II.5. A VAIDADE DA INTRANSIGÊNCIA E DO PRECONCEITO.

Nem sempre as pessoas lidam bem com a contrariedade, com o ser contrariado. Tanto pior quando o desprezo mútuo está na origem da rejeição, logo tida como afronta. Saber as razões dessas diferenças também não é suficiente para superar o conflito arraigado; aliás, ao invés de contribuir para sua compreensão, pode, na verdade, servir para acirrar sua justificativa. A ira e a irritação, quando não a revanche e o ódio, são o caminho mais comum nesses casos.

Certa vez Jesus resolveu ir a Jerusalém, sendo necessário atravessar a Samaria. A organização social e territorial entre a Samaria e a Judeia era complexa e marcada por antagonismo secular. Ora, os samaritanos e judeus se hostilizavam mutuamente, não se suportavam, por vezes nem consideravam legítimo conversarem, quanto mais conviverem. Havia razões profundamente arraigadas para isso, que conheciam bem e podiam contá-las e enumerá-las avidamente. Ainda assim, o trânsito entre essas províncias, que além disso eram parte de importantes rotas comerciais e de peregrinação regionais, era uma condição inevitável e incontornável para aquelas pessoas.

Como a jornada fosse longa, Jesus precisava pernoitar em uma das cidades samaritanas, mas, naquelas em que buscou uma estalagem, não foi recebido por ser judeu e por estar se dirigindo para as festas em Jerusalém. Como se vê, era grande a tensão entre os dois grupos étnicos e políticos. Dois dos discípulos de Jesus indignaram-se com o tratamento dado ao seu mestre. Ainda inexperientes, Tiago e João, que depois encontraremos vendo as coisas e as pessoas de um modo muito diferente, perguntam a Jesus revoltados: “Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?”.

Esta era uma imprecação muito séria. Além disso, era uma utilização equivocada e deslocada de um trecho das Escrituras judaicas, que se referia ao profeta Elias, quando este foi enviado a advertir por sua idolatria ao rei de Israel Acabe, justamente no território de Samaria.

O que temos aqui? Um acontecimento em que as pessoas, tanto umas quanto outras, são rejeitadas a priori pelo que representam e a contradição gera o conflito e a exclusão. A recusa da hospitalidade naqueles tempos era algo muito grave. Como resposta à dureza do coração de uns, temos a dureza do coração de outros com um uso equivocado das Escrituras, motivado pela situação assim gerada e reproduzindo o mesmo fato gerador da discórdia, a mesma condição cultural e histórica, como se estivessem acima dela. Aqueles homens não se olhavam mutuamente, não se viam como próximos, mas fundamentalmente como outros. E o outro era naquele tempo um inimigo.

Qual foi a resposta de Jesus? Teria ele dito que se faça assim, que se amaldiçoe a esses homens? Acho que você já sabe que não.

Com muita frequência as pessoas parecem estar encontrando razões para desejar que um fogo de vingança consuma o outro. Pior, vindo do céu, ou da própria razão. Que se destrua aquele que não nos recebeu, que nos contradisse. Essa atitude foi repreendida por Jesus, chamando a um outro entendimento e prática. Outra compreensão e outra ação. Sua atitude não é de imposição, apenas se dirige a outra povoação, onde o quisessem receber. Vejamos o texto:

Mas não o receberam, porque o seu rosto estava voltado para Jerusalém [significa que ia para Jerusalém]. Vendo isso, os discípulos Tiago e João disseram: “Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?”. Mas ele, voltando-se, repreendeu-os. E foram para outra povoação. (Lucas 9.53-56).

Essa tradução dá o alcance do texto de modo muito poético. A meta de Jesus era ir a Jerusalém para as festas, expressa na bela frase “seu rosto estava voltado para Jerusalém”, indicando todo o movimento de seu corpo e de sua motivação. Mas, diante da manifestação dos discípulos, Jesus voltava-se então para eles (“Mas ele, voltando-se…”).

Essa sua repreensão tem implicada a necessidade de compreensão do Evangelho, que seus discípulos ainda não discerniam bem apesar de caminharem juntos. Muitos manuscritos trazem ainda a explicação característica da mensagem dos evangelhos: “Pois o Filho do Homem [o Cristo] não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las”.

Não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las. Este é o evangelho.

Na próxima mensagem veremos, nas Antigas Escrituras, através de um dos profetas judaicos, que esse desejo de vingança é comum aos humanos diante dos outros, sobretudo diante da injustiça, mas que isso não só não realiza a vontade de Deus, como a ela se opõe e ainda nos afasta d’Ele.

Euler Sandeville, 30 de setembro de 2018