I. BUSCAR A DEUS: I.07. POR QUE BUSCO A DEUS?
Euler Sandeville, 28/06/2018

 

Depois de escrever todas as outras coisas que escrevi aqui, pensei que seria razoável dizer porque busco a Deus.

Acho que muitas pessoas, pelo menos ouço isso, O buscam porque desejam conseguir algo, superar algo, por cura ou bençãos, por ajuda ou até mesmo por ambição, por medo do presente ou da morte. Isso nem sempre tem raiz verdadeira. Enfim, a lista pode ser grande. Não posso dizer qual é a razão de cada um. Também ouço as razões que me dizem para não buscar, ou porque tal pessoa me diz que não busca. Por vezes é uma lista grande de razões também, entre elas mágoa de alguma coisa que viveu, de alguém que perdeu, de algo que não conseguiu, dos enganos das regras da religião, medo de se decepcionar, de não acreditar nas Escrituras, e até mesmo porque querendo acreditar não consegue.

Mas, e as minhas razões, quais são?

Há um momento que algo em mim leva a responder e a reconhecer esse convite de amor que Deus nos faz, como está escrito, por exemplo, no Salmo 19. Como se opera em mim essa resposta? Quais são as minhas razões? Qual a motivação que me moveu? Minha resposta é simples, e está no fim deste texto; melhor, vou colocá-la abaixo, embora o convide a ler algumas reflexões que fiz ao pensar sobre isso.

A resposta então que tenho a dar é simples: a minha razão para buscar a Deus é porque Ele é Deus.

Como suspira a corça

pelas correntes das águas,

assim, por ti, ó Deus,

suspira a minha alma.

A minha alma tem sede de Deus,

do Deus vivo;

quando irei e me verei

perante a face de Deus?

Salmo 42.1,2

Há um pequeno verso em Eclesiastes 3.11 que me ajuda a começar a pensar isso. Não estou dizendo que compreenda toda a extensão desse texto, e nem mesmo da minha experiência, mas que me ajuda a refletir. Diz o verso:

Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim.

Acho que em determinado momento da minha vida me dei conta de que parecia haver algo mais. Que algo me escapava, e era minha própria razão de existir. Não no sentido de alguém que se desapega, ou de dramas existencialistas, mas algo muito mais profundo, a própria razão maior de existir. Entre todas as belezas, todos os desejos, sonhos e realizações, de tudo o que podemos buscar, colecionar ou adquirir, parece que ainda fica no coração um oco e uma intuição que não tem a forma de nada disso.

De fato, tudo fez Deus formoso, e é tudo magnífico. E não podemos entender e nem mesmo enumerar minimamente suas obras. Podemos descrever as estrelas, especular sobre suas forças, e nos admirarmos de sua imensidão e beleza, mas quanto mais desbravamos e desdobramos hipóteses, mais algo essencial parece ficar longe. Podemos descrever vários dos processos da vida, mas de fato, não me parece que a entendemos, que a podemos realmente explicar.

O mais importante ainda não é isso. Essa eternidade no coração do homem parece significar essa disposição para conhecer, e ao mesmo tempo saber que algo nos transcende. É como uma assinatura, algo sem o que parece que há um lugar que só Ele pode preencher. Talvez seja o maior dos convites, mas não sabemos, conhecemos e não conhecemos.

Procurei então lembrar do que me levou a buscá-lo, e como foi isso. Era uma sede de algo mais. De verdade. De sentido essencial. De significado. Recordo de ter pensado, se há Deus, então nada será maior do que Ele. Nenhum conhecimento será mais elevado, nenhum poder mais forte, nenhum mistério mais profundo. A própria Vida. Mas Ele ainda não estava nessa compreensão.

Havia uma necessidade de Verdade. Sempre me interessei pela razão das coisas, desde pequeno. Sempre me interessei, desde pequeno, por ver o mecanismo por traz das engrenagens, as motivações e sentimentos por dentro das falas e posturas. Mas agora era maior do que isso.

Pensei, se há Deus, como não buscá-lo, não indagar por Ele em meu coração, em tudo o que vejo? Não é uma atitude de orgulho, é uma atitude de humildade. Se o encontrar, Nele estará tudo e o que precisar, se precisar, Ele poderá me conceder se quiser e o que Ele não quiser que tenha ou saiba melhor não ter nem saber. Não é necessário saber tudo, isso se torna um modo de ignorância e presunção, não de sabedoria. A sabedoria é saber usar e praticar o que se tem, e a maior parte das coisas essenciais e vitais, do que é necessário, é absolutamente simples.

Mas esse arrazoamento ainda não descreve a busca que ardia em mim. Estamos diante do Criador de todas as coisas, de quem provém toda a vida, toda a beleza, toda a sabedoria, porque Ele próprio é a Beleza, a Sabedoria, a Vida, a Verdade. Está aí uma boa razão. Sentia como que sede, uma sede que apenas o conhecimento Dele poderia dessedentar.

Aí a diferença, a minha compreensão da Sua grandeza, a suposição de Sua presença, ainda não me preenchia. Não se tratava de conhecimento sobre Deus, mas de um contato direto com Ele, o Deus vivo, não nas ideias nem na religião, nem em nada que possamos imaginar. Como diz no Salmo, Minha alma tem sede de Deus, do deus vivo. Não se trata de conhecimento, mas de experiência, de comunhão, de ser tocado por Ele, de conhecê-lo verdadeiramente. Essa era uma sede ardente, não buscava uma ideia, uma sensação, ou uma benesse qualquer, a única satisfação que poderia haver seria o próprio Deus vivo, criador de tudo e todas as coisas. Não é algo que se mereça, não é algo que se deva receber por ser melhor do que outros, ao contrário. Essa experiência leva à humildade, à consciência de nossa própria dimensão nessa existência e diante Dele, tal como Jesus nos disse no “Sermão do Monte” (Mateus 5 a 7).

No capítulo 55 do profeta Isaías está escrito:

Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite. Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão, e o vosso suor, naquilo que não satisfaz? Ouvi-me atentamente, comei o que é bom e vos deleitareis com finos manjares. Inclinai os ouvidos e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua…”.

Este era o meu sentimento, mas seria possível?

Eu tenho essa sede. Sinto necessidade de Deus e posso buscá-lo, mas é Ele quem se revela a mim, e dessedenta a minha alma. Há coisas que pela metáfora podemos entender melhor do que por qualquer explicação. Ao provar dessa água, ao mesmo tempo vi que ela estava em Jesus, e Jesus Nele. É difícil explicar, mas então compreendi quando li:

No último dia, o grande dia da festa, levantou-se Jesus e exclamou: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. (João 7. 37,38)

A resposta então que tenho a dar é simples. A razão para buscar a Deus é porque Ele é Deus. E Ele é Bom.

Como suspira a corça

pelas correntes das águas,

assim, por ti, ó Deus,

suspira a minha alma.

A minha alma tem sede de Deus,

do Deus vivo;

quando irei e me verei

perante a face de Deus?

Salmo 42.1,2