II.2. O QUE É A INJUSTIÇA?

1.4 Por esta causa a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta; porque o ímpio cerca o justo, de sorte que a justiça é pervertida.

Para responder a essa pergunta vou me ater inicialmente aos dois capítulos iniciais do livro de Habacuque, procurando extrair das denúncias que apresenta a Deus e das respostas que recebe algumas características da injustiça. Outros Livros das Escrituras mostram ainda outras características; especialmente os profetas Amós e Oseias as descrevem em profusão. Também muitas das cartas e livros do Novo Testamento nos advertem sobre outros aspectos e consequências da injustiça, da ganância, da vontade de poder de uns sobre os outros.

Nota: No texto a seguir, a citação bíblica vem marcada pelo verso com dois números, como X.Y, onde X é o capítulo e Y o verso; por exemplo, 1.2 significa capítulo 1, verso 2. No final da página, você poderá ler todo o capítulo 1 e o 2 de que trata esta mensagem.

Uma das principais características da injustiça é o recurso à violência e sua multiplicação de modo crescente (1.2). É produzida pela iniquidade – sendo o oposto da equidade, a iniquidade envolve ainda a maldade, a injustiça, a perversidade. Com isso, gera opressão (sensação de sufocamento, humilhação, tirania) (1.3). Sua prática é a rapina (ou a destruição, o saque, a apropriação do que é de outros), com o exercício exacerbado e desleal de inúmeros litígios e contendas contra o outro (1.3), causando portanto aflição àqueles que são mais fracos e estão em seu caminho ou àqueles que desejam usar para seus fins ou se apropriar para seu enriquecimento. Nesse sentido, a injustiça é sempre um ato covarde, ainda que alardeando uma superioridade de força, intimidação e violência.

Sua consequência é o afrouxamento da lei, a perversão do direito, que não se estabelece. Fazendo isso, a justiça é torcida (alterada, confundida), pervertida (1.4). Atrai maldades ainda maiores, de outros que vêm a possibilidade de saquear as terras fragilizadas pela violência (1.6-11), que desejam conquistar o que foi conquistado com a injustiça (no caso de Habacuque, Deus suscita os caldeus, que se apoderariam de Judá que havia se esbaldado com a injustiça contra seu próprio povo). A injustiça, a iniquidade, a violência, é feroz (cruel, amarga) e impetuosa (insaciável, voluptuosa, impulsiva), e tem como objetivo enriquecimento e glória (arrogância, vaidade, autopromoção e exaltação simbólica exacerbada de si) (2.16) e para tanto se apodera de moradas e riquezas que não são suas (1.6).

É bastante indicativa de sua natureza (1.7) que a injustiça tem, nela própria, e não no direito, a autorreferência para seu discernimento (ou falta de discernimento) e sua grandeza (orgulho, exaltação, riqueza); ou seja, criam eles mesmos (e para eles próprios) uma noção de direito e de dignidade a partir de si mesmos, à revelia do que é justo e coletivo. Pessoas que agem assim, frequentemente tornam-se juízes implacáveis, justiceiros tomando a justiça com as próprias mãos contra os outros, para defenderem suas posições à revelia da dignidade, da justiça e da misericórdia (que não conhecem). Frequentemente escarnecem e riem do que se opõem a eles, desprezam tudo o que se coloca em seu caminho ou em contradição com o que desejam, por sentirem-se fortes o suficiente para derrotar e se apropriar do que queiram (1.10). A razão é porque são soberbos e sua alma não é reta, ainda que se justifiquem pela própria ganância e força com que conquistam as riquezas. (2.4). Uma outra característica é que, mesmo quando têm alguma religião, esta é engano (2.18,19), uma vez que, de fato, seu deus é o poder (2.11).

Em decorrência do próprio caminho e práticas, tendem a perder para outros ainda mais gananciosos e ágeis o controle de seus processos, por lançarem anzóis e redes uns sobre os outros à medida em que conquistam o que querem e entendem que sua riqueza é sua própria força, não vendo limite para o que intentam (1.14-17). Falam coisas soberbas e não se fartam, juntam as riquezas fundadas no engano e acumulam o que não é deles (atraindo contra eles o rancor daqueles que oprimem e roubam), seus lucros são criminosos, com ganhos injustos para construir sua casa e enchê-la de bens pensando poder escapar da “mão da desgraça”. Edificam a cidade com sangue e a fundamentam com a iniquidade (2.5-12).

Não se dão conta de que estão pecando contra a própria alma, que sua injustiça os alcançará. Saciados com a própria ignomínia, sua vergonha é evidente a todos e fica visível que sua injustiça está inscrita em todas as suas obras, testemunhando contra eles até as paredes (não terão paz), sendo assombrados e afligidos pelas próprias ações e realizações, indo buscar socorro nas ilusões e superstições, agindo como ignorantes desperdiçando o que pensam ter conquistado (2.10-19). As aflições que trazem para si mesmos os prendem nesse processo do qual se tornam escravos, sempre temendo perder o que conquistaram, seguem conquistando mais e mais, sem perceber a desgraça de que se investiram (os cinco “ais” que Habacuque pronuncia).

A questão central em todas essas coisas, na busca da justiça ou na prática da injustiça e da maldade, está naquilo a que se apega o coração. O cristão necessita procurar um caminho em tudo diferente desse, tal como diz o SENHOR a Habacuque (2.4): “Eis inflado de orgulho aquele cuja alma não é reta, mas o justo viverá por sua fidelidade”. Mas o Livro de Habacuque mostra algo mais, especialmente no capítulo 3; mostra que o profeta deve crescer, superar a amargura que a própria visão da injustiça traz, e esse crescimento é tanto espiritual quanto em direção ao outro, conforme podemos ver nos livros de Habacuque e de Jonas.

Como minha motivação é pensar minha própria conduta como cristão, vou ainda retornar a Habacuque e Jonas, refletindo a partir do crescimento nada fácil desses dois profetas, sobre esse tratamento e libertação do coração na comunhão com Deus, e em direção a Deus e ao outro, antes de pensar um pouco mais sobre a injustiça – inclusive sobre uma forma mais sutil de injustiça que é o preconceito e o julgamento do outro de quem nos consideramos distantes, que não apareceu no Livro de Habacuque -, e sobre o modo como devemos (os cristãos) enfrentá-la sem sermos capturados por sua amargura e sem reproduzirmos sua violência. Aprendizado difícil, cheio de percalços, mas que pode ser a passos cada vez mais firmes para o que crê em Deus e na morte e ressurreição do Senhor Jesus, e que não fará mal algum a quem queira aprender, mesmo sem a benção dessa fé, em tempos de barbárie e antagonismo como esses em que vivemos.

Euler Sandeville Jr. São paulo, 20 de agosto de 2018


Nota: Utilizei nessa leitura acima uma comparação das traduções da Almeida Revista e Atualizada, Almeida Atualizada e Bíblia de Jerusalém.

Transcrevo a seguir os capítulos 1 e 2 de Habacuque que utilizei aqui. A tradução a seguir é a da Almeida Atualizada.

1 O oráculo que o profeta Habacuque viu.

2 Até quando Senhor, clamarei eu, e tu não escutarás? ou gritarei a ti: Violência! e não salvarás?

3 Por que razão me fazes ver a iniquidade, e a opressão? Pois a destruição e a violência estão diante de mim; há também contendas, e o litígio é suscitado.

4 Por esta causa a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta; porque o ímpio cerca o justo, de sorte que a justiça é pervertida.

5 Vede entre as nações, e olhai; maravilhai-vos e admirai-vos; porque realizo em vossos dias uma obra, que vós não acreditareis, quando vos for contada.

6 Pois eis que suscito os caldeus, essa nação feroz e impetuosa, que marcha sobre a largura da terra para se apoderar de moradas que não são suas.

7 Ela é terrível e espantosa; dela mesma sai o seu juízo e a sua dignidade.

8 Os seis cavalos são mais ligeiros do que os leopardos, se mais ferozes do que os lobos a tarde; os seus cavaleiros espalham-se por toda a parte; sim, os seus cavaleiros vêm de longe; voam como a águia que se apressa a devorar.

9 Eles todos vêm com violência; a sua vanguarda irrompe como o vento oriental; eles ajuntam cativos como areia.

10 Escarnecem dos reis, e dos príncipes fazem zombaria; eles se riem de todas as fortalezas; porque, amontoando terra, as tomam.

11 Então passam impetuosamente, como um vento, e seguem, mas eles são culpados, esses cujo próprio poder e o seu deus.

12 Não és tu desde a eternidade, ó Senhor meu Deus, meu santo? Nós não morreremos. Senhor, para juízo puseste este povo; e tu, ó Rocha, o estabeleceste para correção.

13 Tu que és tão puro de olhos que não podes ver o mal, e que não podes contemplar a perversidade, por que olhas pára os que procedem aleivosamente, e te calas enquanto o ímpio devora aquele que e mais justo do que ele.

14 E farias os homens como os peixes do mar, como os répteis, que não têm quem os governe.

15 Ele a todos levanta com o anzol, apanha-os com a sua rede; e os ajunta na sua rede varredoura; por isso ele se alegra e se regozija.

16 Por isso sacrifica à sua rede, e queima incenso à sua varredoura; porque por elas enriquece a sua porção, e e abundante a sua comida.

17 Porventura por isso continuara esvaziando a sua rede e matando sem piedade os povos?

2

1 Sobre a minha torre de vigia me colocarei e sobre a fortaleza me apresentarei e vigiarei, para ver o que me dirá, e o que eu responderei no tocante, a minha queixa.

2 Então o Senhor me respondeu , e disse: Escreve a visão e torna-se bem legível sobre tabuas, para que a possa ler quem passa correndo.

3 Pois a visão é ainda para o tempo determinado, e se apressa para o fim. Ainda que se demore, espera-o; porque certamente virá, não tardará.

4 Eis o soberbo! A sua alma não é reta nele; mas o justo pela sua fé viverá.

5 Além disso, o vinho é traidor; o homem soberbo não permanece. Ele alarga como o Seol o seu desejo; como a morte, nunca se pode fartar, mas ajunta a si todas as nações, e congrega a si todos os povos.

6 Não levantarão, pois, todos estes contra ele um provérbio e um dito zombador? E dirão: Ai daquele que acumula o que não é seu! (até quando?) e daquele que se carrega a si mesmo de penhores!

7 Não se levantarão de repente os teus credores? e não despertarão os que te farão tremer? Então lhes servirás tu de despojo.

8 Visto como despojaste muitas nações, os demais povos te despojarão a ti, por causa do sangue dos homens, e da violência para com á terra, a cidade, e todos os que nela habitam.

9 Ai daquele que adquire para a sua casa lucros criminosos, para pôr o seu ninho no alto, a fim de se livrar das garras da calamidade!

10 Vergonha maquinaste para a tua casa; destruindo tu a muitos povos, pecaste contra a tua alma.

11 pois a pedra clamará da parede, e a trave lhe responderá do madeiramento.

12 Ai daquele que edifica a cidade com sangue, e que funda a cidade com iniquidade!

13 Acaso não procede do Senhor dos exércitos que os povos trabalhem para o fogo e as nações se cansem em vão?

14 Pois a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar.

15 Ai daquele que da de beber ao seu próximo, adicionando à bebida o seu furor, e que o embebeda para ver a sua nudez!

16 Serás farto de ignomínia em lugar de honra; bebe tu também, e sê como um incircunciso; o cálice da mão direita do Senhor se chegará a ti, e ignomínia cairá sobre a tua glória.

17 Pois a violência cometida contra o Líbano te cobrirá, e bem assim a destruição das feras te amedrontará por causa do sangue dos homens, e da violência para com a terra, a cidade e todos os que nele habitam.

18 Que aproveita a imagem esculpida, tendo-a esculpido o seu artífice? a imagem de fundição, que ensina a mentira? Pois o artífice confia na sua própria obra, quando forma ídolos mudos.

19 Ai daquele que diz ao pau: Acorda; e à pedra muda: Desperta! Pode isso ensinar? Eis que está coberto de ouro e de prata, e dentro dele não há espírito algum.

20 Mas o Senhor está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra; cale-se diante dele toda a terra.