostrava, para o adorar. Mas ele me disse: Olha, não faças tal; porque eu sou conservo teu e de teus irmãos, os profetas, e dos que guardam as palavras deste livro. Adora a Deus. 22.8,9

E, por fim:

Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos testificar estas coisas a favor das igrejas. 22.16

Não são todos eles [os anjos] espíritos ministradores, enviados para serviço a favor dos que hão de herdar a salvação? (Hebreus 1.14)

Eis a parte que nos cabe, na qual ainda tantas vezes temos que nos defrontar conosco mesmo:

Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus (…) (Hb 12.1,2+).

Não é a isso exatamente a que nos convida o texto em Apocalipse 2 e 3?

 

clique aqui para ir para a bibliografia citada no trabalho

 

NOTAS
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1 “Disse-me ainda: Estas palavras são fiéis e verdadeiras. O Senhor, o Deus dos espíritos dos profetas, enviou seu anjo para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer.”; “Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos testificar estas coisas às igrejas. Eu sou a Raiz e a Geração de Davi, a brilhante Estrela da manhã. [17] O Espírito e a noiva dizem: Vem! Aquele que ouve, diga: Vem! Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida”.

2 “Porque, na ressurreição, nem casam, nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos no céu.” (Mt 22.30); “Acaso, não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos?” (1 Co 6.19).

3 “Então, o SENHOR abriu os olhos a Balaão, ele viu o Anjo do SENHOR, que estava no caminho, com a sua espada desembainhada na mão; pelo que inclinou a cabeça e prostrou-se com o rosto em terra. Então, o Anjo do SENHOR lhe disse: Por que já três vezes espancaste a jumenta? Eis que eu saí como teu adversário, porque o teu caminho é perverso diante de mim; a jumenta me viu e já três vezes se desviou de diante de mim; na verdade, eu, agora, te haveria matado e a ela deixaria com vida.” Num 22;31-33.

4 O interlinear que consultado apontara 176 vezes, como indicado anteriormente.

5 “E aconteceu que, ao se completarem os dias em que devia ele ser assunto ao céu, manifestou, no semblante, a intrépida resolução de ir para Jerusalém e enviou mensageiros que o antecedessem. Indo eles, entraram numa aldeia de samaritanos para lhe preparar pousada.” (Lc 9.51-52).

6 “De igual modo, não foi também justificada por obras a meretriz Raabe, quando acolheu os emissários e os fez partir por outro caminho? ” (Tg 2:25).

7 “Este [referindo-se a João Batista] é de quem está escrito: Eis aí eu envio diante da tua face o meu mensageiro, o qual preparará o teu caminho diante de ti.” (Mt 11:10)

8 “Conforme está escrito na profecia de Isaías: Eis aí envio diante da tua face o meu mensageiro, o qual preparará o teu caminho; ” (Mc 1:2)

9 “Tendo-se retirado os mensageiros, passou Jesus a dizer ao povo a respeito de João: Que saístes a ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Que saístes a ver? Um homem vestido de roupas finas? Os que se vestem bem e vivem no luxo assistem nos palácios dos reis. Sim, que saístes a ver? Um profeta? Sim, eu vos digo, e muito mais que profeta. Este é aquele de quem está escrito: Eis aí envio diante da tua face o meu mensageiro, o qual preparará o teu caminho diante de ti. ” (Lc 7:24-27)

10 Para a comparação entre o emprego de candeeiro e de lâmpada, veja Sandeville Jr. 2017b.